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	<title>SOTEROPOLITANOS</title>
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	<description>Cultura afro-brasileira</description>
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		<title>SOTEROPOLITANOS</title>
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		<title>Capoeira é na roda e na vida</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jun 2009 23:13:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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por Jéssica Brandão e Taiana Laiz
Do alto, mestre Bimba contempla o reconhecimento que tanto esperou na sociedade baiana. Tombada como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) no mês de julho de 2008, o título concedido pela instituição reconhece o ofício de mestre e professor de capoeira que não são formados em [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=151&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://jornalfalacomunidade.files.wordpress.com/2008/10/foto-jessica-brandao.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-682" title="foto-jessica-brandao" src="http://jornalfalacomunidade.files.wordpress.com/2008/10/foto-jessica-brandao.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">por Jéssica Brandão e Taiana Laiz</p>
<p style="text-align:justify;">Do alto, mestre Bimba contempla o reconhecimento que tanto esperou na sociedade baiana. Tombada como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) no mês de julho de 2008, o título concedido pela instituição reconhece o ofício de mestre e professor de capoeira que não são formados em faculdades e universidades. “A capoeira e o capoeirista hoje, é um ser multifacetado. Temos desde o mestre velho analfabeto, o mestre doutor de universidade, até ao mestre honores causa em universidade estrangeira”, explica o professor de história e capoeirista do grupo Palmares Hanka Nogueira.<br />
<span id="more-151"></span><br />
Segundo a Liga Baiana de Capoeira, os constantes problemas ocorridos entre mestres de capoeira e os Conselhos Regionais de Educação Física foi o principal fator que levou ao tombamento da arte.  Os conselhos não admitiam que mestres sem escolarização formal ensinassem a arte.</p>
<p style="text-align:justify;">A valorização da capoeira através do tombamento do Ipac auxilia no desenvolvimento social, cultural e esportivo, criando um espaço de inserção de jovens carentes em projetos educacionais, é o que declara Nogueira: “Salvador, por ser a cidade com os piores índices sociais do país precisa de incentivo a práticas que visem a socialização que já não temos nas ruas. Perdemos as ruas para a violência, ninguém se sente mais seguro em lugar algum da cidade”.</p>
<p style="text-align:justify;">O reconhecimento social da capoeira como patrimônio cultural e histórico da humanidade representa uma importante conquista na história de lutas dos negros. Com os mais de 500 grupos presentes em toda a Bahia, a capoeira tem alcançado territórios estrangeiros e quebrado preconceitos antes nunca imaginados. “A capoeira já está no mundo todo, o que precisa é ser mais valorizada, principalmente aqui no Brasil. Por que a capoeira lá fora é valorizada, mais aqui dentro, principalmente os mestres mais antigos não tão tendo esse valor”, afirma Jackson Valentim, 25 anos, professor de capoeira do grupo Camugerê.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>É dia de roda -</strong> A prática da capoeira é desenvolvida em diversos lugares, dentro e fora do Brasil. Com o seu reconhecimento nacional, muitos mestres e professores esperam o incentivo do governo federal para o financiamento de eventos, projetos sociais e centros de pesquisas que envolvam a capoeira. “Eu acho que agora que o governo valorizou ainda mais a capoeira, ele vai estar dando uma melhor assistência”, declara Márcio Nascimento, 31 anos, professor de capoeira e integrante do grupo Gueto Capoeira.</p>
<p style="text-align:justify;">Nascimento acredita na possibilidade de mudanças, “o governo vai dar uma força ao estudante capoeirista e aos adolescentes que estão desempregados. Vai haver mais emprego e uma visibilidade maior, engrandecendo cada vez mais a capoeira”. E Nogueira na valorização, “o tombamento da capoeira serve para dar à capoeira a importância que sempre teve do ponto de vista social, da sua riqueza cultural e esportiva”.</p>
<p>Considerada um esporte acessível, que disciplina, instrui e garante uma diversão barata em família, “a prática da capoeira por se desenvolver sempre em grupo, através de exercícios lúdicos e coletivos, é ainda uma oportunidade barata, e muitas das vezes, gratuita de diversão que se tem em bairros pobres da cidade”, afirma Nogueira.</p>
<p style="text-align:justify;">“Capoeira é nada roda e na vida”, lembra Nogueira recitando os ensinamentos que trouxe o mestre Nô do grupo Palmares. A capoeira hoje, deixou de ser marginalizada e faz parte do cotidiano das manifestações culturais do país.</p>
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		<title>Alta costura afro-baiana</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 23:45:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[baiana]]></category>
		<category><![CDATA[irmandade boa morte]]></category>
		<category><![CDATA[pano-da-costa]]></category>
		<category><![CDATA[torço]]></category>

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Foto de Ricardo Prado



Indumentária afro-brasileira sobrevive como símbolo da cultura, da religião e da resistência dos negros no país.
por Adriana Jacob*
adriana-jacob@uol.com.br
Começa através das mãos da mãe, da avó ou da madrinha de um recém-nascido o primeiro ritual pelo qual passa uma criança nos terreiros de matriz africana. São elas que tecem ou encomendam um tecido [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=118&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;">
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align:justify;">
<dl class="wp-caption aligncenter">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado-31.jpg"><img class="size-full wp-image-120" title="credito-ricardo-prado-31" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado-31.jpg?w=319&#038;h=455" alt="Foto de Ricardo Prado" width="319" height="455" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Foto de Ricardo Prado</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Indumentária afro-brasileira sobrevive como símbolo da cultura, da religião e da resistência dos negros no país.</p>
<p style="text-align:justify;">por Adriana Jacob*<br />
adriana-jacob@uol.com.br</p>
<p style="text-align:justify;">Começa através das mãos da mãe, da avó ou da madrinha de um recém-nascido o primeiro ritual pelo qual passa uma criança nos terreiros de matriz africana. São elas que tecem ou encomendam um tecido que terá significado especial por toda a existência do descendente e mesmo após sua passagem pela terra. Dezesseis dias depois de nascer, a mão materna envolve o bebê no pano da costa especialmente lavado, incensado e perfumado para a ocasião. É assim que tem início o ikomojadê, cerimônia que apresenta, pela primeira vez, um novo filho ou filha às divindades reverenciadas no candomblé.<span id="more-118"></span></p>
<p style="text-align:justify;">É sobre esse tecido que a criança fica deitada, enquanto o líder religioso da casa profere palavras sagradas de prosperidade ao recém-nascido. O grupo faz saudações especiais diante de Xangô, Dadá, Oxum e Iemanjá. Depois, derrama um pouco da água da quartinha na cabeça da criança. Em alguns locais, nesse momento é escolhido um nome em iorubá para o bebê. “É uma comemoração à vida, ao nascimento. Você só pede coisas boas para aquele bebê. Esse tecido branco vai acompanhá-lo para sempre”, explica e egbomi Cici, do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju e pesquisadora da Fundação Pierre Verger.</p>
<p style="text-align:justify;">Guardado pela família, o tecido do Ikomojadê estará ao lado da criança até o dia em que, jovem ou adulta, se despeça da vida. Ainda que o ritual tenha variações – em algumas casas, ocorre no nono dia – ele revela pistas da importância da indumentária para a cultura negro-africana transportada pelo processo forçado da diáspora.</p>
<p style="text-align:justify;">Um pedaço de pano pode simbolizar a sobrevivência de toda uma identidade e conservar detalhes fundamentais de uma cultura. É possível perceber as diferenças entre o povo de nação jeje, angola e iorubá apenas pela maneira de amarrar o torço na cabeça, só para citar um exemplo. O simples gesto de prender os cabelos num turbante, herança que sobrevive através das vestes das baianas de acarajé, preserva a riqueza de um hábito iniciado do outro lado do mar.</p>
<p style="text-align:justify;">E não foram apenas os escravos seguidores da religião de raiz africana que reafirmaram a identidade através da forma de se vestir. Os negros muçulmanos eram tão reconhecidos por suas roupas nas ruas da velha Salvador que, graças a elas, foi possível constatar o papel central desempenhado pelos malês na rebelião de 1835. “Os rebeldes – ou uma boa parte deles – foram para as ruas com roupas usadas na Bahia pelos adeptos do islamismo. No corpo de muitos dos que morreram a polícia encontrou amuletos muçulmanos e papéis com rezas e passagens do Qur’an usados para proteção. Essas e outras marcas da revolta levaram o chefe da polícia Francisco Gonçalves Martins a concluir o óbvio: ‘o certo’, escreveu ele, ‘é que a religião tinha sua parte na sublevação’”, descreve o pesquisador João José Reis em Rebelião Escrava no Brasil.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align:justify;">
