Oficinas de auto-estima

Posted on 05/10/2007

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por Nadja Santos

“Eu, antes das oficinas, vivia isolada, me achava feia. Os meninos da Escola botavam apelido em mim e me chamavam de cabelo duro, nega maluca, carvão, e eu achava que tudo era verdade. Agora, me acho linda e me gabo com minha cor, meu ensino e acabei com o racismo em relação as pessoas que me criticavam, hoje estou feliz”. Esse relato é da estudante Deyse Carla, 12 anos, aluna do Colégio Pirajá da Silva. O depoimento ocorreu no Núcleo de Multiplicadores da História e Cultura Africana e Afro brasileira promovido pelo Coordenadoria Regional de Educação do bairro da Liberdade, o maior bairro negro da América Latina, sob orientação da consultora Hildalia Fernandes.

O CRE (Coordenadoria Regional de Educação) da Liberdade auxilia 27 escolas da rede municipal de ensino, o órgão é mantido pela prefeitura para acompanhar de perto a situação do ensino de cada bairro. Existem 11 coordenadorias funcionando na cidade, a do bairro da Liberdade é a de número 4. Os cursos fornecidos pela Coordenadoria são ferramentas para serem usadas na sala de aula, pelos educadores e coordenadores. As orientações da grade de ensino não são apenas as de fins pedagógicos, do currículo escolar infanto-juvenil e sim trabalham com o diferencial que é orientar os professores e diretores a lidar com a diversidade racial e social nas salas de aula e remeter a valorização da História Africana, cercada muitas vezes de mitos e preconceituosas referências.

O governo federal, em 9 de janeiro de 2003, tornou obrigatório nos Ensinos Fundamental e Médio (públicos ou particulares), o estudo sobre a História e Cultura Afro-Brasileira para propor um novo olhar sobre a África e o negro brasileiro. Segundo Jô Bahia, coordenadora do CRE da liberdade, a lei não funciona sozinha: “É preciso envolver não apenas os alunos matriculados, mas também toda a sociedade, para que ela veja a História da África sob um ângulo real e aprenda a ver a contribuição social, econômica e cultural do negro na sociedade brasileira, sem mistificações ou visões européias”.

O CRE promove desde 2005, com o apoio da Secretária Municipal de Educação, oficinas que englobam os alunos, educadores e a família deles no intuito de combater o racismo e preconceito na quais as crianças são vítimas diariamente, inclusive dentro da própria família. A oficina que reúne alunos de escolas públicas do bairro tem por objetivo mostrar a História Africana, sob a ótica de fora da sala de aula, com foco principal a situação do negro na mídia em geral, trançando um paralelo entre ser negro e ajudando os alunos à não desenvolver preconceito pela própria raça, pois é notada que a maioria delas se sente feias, comparadas a outras crianças não-negras.

“Precisamos tocar nesse assunto na sala de aula diariamente. Há crianças aqui sem nenhuma base familiar que entram na sala com piadas racistas ou fazendo comparações de negros a animais, o papel do professor é interromper de imediato esse tipo de agressão, que faz com que o aluno discriminado não se sinta inferior, pois assim é bem mais fácil dele abandonar a escola, por se sentir incapaz”, afirma a professora Claúdia Leite, da Escola Intendente Francisco de Souza, também participante da Oficina.

As oficinas têm a participação de todas as matérias. Há lições de Geografia da África, e nas aulas, os assuntos vão do Egito ao Apartheid na África do Sul, política e economia antes e depois do processo de colonização e entre outros assuntos ligados a atualidade. As aulas mostram também, personagens reais como o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e grandes personalidades negras do Brasil, como o geógrafo Milton Santos que desenvolveu grandes pesquisas sobre a Geografia no Terceiro Mundo, popular entre o meio acadêmico, porém pouco conhecido do grande público.

Projeto sem patrocínio
Devido à crise da prefeitura é possível que no ano de 2007, o projeto não seja tão grandioso quanto nos anos anteriores devido à falta de verba. A Secretaria de Reparação Social (SEMUR), que atua juntamente com a Secretaria Municipal de Educação na implantação da lei 10.639 informa que não há como disponibilizar pelo menos nesse primeiro semestre o capital necessário para o andamento do projeto, já que é uma ação paralela as já desenvolvidas pelo órgão. CRE da Liberdade continuará com as oficinas pelo menos com os alunos, as atividades serão mantidas para não haver uma interrupção do projeto que deu resultados positivos, como o aumento no interesse das aulas e a diminuição de situações de preconceito entre os alunos.
(maio de 2007)

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