<dl class="wp-caption aligncenter">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/bata21.jpg"><img class="size-full wp-image-122" title="bata21" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/bata21.jpg?w=276&#038;h=335" alt="Foto de Haroldo Abrantes" width="276" height="335" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Foto de Haroldo Abrantes</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Vestir-se bem é questão de honra entre os africanos e seus descendentes. Seja para homenagear uma divindade ou para mostrar prosperidade, é preciso estar elegante. Elegância não necessariamente à européia, apesar de alguns itens do vestuário nagô terem, sim, influência nas volumosas anáguas e rendas da Corte. O charme de um traje africano está na combinação de cores fortes, ou no branco soberano. Está no jeito de amarrar, sem dar um único nó, um tecido na cintura, e ele não cair nem com o mais rápido dos movimentos. Está na escolha de acessórios que, quanto mais tribais, mais contemporâneos parecem. Não é sem razão que os ícones da moda resgatam, cada vez com maior freqüência, as influências étnicas. Estampas, balangandãs, colares, brincos e pulseiras têm espaço hoje até mesmo nas mais badaladas vitrines.</p>
<p style="text-align:justify;">O segredo de seu uso, entretanto, é guardado para poucos. É preciso ter a personalidade de quem não se curva diante das adversidades para exibir sobre o corpo, com elegância, cada uma dessas peças. A pele negra reluzente ajuda, mas não é só isso. Há uma sutileza no caminhar, no jeito de se sentar e até no modo de encarar alguém. Quem se entrega, de corpo e alma, à história preservada em uma roupa, esse sim, ganha porte de rei ou rainha.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Partido-alto</strong><br />
De tão bem vestidas, as negras da irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte arrancaram aplausos entusiasmados de milhares de pessoas no desfile do 4º centenário de Salvador, em 1949. Impressionado com os torços, saias rendadas, cordões e brincos de ouro, Odorico Tavares classificou a passagem desse grupo de “pretas baianas, de idade avançada, caminhando serena e nobremente, como se fossem autênticas rainhas” como o maior momento do cortejo.</p>
<p style="text-align:justify;">Roupa é assunto tão sério que o termo “mulher de saia”, na década de 30, designava um grupo de baixo poder aquisitivo, que se opunha às mulheres de vestido. Talvez como vingança às más línguas que apontavam com desdém e pena as mulheres que precisavam trabalhar, aquelas que se destacavam no ramo respondiam com luxo às críticas. Comerciantes de sucesso, desbravaram mercados, cozinharam, lavaram, costuraram e muitas juntaram dinheiro suficiente para comprar boas roupas e jóias de ouro reluzente. Surgiam, assim, as famosas negras do partido-alto. A roupa usada por elas nos dias de festa, o traje de crioula, deu origem ao vestuário da baiana de acarajé.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/balangandas2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-125" title="balangandas2" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/balangandas2.jpg?w=400&#038;h=309" alt="" width="400" height="309" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Da rua e das irmandades para o interior dos terreiros, o cuidado com a forma de se vestir é o mesmo. Agradar ao orixá, inquice ou vodum, nomes diferentes para as mesmas forças da natureza nas nações de origem ketu, angola ou jeje, respectivamente, é sem dúvida uma de suas principais razões. No candomblé, a divindade traz a energia fundamental, o axé, através do corpo do iniciado. Para recebê-lo, há trajes com cores e peças específicas, além de acessórios como ferramentas e fios de contas. Juntos, eles narram a história de cada entidade. Ajudam a contar, através dos movimentos da dança, os atos heróicos e exemplares do orixá.</p>
<p style="text-align:justify;">“A roupa é a expressão mais sofisticada de uma religião que trabalha com o elemento estético como determinante”, afirma o historiador Jaime Sodré. A indumentária em um terreiro é tão organizada que expressa, inclusive, os graus hierárquicos de seus filhos. Só os mais antigos devem usar os trajes mais paramentados, cheios de fitas e bordados. É uma forma de reverenciar a sabedoria dos mais velhos.</p>
<p style="text-align:justify;">Se os antigos filhos de orixá aprendiam a confeccionar suas próprias roupas no período de iniciação religiosa, hoje essa tradição corre o risco de se perder. Alguns terreiros têm promovido oficinas para transmitir às novas gerações o legado artístico de seus antepassados. O poder dessa alta costura de origem africana é tão forte que há muito ultrapassou a porteira dos terreiros. Reflexos dessa influência podem ser percebidos pelas ruas da cidade. “Basta olharmos a quantidade de pessoas vestidas de branco na sexta-feira, dia de Oxalá, e os homens e mulheres de vermelho na quarta, dia de Xangô e Iansã”, descreve Jaime Sodré. Mesmo sem ligação com a religiosidade, o simples hábito de adotar, no cotidiano, elementos de inspiração afro-brasileira revela que, mais do que uma forma de cobrir o corpo, a indumentária tem a capacidade de preservar parte importante da identidade e da cultura de um povo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>HIERARQUIA DO TRAJE</strong><br />
Somente aos mais antigos iniciados do candomblé é permitido o uso de todos os elementos do figurino afro-brasileiro.</p>
<p style="text-align:justify;">A beleza dos trajes de ialorixás como Mãe Menininha do Gantois, Mãe Senhora, Olga de Alaketu, Gaiaku Luiza, Mãe Runhó e tantas outras exprime mais do que o esmero das costuras impecáveis. Quem conhece o universo da religião dos orixás sabe que somente pessoas com alto grau hierárquico podem usar todos os elementos do figurino afro-brasileiro. No candomblé, o tempo de iniciação religiosa é diretamente proporcional à importância e à reverência feita a cada membro da comunidade. Lá, o tema cada vez mais atual do respeito à terceira idade sempre foi regra. Nos terreiros, cabelos brancos são sinal de autoridade.</p>
<div id="attachment_126" class="wp-caption aligncenter" style="width: 333px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/mae-tata.jpg"><img class="size-full wp-image-126" title="mae-tata" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/mae-tata.jpg?w=323&#038;h=479" alt="Foto de Welton Araújo" width="323" height="479" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Welton Araújo</p></div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Por mais posses e dinheiro que um iniciante tenha, ele terá que começar como todos os outros: vestindo a roupa de ração. A vestimenta dos abiãs, nome dado aos recém-chegados, assim como a dos iaôs e muzenzas – espécies de noviços – é a mais simples possível. Branca dos pés à cabeça, confeccionada em morim, inclui o camisu ou camisa de crioula. Para os homens, a calça de ração. Para as mulheres, a saia de crioula. A cabeça, parte do corpo mais importante por guardar o axé, estará sempre coberta pelo ojá. Tudo sem rendas, babados ou decotes.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Cor ancestral</strong><br />
“O branco, que representa a paz, é a cor de Oxalá, o pai de todos os orixás. Ele não é respeitado apenas pelas pessoas, mas também pelas outras divindades”, explica a ekede Cinha, do Terreiro da Casa Branca. Associado à ancestralidade, o branco de Oxalá é a cor utilizada no “nascimento” de um novo iniciado e também nos rituais fúnebres, chamados de axexê. “Para nós, a vida e a morte têm quase o mesmo significado, porque não acreditamos em um fim. Quando morremos, viramos ancestrais”, explica a ekede.</p>
<p style="text-align:justify;">Nenhuma fita enfeita a barra da saia de uma iaô. O primeiro adereço é adicionado quando ela completa um ano de iniciação. No terceiro ano, ganha mais duas fitas. No sétimo, são mais quatro. “Serão feitas roupas belíssimas de acordo com o tempo de iniciação e também com as posses. O tecido vai variar, mas se for uma iaô, mesmo rica, ela não pode se vestir como as mais velhas”, explica Dona Cici, que ocupa o cargo de egbomi, um dos mais respeitados das casas de matriz africana, já que só é concedido aos mais antigos.</p>
<p style="text-align:justify;">Essas gradações no trajar servem, inclusive, como maneira de identificar ocupantes de altos postos religiosos nos terreiros. “Se chega uma pessoa toda paramentada, você vai tomar a bênção”, exemplifica Jaime Sodré. Mas a roupa de ração nunca é esquecida: é ela que todos os integrantes da religião usam para desempenhar as atividades e obrigações cotidianas.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/26.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-128" title="26" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/26.jpg?w=216&#038;h=324" alt="" width="216" height="324" /></a><br />
<strong><br />
Identidade no torço</strong><br />
Durante o período da escravidão, era comum perceber as diferenças entre as culturas africanas trazidas ao Brasil através de detalhes da roupa. Entre as nagôs, o ojá era amarrado com várias voltas ao redor da cabeça. Já as negras jeje usavam um lenço sobre os cabelos. Dobravam o tecido em formato triangular, com a ponta para trás. “Até hoje, em Cachoeira, você conhece quando uma negra é de origem jeje pela forma de amarrar o torço”, compara a egbomi Cici. Preocupadas em esconder o cabelo, as muçulmanas amarravam o turbante com as pontas soltas para trás. Usavam, ainda, o pano-da-costa sempre do lado esquerdo.</p>
<p style="text-align:justify;">Cobrir a cabeça era tão importante para o povo antigo que, de acordo com muitos relatos, era tradição, só sair de casa com torço ou chapéu. De acordo com José Valladares, em O torço da bahiana, mais de uma razão levava a crioula a conservar a cabeça protegida. “A primeira é resguardá-la contra o sol, sereno e chuva. A segunda é de ordem religiosa: realmente, se não com um turbante, como poderia sair à rua a filha de santo que terminou sua iniciação e que por isso está com a cabeça raspada?”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Mistura de influências</strong><br />
Justamente pela preocupação em cobrir todo o corpo, as negras islâmicas preferiam os tecidos pesados e quase não usavam bordados. O muçulmano, mesmo quando descalço, sinal da condição de escravo, andava com o corpo todo coberto. Já a nagô se esmerava para produzir os mais belos bordados e muitas anáguas, devido à influência da Corte portuguesa no Novo Mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">Se a Europa tem sua cota de participação no figurino dos descendentes de africanos no Brasil, também é grande a herança árabe-islâmica. “O turbante é reconhecidamente de influência mulçumana, que chegou ao Brasil provavelmente através dos escravos islamizados, durante o Ciclo da Baía do Benin no século XIX, e também pelos portugueses”, afirmam as pesquisadoras Juliana Monteiro e Luzia Gomes Ferreira no texto As roupas de crioula o século XIX e o traje da beca na contemporaneidade: símbolos de identidade e memória. As chinelas com ponta virada, utilizadas por algumas negras em ocasiões especiais, bem como as batas longas e bordadas à mão, são também referências islâmicas. Enquanto as muçulmanas pensavam em esconder o corpo, as nagôs ostentavam o charme dos camisus bordados em richelieu, como veremos adiante.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/africana-ijexa.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-129" title="africana-ijexa" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/africana-ijexa.jpg?w=250&#038;h=355" alt="" width="250" height="355" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Mas não era somente nos século XVIII e XIX que os negros utilizavam a roupa, no cotidiano, como expressão de sua identidade. Hoje, já existem membros da religião dos orixás que usam peças da indumentária africana fora dos rituais religiosos. É o caso do babalorixá Balbino Daniel de Paula, fundador do Ilê Axé Opô Aganju, localizado em Lauro de Freitas. Seja nas tarefas domésticas, seja em compromissos sociais como uma festa, casamento ou restaurante, é com roupas do continente de seus ancestrais que ele comparece.</p>
<p style="text-align:justify;">Em casa, Balbino amarra na cintura um tecido africano de cores vibrantes. Mesmo sem nenhum nó ou laço, o pano não se solta mesmo com movimentos rápidos. A técnica é mesma feita pela estilista nigeriana Rasidat Lola Akanni, proprietária da loja Abitoks, no Pelourinho. “Posso ir em qualquer lugar, que ele não solta”, garante. O babalorixá do Aganju foi um dos primeiros líderes religiosos do sexo masculino a usar peças africanas em lugar dos trajes civis, como calça e camisa. A transformação aconteceu na década de 70, após sua primeira viagem à África. “Quando eu tive oportunidade, comecei a usar. Passei a me sentir bem dentro delas”, conta.</p>
<p style="text-align:justify;">Nas festas religiosas e ocasiões especiais, Balbino se veste com a elegância de um rei nagô. “O Papa não tem suas roupas? Nós também. Para cada festa de orixá, eu boto uma roupa daquela divindade, afinal, tenho que representar a minha religião. Para mim, andar bem arrumado é uma obrigação”, afirma. Ao lado dos tecidos especiais, o filho de Xangô combina cada peça ao fio de contas mais adequado à ocasião. No guarda-roupa, acessórios como um anel em formato de pássaro que pertenceu ao Rei da cidade de Agongô. “Ele era de Carybé. Eu ganhei de presente”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Filha de Iroko</strong><br />
Também foi com vestes de rainha que a egbomi Cidália Soledade entrou no salão nobre da Câmara de Vereadores, no último dia 20 de dezembro. As portas do poder legislativo foram abertas para celebrar, em sessão especial, os 70 anos de consagração religiosa de uma das únicas filhas do orixá Iroko de que se tem notícia. Mesmo sentada numa cadeira de rodas, a imponência do traje branco e azul claro em richelieu mostrava a autoridade da senhora de 77 anos. Em seu discurso, ressaltou a importância da hierarquia, citando o nome de todas as ialorixás do Gantois, terminando com uma homenagem aos ancestrais. “Presto reverência a todos que vieram no navio negreiro. Eles são grandes responsáveis pelo sobrevivência de nossa cultura”.</p>
<p style="text-align:justify;">Cidália ainda se lembra do dia em que, sete décadas atrás, ganhou roupa nova, duas tranças com laço de fita azul e até sapato, um enxoval completo feito sob medida para a data especial. O único problema foi domesticar dentro das sandálias os pezinhos acostumados à liberdade. “Eu era gorda, você precisava ver! Fui pisando em ovos, os pés doendo. Entrei no terreiro pela porta da frente, de mãos dadas com minha avó. Não entrei doente, não. Entrei foi gorda, aquela menina de 7 anos, que parecia que tinha 10”.</p>
<p style="text-align:justify;">Dona Cidália Soledade conta histórias da década de 30, como se tivessem acontecido na semana passada. Recorda até da sensação ao tirar os sapatos, naquela primeira visita, para pedir a bênção à ialorixá da casa, Escolástica Maria da Conceição Nazareth. “Eu vivi outra vida. O sapato ficou rolando e até hoje não sei que fim levou”. Diante da sacerdotisa imortalizada com o nome de Menininha do Gantois, a filha do orixá-árvore se rendeu aos encantos de Oxum. “Quando tomei a bênção, Menininha disse: Oh, Cidalinha, como está grande! Oxalá lhe abençoe! Seja bem-vinda e venha para ficar!”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>INDUMENTÁRIA SAGRADA</strong><br />
Vestuário e adornos dos orixás, inquices e voduns reverenciam a história de cada divindade.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem vai pela primeira vez a uma cerimônia do candomblé pode se surpreender com a diferença de cores, adornos e ferramentas associados a um mesmo orixá. Iansã, a deusa dos ventos e tempestades, por exemplo, faz aparições vestida de branco, em tons de rosa claro ou vermelho. Pode trazer nas mãos o eruexim, confeccionado com crina de cavalo. Usado para dissipar os espíritos de energia negativa, ele evidencia a ligação da deusa com a ancestralidade, afinal Iansã é a única orixá capaz de enfrentar e dominar os eguns, espíritos ancestrais. Em outras versões, carrega o alfanje, um sabre curto e largo, que herdou da época em que era esposa de Ogum, orixá do ferro e da guerra. A senhora dos raios também porta dois chifres de búfala, animal com o qual aparece metamorfoseada, em alguns contos. Ver Iansã dançar no terreiro é observar, através dos movimentos, uma guerreira sensual, arrebatadora e poderosa.</p>
<p style="text-align:justify;">Os adornos carregados pelo orixá não são escolhidos de acordo com a preferência dos filhos de santo. Dependem, na verdade, do narram dizem os mitos sobre cada divindade. É o que os iniciados costumam chamar de “marca” ou caminho do inquice ou vodum: como ele viveu, por onde passou, contra quem guerreou. Daí os nomes Xangô Afonjá, Xangô Aganju, Xangô Baru, Oxum Apará, Iemanjá Ogunté, só para citar alguns exemplos. E que ninguém pense que esses elementos são dispensáveis nas cerimônias. “Até mesmo para representar a história evocada numa determinada cantiga, o orixá precisa da ferramenta”, explica a ebommi Nice de Oiá.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Rei de Ketu</strong><br />
Filhos dedicados como o babá Ossain do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju vão a fundo na pesquisa em busca das características particulares da divindade que lhes acompanha. “Tenho uma responsabilidade grande para identificar os elementos de Oxossi e trazê-lo em essência”, afirma Mauro Rossi. O chapéu usado pelo senhor da caça na última festa do terreiro foi todo feito à mão, em couro. Oxossi geralmente carrega o ofá, arco e flecha forjado em ferro, mas pode trazer os bilala, dois pequenos chicotes, como Carybé mostra em Os deuses africanos no candomblé da Bahia. O orixá caçador também traz uma capanga, a bolsa de couro onde coloca a caça que irá alimentar o povo. Rei de Ketu, Oxossi pode portar o eruquerê, objeto sagrado que simboliza a realeza.</p>
<p style="text-align:justify;">No culto a egum ou egungun, os espíritos ancestrais ilustres aparecem em cerimônias e rituais para trazer mensagens e boas vibrações para seus descendentes. Como, na religião de origem africana, a energia viva não deve se misturar com a dos mortos, não é permitido qualquer contato físico entre os dois mundos. Para o babá egum, é confeccionada uma roupa especial, com largas tiras de tecidos, búzios, espelhos e outros elementos que lembram sua identidade. Acredita-se que o próprio espírito dê vida ao traje que se ergue sobre o piso e desliza pelo barracão. A roupa, nesse caso, tem a importância de fazer o contato direto entre o homem e seu ancestral. É só através dela que é feita essa comunicação.</p>
<p style="text-align:justify;">“Todos esses modelos preservam insígnias importantes para a história do candomblé”, analisa o historiador Jaime Sodré. Não se trata apenas de beleza, nem adianta escolher o tecido mais caro ou as cores mais vivas. “O orixá não enxerga o valor financeiro, nem o ouro. O que ele quer é que você esteja digno de revelá-lo em seu corpo”, acrescenta Jaime.</p>
<p style="text-align:justify;">Preparar a roupa que será usada pelo iniciado no momento da chegada do orixá exige um profundo conhecimento da história de cada divindade. Cada ponto do tecido é costurado de acordo com as regras de cada casa, num misto de razão e sensibilidade. Por isso, muita gente defende que a indumentária litúrgica seja confeccionada somente por pessoas da própria religião. “A roupa tem que ter axé e por isso tem que ser feita na casa de candomblé”, defende Jaime Sodré. Como a procura por esse tipo de traje tem aumentado em todo o país, já existem lojas especializadas no ramo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Jóias de Axé</strong><br />
O mesmo acontece com os fios-de-contas. Os que são vendidos já prontos em feiras e mercados turísticos são pouco utilizados por quem vive nos terreiros. “A confecção de uma conta é algo muito sério. Quando se enfia uma conta, você deve concentrar toda a energia em cada uma das miçangas. Depois, é preciso lavá-la com as folhas devidas. Caso todo esse ritual não seja cumprido, o elo de energia se perde”, afirma Mauro Rossi.</p>
<div id="attachment_130" class="wp-caption aligncenter" style="width: 245px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/joias.jpg"><img class="size-full wp-image-130" title="joias" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/joias.jpg?w=235&#038;h=367" alt="Foto de Haroldo Abrantes" width="235" height="367" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Haroldo Abrantes</p></div>
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<p style="text-align:justify;">Os fios-de-contas são assunto de tanta responsabilidade que o babalorixá é quem escolhe a pessoa que fará as primeiras contas de cada novo membro da comunidade. “Intransferível, o fio-de-contas é um objeto permanente. É acompanhante da vida, no trabalho, no lazer, nos diferentes momentos sagrados no terreiro”, diz o antropólogo e museólogo Raul Lody no livro Jóias de Axé. De todos os fios, existe um que irá seguir o iniciado por toda a vida, o runjebe. “Existe todo um ritual de rezas para a confecção dele”, explica Mauro. Essa peça, feita com miçangas marrons, corais e seguis, simboliza a história da vida daquela pessoa e vai acompanhá-la pela eternidade. De tão especial, o runjebe só é entregue na obrigação de sete anos de feitura de um iaô.</p>
<div id="attachment_132" class="wp-caption aligncenter" style="width: 340px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/joias2.jpg"><img class="size-full wp-image-132" title="joias2" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/joias2.jpg?w=330&#038;h=226" alt="Foto de Haroldo Abrantes" width="330" height="226" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Haroldo Abrantes</p></div>
<p style="text-align:justify;">Aos 68 anos, a egbomi Nice de Oiá, da Casa Branca, conhece de perto o prazer de se sentir bela. “É um privilégio recebermos essa energia da natureza, então gosto de me vestir com muito capricho para que a própria divindade se sinta bem”, afirma. Os trajes de inspiração africana já integram o cotidiano da filha de Iansã. “Sinto prazer em usar minhas roupas africanas, minhas contas, meus brincos, meus ojás. Ando a caráter no dia-a-dia porque não nego minhas raízes. Devemos nos orgulhar daquilo que somos”, enfatiza.</p>
<p style="text-align:justify;">Orgulho também não falta aos filhos de terreiros angola e jeje. Apesar de descenderem de nações diferentes, cultuam divindades semelhantes, só que com outros nomes. “Dandalunda, que corresponde a Oxum, tem contas amarelo leitosas, em vez de douradas. Ela não usa o abebé, mas tem aquelas continhas de lágrimas de Nossa Senhora”, descreve o xicarangoma Esmeraldo Emetério de Santana Filho, o Chucuca, do Terreiro Tumba Junçara. Ao contrário do que acontece nos terreiros nagôs, os inquices femininos não se enfeitam com peças como o filá e o abebé.</p>
<p style="text-align:justify;">Outra característica forte dos bantos é o uso de penas nos adornos dos inquices, sobretudo nos caboclos. “Os índios conviveram muito com o povo banto, que foram os primeiros escravos africanos a chegar ao Brasil. Então o uso da pena é uma forma de reverência, faz parte de nossa identidade”, explica Chucuca. Para o xicarangoma – responsável pela comunicação através do toque dos instrumentos musicais – justamente por terem chegado antes de integrantes de outras nações, houve perdas na tradição angola. “Não houve tempo para nossos ancestrais trazerem seus pertences e assentamentos religiosos. Por isso, houve uma certa influência do povo iorubá. Mas isso não justifica o que algumas fazem, falar que somos umbandistas, por exemplo”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Intercâmbio religioso</strong><br />
A troca de informações entre representantes das diversas nações africanas que chegaram ao Brasil fez com que tradições se modificassem. Tanto que hoje é difícil falar em costumes exclusivamente nagôs, angola ou jeje. Apesar de, sem dúvida, provocarem a perda de certos elementos, essa capacidade de diálogo foi fundamental para a sobrevivência das expressões religiosas de origem africana.</p>
<p style="text-align:justify;">Algumas casas, entretanto, tentam conservar ao máximo as regras ditadas pelos primeiras sacerdotisas. No terreiro que foi liderado por Gaiaku Luiza, na cidade de Cachoeira, a iniciação religiosa, por exemplo, exige um ano de dedicação do aspirante. Em outras locais, devido às necessidades de trabalho e estudo, esse tempo já foi bastante reduzido.</p>
<p style="text-align:justify;">A estética do figurino jeje finca raízes na simplicidade. A Hunkpame Ayiono Huntoloji, ekede confirmada em 1983 pela própria Gaiaku, fala com tranqüilidade e exprime grande respeito pela religião ancestral. “Até nosso torço é diferente. Acordado, fora das festas, a gente fica sempre descalço e sem nenhum pano cobrindo a cabeça”, compara Cleuza Maria Santana Santos. Na casa de origem jeje, a hierarquia do traje envolve uma quantidade menor de adornos. Todas as filhas, mesmo as mais antigas, usam a camisa de crioula. “Só quem usa a bata é a mãe de santo. Há filhos de 40 anos de feitos que andam descalços e ainda sentam na esteira”, acrescenta.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Rei do Pano Branco</strong><br />
A simplicidade também é a palavra que guia as roupas e adornos do primeiro orixá criado por Olodumaré, Oxalá, o Rei do Pano Branco. Suas filhas do sexo feminino usam saia, um ojá na cabeça e outros ojás amarrados no corpo, chamados de pacajás. Os homens, em vez da saia, vestem um bombacho, tudo confeccionado em tecidos simples como o madrasto. Nas mãos, ele leva o opaxorô, ferramenta com três divisórias cheias de simbolismo. Como Oxalá é o pai supremo, ligado ao nascimento e à morte, sua força transita entre os três mundos do candomblé: o Orum, onde estão aqueles que já viveram, o Aiyê Airí, morada dos que ainda estão por vir, e a terra onde habitamos, o Aiyê. No alto do opaxorô, o pássaro Osun, que tem a missão de estar sempre acordado para tomar conta dos filhos do orixá.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><br />
FORÇA FEMININA</strong><br />
A roupa de crioula e o traje de beca simbolizam a ascensão social conquistada pelas negras através da religião e do trabalho nas ruas.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Festa da Boa Morte</strong><br />
Primeiro Dia – Irmãs vestidas de branco, numa alusão à cor do luto no candomblé.<br />
Segundo Dia – Irmãs vestem saia preta plissada, com bata branca. O rosto e o cabelo são cobertos pelo bioco, lenço branco que homenageia as negras muçulmanas.<br />
Terceiro Dia – É o dia do Traje de Beca, quando as tradicionais jóias de crioula são exibidas, em um ato de fortalecimento da identidade e da auto-estima dessas mulheres.<br />
****</p>
<div id="attachment_133" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado-2.jpg"><img class="size-medium wp-image-133" title="credito-ricardo-prado-2" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado-2.jpg?w=300&#038;h=199" alt="Foto de Ricardo Prado" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Ricardo Prado</p></div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Na Bahia Colonial, lugar de mulher era dentro de casa. As damas das famílias mais poderosas afastavam-se pouquíssimo do ambiente doméstico. Sair do sobrado, só mesmo para algum espetáculo teatral ou festa imperdível. Chegava a ser irônico: ver roupas caríssimas e luxuosas trancadas nos sobrados. Além dos homens, quem tinha liberdade para ir e vir pelas ruas da cidade eram as mulheres mais pobres, negociantes que possuíam vendas, escravas de ganho, negras que mercavam pela cidade. Livres, saíam para providenciar o sustento das próprias casas. Cativas, aumentavam o rendimento de seus senhores ou mesmo labutavam para comprar a própria alforria.</p>
<p style="text-align:justify;">“O que se via era o avesso da indolência conventual das senhoras brancas da elite. A vida corria ao ar livre. Tudo era atividade. E o fato é que eram principalmente elas e os negros de ganho que davam colorido às ruas da cidade”, afirma Antonio Risério em Uma história da Cidade da Bahia. Muito desse colorido tinha origem nas roupas com que se vestiam as afro-brasileiras. Uma combinação de tons, rendas e tecidos que impressionava o olhar dos viajantes europeus que desembarcavam em terras brasileiras.</p>
<p style="text-align:justify;">Nem mesmo o Príncipe Maximiliano de Habsburgo, com o olhar eurocêntrico comum ao período, ficou incólume ao figurino tão diferente dos salões europeus. No livro Bahia 1860, ele descreve as vestes de uma mulher que surpreendeu o grupo. “Ela vestia a roupa pitoresca e singular das negras brasileiras, que lembra ainda sua pátria africana: um vestido de algodão de floreado vistoso flutua negligentemente em torno de suas ancas que se balançam molemente, uma camisa branca sem mangas, que parece jogada lá por acaso, envolve o busto. Para circular na cidade, um xale matizado de diversas cores cai dos ombros em pregas elegantes”. Na opinião do historiador Jaime Sodré, a profusão de cores vivas é uma das maiores contribuições da herança religiosa africana ao vestuário baiano. “O candomblé trouxe para a sociedade baiana a ousadia de usar cores”, afirma o pesquisador.</p>
<p style="text-align:justify;">Como apontam os pesquisadores Juliana Monteiro, Luzia Gomes Ferreira e Joseania Miranda Freitas, as roupas, nas diversas sociedades, além de protegerem o corpo e destacarem a beleza, estabelecem hierarquias e tornam-se símbolos identitários por meio dos quais é possível refletir sobre os valores sócio-culturais de determinados grupos.</p>
<div id="attachment_135" class="wp-caption aligncenter" style="width: 361px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado-1.jpg"><img class="size-full wp-image-135" title="credito-ricardo-prado-1" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado-1.jpg?w=351&#038;h=234" alt="Foto de Ricardo Prado" width="351" height="234" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Ricardo Prado</p></div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong>Mulheres de Saia </strong><br />
As roupas das negras que povoavam as ruas da Bahia diferiam bastante das usadas pelas senhoras da elite, a começar pelo uso da saia. Naquele tempo, só vestia saia quem precisava fazer trabalhos braçais, como vender fato de boi, peixe ou mingau, para sustentar a família. “Qual a mulher de vestido que ousaria penetrar naquele mundo estranho de um mercado ou de uma feira? Era comum o comentário lastimoso de alguém que, sendo de vestido, adotara a saia para poder trabalhar”, conta Hildegardes Vianna, em A Bahia já foi assim.</p>
<p style="text-align:justify;">Graças ao seu tino comercial e ao talento de serem boas quituteiras, cozinheiras e lavadeiras, muitas dessas mulheres ganharam dinheiro suficiente para comprar as próprias cartas de alforria. Seu uniforme, o traje de crioula, era composto basicamente por uma saia rodada, o camisu, com bordado conhecido como richelieu ou com renda renascença, o torço ou turbante, branco ou colorido, as sandalinhas brancas e o pano-da-costa, podendo em diferentes ocasiões ser acrescido das jóias, como correntões e balangandãs e da bata sobre o camisu. Essa última teria sido imposta pelo governador Manuel Vitorino nos primeiros anos de República, como forma de controlar a exposição os corpos das negras nas ruas.</p>
<p style="text-align:justify;">Carregado nos ombros, o pano-da-costa identificava uma África que, embora geograficamente distante, estava paradoxalmente próxima. “O uso do pano-da-costa estava relacionado com o papel sócio-religioso da mulher dentro do candomblé. Elas também incorporaram em seu traje elementos da cultura que era hegemônica, como as saias com bico de renda, batas e camisus bordado em richelieu”, analisam Juliana Monteiro, Luzia Ferreira e Joseania Freitas no texto As roupas de crioula no século XIX e o traje de beca na contemporaneidade: símbolos de identidade e memória.</p>
<p style="text-align:justify;">As ganhadeiras alcançariam grandes projeções no comércio de frutas, verduras, peixes, quitutes, tecidos e pequenos utensílios domésticos, conquistando o monopólio da revenda de certos gêneros e deste modo, o controle sobre o preço dos produtos, principalmente a partir da segunda metade do século XIX em Salvador. No entanto, a permanência dessas mulheres nas ruas não era sempre vista com bons olhos pelas autoridades municipais. “Também era sabido que elas se envolviam em alguns casos no contrabando de produtos e auxiliavam o trânsito interno de escravos fugidos ou aquilombados, devido a suas redes de contato e mobilidade dentro do espaço urbano”, contrapõem os estudiosos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Negra Fulô</strong><br />
Existem quatro exemplares originais do traje de crioula no Museu do Traje e do Têxtil, no Instituto Feminino. A indumentária pertenceu à Florinda Anna do Nascimento, a Negra Fulô. Escrava doméstica, ela viveu na Fazenda do Coronel Joaquim Inácio de Ribeiro dos Santos. Adquiridas por Henriqueta Martins Catharino, as roupas da africana foram doadas ao Museu que expõe, também, o traje original que a Princesa Isabel usava no dia da assinatura da Lei Áurea.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/241.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-141" title="241" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/241.jpg?w=329&#038;h=250" alt="" width="329" height="250" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Além da coleção baiana, só há registros de roupas das escravas de ganho no Museu Imperial de Petrópolis. “Dona Henriqueta foi realmente pioneira ao olhar para essa questão. A partir dessa coleção, é possível avaliar hábitos, costumes, toda uma cultura da arte envolvida no vestir”, afirma a museóloga Marijara Queiroz, responsável pelo Museu do Instituto Feminino.</p>
<p style="text-align:justify;">Tão interessante quanto observar de perto a textura, os bordados e o corte dessas roupas é imaginar o porte dessas mulheres que desbravavam o centro de Salvador. “Observei inúmeras vezes a faceirice requintada com que uma preta desce num barco na escada – ou degraus de madeira – quando uma onda assaz forte sacode a embarcação, o medo que ela tem de estragar o vestido, o cuidado com o qual ela ajeita as suas jóias, os gestos estudados que ela usa para arrumar cuidadosamente seu xale, as precauções tomadas que seus sapatos estejam no cais à sua espera”, descreveu o vice-cônsul inglês James Wetherell, em viagem à Bahia no século XIX.<br />
<strong><br />
Traje de Beca</strong><br />
Nos dias de festa nas irmandades católicas, as negras do partido-alto caprichavam no figurino, chamado de traje de beca. Preparavam roupas e compravam colares, brincos e pulseiras especiais, as jóias de crioula, para atrair olhares e aplausos nas procissões religiosas. Hoje, as guardiãs desse legado são as senhoras da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. Todos os anos, no mês de agosto, milhares de visitantes de diversas partes do Brasil e do mundo cruzam o recôncavo em busca do legado ancestral dessas mulheres.</p>
<div id="attachment_137" class="wp-caption aligncenter" style="width: 375px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado.jpg"><img class="size-full wp-image-137" title="credito-ricardo-prado" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/credito-ricardo-prado.jpg?w=365&#038;h=243" alt="Foto de Ricardo Prado" width="365" height="243" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Ricardo Prado</p></div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">São três dias de festa na Boa Morte. No primeiro, que representa o anúncio da morte de Maria, as mulheres se vestem de branco, com contas da mesma cor que, não por acaso, simboliza o luto no candomblé. Rendas e bordados em richelieu aumentam a beleza do figurino e o orgulho de participantes como a irmã Anália da Paz Santos Leite, 71, há 42 na irmandade. “Eu me sinto maravilhosa! Uma negra vencedora e lutadora”, afirma, enquanto mostra as saias guardadas cuidadosamente envolvidas em papel. “Por terem herdado a pompa e a vaidade das negras do partido-alto, elas fazem sempre o melhor”, diz Walmir Pereira dos Santos, que desde 1995 administra a Casa da Boa Morte.</p>
<p style="text-align:justify;">Parte da beleza desses trajes saiu das mãos habilidosas de dona Leonice Augusta da França. A costureira de 81 anos aprendeu os segredos do bordado em richelieu aos 12 anos. Na pequena casa onde vive, na cidade de Cachoeira, criou verdadeiras obras de arte.  “Tive que parar por causa de um problema nas vistas, há mais de dois anos”, conta. Apesar de ter confeccionado tantas peças para devotas a irmandade católica, todas integrantes também da religião afro-brasileira, dona Leonice afirma que não se identifica com nenhum dos dois credos. “Sou da Igreja Universal”, avisa.</p>
<p style="text-align:justify;">Na Irmandade, o segundo dia da festa representa a assunção de Maria aos céus. É quando ela passa a ser reverenciada como Nossa Senhora da Assunção ou da Glória. Nessa data, as irmãs vestem a saia preta plissada, com bata branca e, nos ombros, o pano-da-costa – com o lado preto voltado para cima, sem qualquer bijuteria ou jóia. Com o rosto e o cabelo cobertos pelo bioco, um lenço branco, as mulheres da irmandade católica reverenciam as negras muçulmanas. Como um dos objetivos primordiais da Boa Morte era a luta contra a escravidão, a revolta dos Malês empreendida pelos negros islamizados merece, até hoje, reconhecimento.</p>
<p style="text-align:justify;">“As irmãs da Boa Morte eram as únicas negras com acesso aos meios políticos e religiosos da época”, afirma Walmir. O terceiro e último dia da festa é marcado pelo traje de beca em toda a sua opulência, com direito aos tradicionais correntões das jóias de crioula. Nesse dia, sem o bioco, com a face vermelha do pano-da-costa voltada para cima, elas promovem uma reflexão. “Iansã é a guerreira, aquela que incentiva a luta pela sobrevivência”, diz Walmir Santos. O antropólogo Raul Lody acrescenta: “O traje é tão importante que, ao morrer, a Irmã leva uma roupa completa de gala; é a marca inegável do signo da fé, com os valores sócio-culturais desse grupo”.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem se debruça sobre o significado da roupa de crioula, no século XIX, e do traje de beca, ainda utilizado na contemporaneidade pela Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, acaba vislumbrando valores sócio-culturais envolvidos em sua indumentária, como afirmam Juliana Monteiro, Luzia Ferreira e Joseania Freitas. “Essas roupas, como representativas de uma identidade afro-brasileira, possuem elementos de uma visualidade específica num contexto sócio-histórico, no qual o modo de vestir-se implicava em uma marca ou numa representação material da posição hierárquica ocupada pela pessoa dentro de uma estrutura social caracterizada pelo patriarcalismo, sexismo e escravidão”.</p>
<div id="attachment_139" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/bata.jpg"><img class="size-full wp-image-139" title="bata" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/09/bata.jpg?w=300&#038;h=427" alt="Foto de Haroldo Abrantes" width="300" height="427" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Haroldo Abrantes</p></div>
<p style="text-align:justify;"><strong><br />
ALTA COSTURA</strong><br />
Mestres da arte de tecer e bordar lutam para transmitir às novas gerações a herança ancestral.</p>
<p style="text-align:justify;">Preservar a riqueza e a tradição através da indumentária não é tarefa simples. Além de saber costurar e bordar com perfeição, os guardiões desse legado precisam conhecer a fundo a história dos deuses africanos e os usos e costumes envolvendo cada um dos trajes. Quem conviveu com os mais antigos filhos e filhas de santo sabe que as peças costumavam ser tecidas e bordadas dentro dos próprios terreiros. Mas a rotina contemporânea, cada vez mais atribulada, vem fazendo com que esse costume se torne cada vez mais raro. “As pessoas hoje não têm o mesmo tempo que as de antes. As mulheres precisam sair para trabalhar. Antigamente, lavavam roupa de ganho, passavam, vendiam acarajé e acaçá, que eram atividades mais domésticas. Hoje, muita gente importa de grandes confecções do Rio de Janeiro e São Paulo. Ligam e pedem um alaká bonito; não têm tempo nem de sair para escolher a peça”, diz a ekede Cinha, 62 anos, da Casa Branca.</p>
<p style="text-align:justify;">Mãe Cinha aprendeu a costurar ainda menina com a mãe, Vovó Conceição, no próprio axé. No início, os pontos eram todos feitos à mão. Tempos mais tarde, já com uma máquina de costura, adotou a atividade como profissão. “Fiquei feliz quando vi pessoas dançando com a roupa que eu fiz”, lembra. A ekede é a idealizadora de um projeto de transmissão desse conhecimento que não vinha sendo reproduzido pelas novas gerações. Foi assim que surgiu, em 2006, com o apoio da organização não-governamental Koinonia Presença Ecumênica e Serviço e de outros membros da Casa Branca, o Espaço Cultural Vovó Conceição. No local, desde adolescentes até gente da terceira idade vem participando das oficinas de corte e costura. “Já costurei por amor, por necessidade e, hoje, faço por paixão à minha religião e aos meus orixás. Agora não é só por mim, quero passar para os mais novos que querem aprender, mas não podem pagar”.</p>
<p style="text-align:justify;">Não são apenas fiéis do candomblé que fazem parte das oficinas. Além de preservar o conhecimento das roupas, a iniciativa pretende criar alternativas de geração de renda para a comunidade do entorno da Casa Branca. Mãe Cinha defende a confecção da indumentária religiosa por pessoas comprometidas com a religiosidade afro-brasileira. “Fazemos todas as peças com muito carinho, sem contar que a energia é outra. Você conhece o orixá, o jeito, o gosto dele, então faz tudo para agradá-lo”, diz a ekede. Com um sorriso nos lábios e no olhar, ela mostra com orgulho a perfeição das primeiras encomendas feitas pelo grupo. O líder em procura, até agora, é a roupa de ração, aquela usada pelos iniciantes e pelos mais avançados, nas tarefas do cotidiano.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Casa do Alaká</strong><br />
Um dos mais belos itens da indumentária afro-brasileira, o pano-da-costa impressiona pela profusão de cores dos fios trabalhados individualmente. Leves e delicados, esses tecidos que são usados como xale só podem ser carregados nos ombros pelas mais antigas filhas de santo. Expressão requintada das manipulações de cor da arte africana, o alaká, como também é conhecido, exibe a sutileza típica dos trabalhos manuais.</p>
<p style="text-align:justify;">Tão delicada quanto sua confecção é a arte de saber colocar sobre a roupa, com charme e elegância, um desses tecidos. É preciso escolher a cor mais apropriada para a ocasião e conseguir jogá-lo harmoniosamente sobre o ombro ou arrumá-lo como torço sobre o cabelo. Símbolo de imponência, ele só pode ser carregado nos ombros pelos mais antigos. “O pano-da-costa, por sua própria denominação, sugere a origem na África Ocidental, de onde foram embarcados muitos dos escravos que chegaram à América Portuguesa no século XVIII”, afirmam os pesquisadores Juliana Monteiro, Luzia Ferreira e Joseania Freitas. Outra possibilidade é indicada por Raul Lody. Ele sugere que o pano pode ter recebido tal denominação por simplesmente ser jogado sempre às costas por suas usuárias.</p>
<p style="text-align:justify;">O fato é que, feitos de algodão ou palha da costa, eles tornaram-se parte indispensável do figurino das ialorixás e babalorixás. Conseguir um alaká já foi coisa muito difícil. Era preciso conseguir o dinheiro, encomendar a algum comerciante que fosse para a África e aguardar meses para saber se a encomenda viria e, principalmente, na cor certa.</p>
<p style="text-align:justify;">Como a espera era grande e os preços, altos, alguém resolveu iniciar a produção local do tecido. Um dos mais famosos tecelões do ramo foi Mestre Abdias do Sacramento. Natural de Salvador, ele aprendeu a técnica com o padrinho Alexandre Gerardes, um dos pioneiros na fabricação nacional desse tecido. Mestre Abdias já se foi, mas outros tecelões prosseguiram com a tradição.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje, seu legado alcança os principais interessados na aquisição de panos-da-costa, o povo do candomblé. “Há 20 anos, Mestre Abdias deu aqui um curso para egbomis. Depois de duas décadas, a criação da Casa do Alaká é a realização de um sonho”, diz Iraildes Santos, uma das integrantes do espaço que funciona há cinco anos no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, no bairro de São Gonçalo.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao lado de Iraildes, Jucineide, Ana Rita e Antonio Dimas se dividem entre os teares de madeira de onde surgem os tecidos. Em comum, além do orgulho pelo ofício, o amor à arte de confeccionar peças únicas. “Coloco meu sentimento em relação aos orixás em cada pedacinho do tecido. Uma coisa é você chegar numa loja e comprar. Aqui, você vai dizer o tamanho, a textura, as cores que você quer. E nenhum alaká sai igual ao outro”, afirma Iraildes.</p>
<p style="text-align:justify;">Tecer um pano-da-costa exige concentração, paciência e talento. Primeiro, numa peça chamada de rudideira, primeiro se tira a metragem e a largura do pano. Em seguida, é feita a enfiação no pente, fio a fio. Enrolados no tear, os fios são enfiados, individualmente, no liço. E nada é feito de maneira desordenada. É preciso fazer a contagem de cada fio, pois é ela que garantirá a beleza e a variação de detalhes do alaká. “Com o tempo, a gente ganha prática. Hoje, consigo fazer esse processo todinho em um dia”, afirma Iraildes, que sonha em ser uma multiplicadora da arte de fazer panos-da-costa. O espaço, vale ressaltar, atende também a encomendas externas e está aberto a visitantes de todas as partes da Bahia e do mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">O trabalho que vem sendo desenvolvido na Casa do Alaká tem o consentimento de gente antiga como a egbomi Gilseth Obaterê, mais antiga filha de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá. Iniciada aos sete anos de idade na religião, ela aprendeu desde muito pequena os hábitos e costumes dos orixás e de suas vestes. Tanto que hoje, 63 anos depois, já perdeu a conta das vezes em que preparou goma de mandioca para passar nas anáguas das saias. Naquele tempo, era preciso ferver as roupas brancas para que elas ficassem tão alvas como as que se vê hoje em dia nos varais dos terreiros. “A roupa era quarada, botávamos no sol com bastante sabão. Hoje, ninguém tem mais tempo, usam água sanitária”.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma das mais antigas costureiras do Afonjá, Obaterê não esquece do charme e a elegância dos trajes de Mãe Senhora. “A Oxum de minha mãe se vestia muito bem, com a coroa, o abebé e trazia uma lança e uma âncora – usada para chegar à superfície da terra &#8211; além de muitas pulseiras”. A egbomi não chegou a costurar para Mãe Senhora, mas desde então tem preparado roupas para gerações do povo de santo. A grande mudança, explica Obaterê, é que antes tudo era feito à mão.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Segredos do Richelieu</strong><br />
Entre os guardiões da arte de costurar e bordar também estão homens. Guejí, na verdade Carlos Bastos dos Santos, tem 56 anos e domina como poucos a sabedoria envolvida na criação de peças bordadas em richelieu. Uma de suas principais criações foi a roupa usada pelo babalorixá Balbino Daniel de Paula no dia de sua obrigação de sete anos. Cuidadoso, ele guarda até hoje, em casa, o traje feito com atenção e carinho.</p>
<p style="text-align:justify;">Como explica Raul Lody, o richelieu surgiu na Europa do século XV, como um tipo de bordado intermediário entre o bordado tradicional e a renda, que só apareceria tempos depois. “Relacionado diretamente ao emprego do bordado às roupas brancas, esse tipo de bordado intermediário distingue-se por sua técnica, realizada com pontos cortados – os picots – aplicados sobre um fundo de tecido aberto, no qual os fios foram sendo delicadamente retirados até formarem verdadeiros vazios entre os motivos, dando assim maior relevo às bridas”, afirma o antropólogo.</p>
<p style="text-align:justify;">A denominação richelieu tem origem na França entre 1624 e 1642, pelo uso freqüente nos paramentos de Armanol Jean du Plessis, cardeal e duque de Richelieu. Curioso que o nome de origem francesa tenha sido tão apropriado pela cultura afro-brasileira, a ponto de ser um dos símbolos da elegância na roupa das baianas de acarajé. Filho de Iansã do Ilê Axé Opô Aganju, Guejí aliou o talento de costureiro e bordador ao profundo conhecimento de sua religião. Descendente de uma extensa família com raízes no culto aos orixás, inquices e voduns, ele comunica, através das roupas que prepara, a riqueza de elementos associados às divindades. “Bordei essa borboleta especialmente para homenagear Iansã. É um dos símbolos dela”, revela.</p>
<p style="text-align:justify;">É graças a mãos e olhos como os de Guejí, da ekede Cinha e de Iraildes que o legado transmitido através das roupas sobrevive. Marca da relação de um povo com a sociedade de sua época, os tecidos, ferramentas religiosas e adornos ultrapassaram as barreiras do tempo e do espaço e hoje são, ao mesmo tempo, documentos históricos, peças estéticas e por vezes sagradas, verdadeiros símbolos de resistência, identidade e auto-afirmação.</p>
<p>* Adriana Jacob é repórter, assessora de imprensa e colaboradora da Soteropolitanos.</p>
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		<title>O problema do negro ontem e hoje: da Antropologia criminal ao toque do berimbau</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jul 2008 20:18:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[isac coelho]]></category>
		<category><![CDATA[projeto unesco]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>

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Isac Coelho Sousa (1)
O chamado “Projeto UNESCO” – realizado nos anos de 1951 e 1952 – não apenas abriu um caminho novo no sentido de apontar um vasto e diversificado quadro das relações raciais no Brasil, mas possibilitou o surgimento de novas leituras, situadas na problemática, das grandes mudanças que ocorriam no interior da sociedade [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=107&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/07/isac.jpg"><img class="size-full wp-image-109 alignleft" style="float:left;" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/07/isac.jpg?w=246&#038;h=358" alt="" width="246" height="358" /></a><img class="size-full wp-image-108 alignnone" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/07/berimbau-isac.jpg?w=153&#038;h=400" alt="" width="153" height="400" /></p>
<p style="text-align:justify;">Isac Coelho Sousa (1)</p>
<p style="text-align:justify;">O chamado “Projeto UNESCO” – realizado nos anos de 1951 e 1952 – não apenas abriu um caminho novo no sentido de apontar um vasto e diversificado quadro das relações raciais no Brasil, mas possibilitou o surgimento de novas leituras, situadas na problemática, das grandes mudanças que ocorriam no interior da sociedade brasileira, que estava imersa em uma passagem acelerada da sociedade tradicional (ainda com resquícios coloniais, baseada na economia plantation-exportador) para o processo de modernização capitalista.<span id="more-107"></span></p>
<p style="text-align:justify;">No sentido de apresentar ao mundo, o quadro das relações raciais no Brasil, julgada na época como harmônica e bem-sucedida (tanto interna quanto externamente), a investigação dessas pesquisas se nortearam pela realização de um contraponto, tendo em vista perceber como se davam essas interações raciais nos diferentes recantos do país. Com esse objetivo, foram realizadas investigações em regiões economicamente tradicionais, como o Nordeste, e em áreas alinhadas com o processo de modernização capitalista, como a região Sudeste, mais especificamente as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align:justify;">As inúmeras pesquisas patrocinadas pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) também nos oferece uma oportunidade singular para analisarmos o desenvolvimento das Ciências Sociais no Brasil dos anos 50, observando as trajetórias intelectuais e sociais dos pesquisadores envolvidos (sejam eles nacionais ou estrangeiros), além de destacar o importante papel de disciplinas como Antropologia e Sociologia na elaboração destes projetos.</p>
<p style="text-align:justify;">A eleição da cidade de São Paulo, escolhida enquanto universo empírico privilegiado (para análise das relações/convivência entre brancos e negros), como contraponto a Salvador, justifica-se por se tratar do primeiro núcleo urbano brasileiro, especificamente burguês, no qual estava totalmente difundida uma mentalidade de caráter notadamente mercantil “com seus corolários característicos: o afã do lucro e a ambição do poder pela riqueza. Pensava-se que o ‘trabalho livre’ e a ‘iniciativa individual’ e o ‘liberalismo econômico’ eram os ingredientes do ‘progresso’, a chave que iria permitir superar o ‘atraso do país’, propiciar a conquista dos foros de ‘nação civilizada’ pelo Brasil(2).</p>
<p style="text-align:justify;">Um fator importante que o texto coloca foi a escolha da UNESCO pelo Brasil, como nação símbolo e exemplo a ser seguido pelo mundo, no tocante a uma democracia racial. Primeiro temos que analisar o contexto ao qual esteve inserida a fundação da UNESCO, e depois apontar o porquê desta escolha.</p>
<p style="text-align:justify;">A fundação da UNESCO, na década de 50, foi uma resposta ao momento de profunda crise vivenciada pela civilização Ocidental – mais especificamente a Europa – numa época em que o mundo saía de uma guerra dilacerante (tanto em perdas humanas quanto estruturais), que teve suas batalhas ideológicas e militares, em grande parte justificadas pelo racismo, e que se corporificaram em sua conseqüência mais perversa, o Holocausto.</p>
<p style="text-align:justify;">Dentro de uma perspectiva universalista e igualitária, a Unesco estimulou a “produção de conhecimento científico, a respeito do racismo, abordando as motivações, os efeitos e as possíveis formas de superação do fenômeno”(3), pois mesmo depois da queda de regimes totalitários (nazismo), a questão racial estava ainda em pauta, devido a persistência de regimes racistas como nos EUA e na África do Sul, e fatos importantes como o processo de descolonização Afro-asiático e a guerra fria entre soviéticos e americanos.</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse sentido, a recém-fundada UNESCO buscava um contraponto à Alemanha nazista de Hitler, que fosse exemplo para o mundo, ou seja, uma sociedade ímpar, (situada na periferia do mundo capitalista), em que as tensões étnico-raciais fossem mínimas, e que as raças convivessem de forma harmônica e cordial.</p>
<p style="text-align:justify;">A tese de que o Brasil era símbolo desse contraponto, de uma nação onde reinava de fato a democracia racial, remonta aos antigos relatos de viajantes europeus, que ao cruzar nosso território no século XIX, ficaram surpresos com uma (suposta) convivência pacífica entre as diversas etnias (índios, negros e brancos e depois os imigrantes) que habitavam o Brasil. A imagem de que o Brasil era um “paraíso racial”, despertou muito o entusiasmo dos membros da UNESCO, que iniciaram e patrocinaram (com o objetivo de contrastar a experiência brasileira com a norte-americana e Sul-africana) uma série de estudos no intuito de apresentar ao mundo dados substanciais que comprovassem tal concepção.</p>
<p style="text-align:justify;">A concepção do Brasil como ambiente harmônico de convivência entre as raças, contrastava com a versão pessimista, até então hegemônica, acerca da identidade nacional, que provinha dos receios das elites brasileiras (que devido à tardia abolição da escravidão e a proclamação da república, temiam que o Brasil se tornasse um novo Haiti), atribuíam os obstáculos da inserção do país na modernidade, à enorme contribuição africana e a intensa miscigenação, que marcaram visivelmente o compósito racial brasileiro.</p>
<p style="text-align:justify;">A partir dos anos 20, o Brasil passou por uma série de transformações econômicas, políticas e sociais, que visavam implantar no país o processo de industrialização e o modelo de sociedade capitalista, com isso, surgiu o debate de se firmar uma versão oficial e definitiva acerca da identidade racial. Nesse sentido, o enfoque pessimista da contribuição de negros, índios e mestiços, foi substituído pela visão otimista (que teve em Gilberto Freyre seu expoente máximo) que identificava na experiência brasileira, traços de harmonia e tolerâncias entre as raças.</p>
<p style="text-align:justify;">A idéia de que no Brasil havia apenas o preconceito de classe, e de que o preconceito racial seria apenas mais um elemento da desigualdade social, remonta aos inúmeros estudos realizados por norte-americanos e brasileiros, anteriores a década de 50, que apontavam o Brasil como sendo um caso diferente na conjuntura mundial, portador de um grande potencial democrático, ou ainda, nas palavras de Arthur Ramos “um laboratório de civilização”.</p>
<p style="text-align:justify;">Antes mesmo de se tornar diretor do Departamento de Ciências Sociais da Unesco, Arthur Ramos já se mostrava em consonância com as crescentes preocupações da instituição internacional, em relação ao Racismo, e as dificuldades de ordem socioeconômicas que eram latentes nos países subdesenvolvidos. Nesse sentido Arthur Ramos julgava necessário (antes do projeto Unesco em 50) a implementação de estudos acerca da integração dos grupos indígenas e negros ao mundo moderno, em conjunto ao programa de erradicação do analfabetismo, já existente, e implementado pela Unesco em parceria com o governo Brasileiro.</p>
<p style="text-align:justify;">As representações do negro nos discursos do séc. XIX nos remete à forma como a ciência estava se construindo como corpo sistematizado dentro da nossa cultura; e dentro desse ínterim temos o Doutor Nina Rodrigues como a imagem dessa ciência que se construía vendo o negro como objeto de estudo, como se fazia com a biologia animal, a zoologia, etc. O negro como “problemática” do ramo da Antropologia criminal levaria a uma enorme contribuição e alçaria o vôo desses estudos considerados relativamente novos nessa época. Essa contribuição seria mais acentuada principalmente pela necessidade de classificação dos tipos criminosos e a busca de razões genéticas através das características fenotípicas. Para isso era preciso que se preservasse todo e qualquer documento sobre a escravidão, necessários à construção de quadros classificatórios que viriam a contribuir na formação de uma identidade brasileira.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse rápido olhar sobre o trabalho de Nina Rodrigues nos faz pensar sobre a maneira como no século XIX a sociedade brasileira via no negro, e uma análise dos trabalhos feitos pela Unesco no seu projeto de se debruçar sobre pesquisas feitas no Brasil nos remete a algumas questões: a primeira delas é que os estudos sobre o negro têm ou teve na Bahia um local privilegiado por causa da imensa quantidade de negros concentrados principalmente no recôncavo e região metropolitana. Em segundo lugar, esses estudos criaram a imagem de uma Bahia onde as distinções raciais eram amenizadas por uma ausência de preocupação quanto à identidade racial, pois segundo os trabalhos de Métraux a Bahia era uma terra de mestiçagem muito acentuada e a seu ver prevalecem os problemas de natureza social. Em terceiro lugar, as experiências de miscigenação em São Paulo e no Rio de Janeiro, por serem muito diferentes da baiana servem como contraponto essencial desses estudos, pois, nesses estados, a experiência de miscigenação é bem menos acentuada em contrastes com o alto desenvolvimento econômico, o que acentuaria ainda mais as diferenças raciais nesses estados.</p>
<p style="text-align:justify;">Envoltos nessa atmosfera dos trabalhos de sociologia que despontava como uma ciência em construção, principalmente no sudeste, esses homens se posicionaram muitas vezes como a vanguarda conscientizadora e libertadora dos “leigos”, que dificultavam o surgimento de uma mentalidade de novo tipo capaz de canalizar esforços na direção de uma sociedade industrial democrática tanto em termos políticos quanto sociais. Seria função do sociólogo, segundo Florestan Fernandes, desvendar os fundamentos da estrutura social, no intuito de indicar os mecanismos de reprodução do racismo (Fernandes, 1960, p. 11).</p>
<p style="text-align:justify;">Fazendo uma ponte entre esses projetos de agências internacionais e o ponto em que temos a Bahia como lugar privilegiado para esses estudos, além da presença histórica da Faculdade de Medicina da Bahia com seu ilustre representante Dr. Raymundo Nina Rodrigues, temos historicamente uma distinção abertamente racista dos antigos e novos médicos eugenistas baianos, não só na Faculdade de Medicina, como em toda a elite baiana (que faz parte elite intelectual), que sentem uma forte ameaça, do movimento negro e da abertura das cotas. Esta tradição racista estava simplesmente recalcada e o que o Prof. Natalino Dantas fez, dois séculos depois do seu colega legista, foi, acima de tudo, um favor de nos lembrar de forma abrupta e aberta que o racismo existe e que de tempos em tempos a elite, a própria elite racista tem que nos acordar todos do torpor que é o eco da reafirmação histórica do mito “democracia racial”. Temos ainda, só a título de ilustração, matéria publicada no A Tarde(4), onde o psiquiatra Luiz Fernando Pedroso afirma, dentre outras coisas, que “ a criminalidade, em boa parte, é um problema de saúde”, e pérolas como “Entre as pessoas ricas ou pobres há os que têm a natureza boa e os que têm a natureza ruim”. Essas afirmações nos fazem refletir até que ponto podemos dizer que a Antropologia Criminal, que relacionava medições dos crânios dos criminosos mortos com índices de criminalidade está distante da “consciência” médica existente no corpo acadêmico do século XXI?. A população de baixa renda é quem mais sabe dessas tradições “acadêmicas” de longa data, mesmo sem grandes estudos “acadêmicos”, ou a tutela de um instituto de pesquisa para dar ares de verdade. Para provar isso basta perguntar a um usuário do SUS o tratamento respeitoso, animoso, cordial, simpático, profissional, gentil, amistoso, dentre outros adjetivos que ele(a) recebe ao entrar num consultório de um médico baiano, ou mesmo ser atendido por um numa situação emergencial. Abaixo à hipocrisia! A classe médica e a área de saúde genericamente, salvo exceções, é elitista e formada pela elite de cada estado desse país. O estudante rico que entra na área de saúde já odiava atender pobre e preto na sua residência, mas estudar lado a lado com um é demais, a reação demorou, mas está acontecendo, já era hora! Que venham mais dessas confissões abertas e preparemo-nos.</p>
<p style="text-align:justify;">1- Isac Coelho Sousa é graduado em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana e colabora com a Soteropolitanos.<br />
2- ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Dilemas do Brasil Moderno: A Questão Racial na Obra de Florestan Fernandes. Idéias, Campinas, 4 (1/2):43-58, jan/dez.,1997. Pág. 44.<br />
3- MAIO, Marcos Chor. O Projeto UNESCO e a Agenda das Ciências Sociais no Brasil dos Anos 40 e 50. Pág.143.<br />
4-  “Sociedade perdoa, no lugar de reprimir o delinqüente”. A Tarde, 26/3/2007; Bahia e Salvador.</p>
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		<title>Biblioteca afro</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Apr 2008 23:51:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Abdias do Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[biblioteca afro-brasileira]]></category>

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Inauguração da Primeira Biblioteca Comunitária Especializada  em Cultura Afro-brasileira e Africana no subúrbio ferroviário de Salvador
No mês em que se comemora o Dia Nacional de Combate ao Racismo na Educação, 03 de maio, será inaugurada a primeira biblioteca comunitária especializada em cultura afro-brasileira e africana, denominada “Biblioteca Abdias do Nascimento – Espaço BNB de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=101&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/04/cartaz1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-103" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/04/cartaz1.jpg?w=256&#038;h=256" alt="" width="256" height="256" /></a></p>
<p>Inauguração da Primeira Biblioteca Comunitária Especializada  em Cultura Afro-brasileira e Africana no subúrbio ferroviário de Salvador</p>
<p style="text-align:justify;">No mês em que se comemora o Dia Nacional de Combate ao Racismo na Educação, 03 de maio, será inaugurada a primeira biblioteca comunitária especializada em cultura afro-brasileira e africana, denominada “Biblioteca Abdias do Nascimento – Espaço BNB de Incentivo à Cultura”. Trata-se de uma iniciativa de jovens militantes e artistas oriundos de diversos seguimentos dos movimentos  sociais da cidade de Salvador, contando com o patrocínio do Banco do Nordeste e do Governo Federal através do Programa BNB de Cultura 2008. Este projeto visa incentivar a leitura e a valorização da auto-estima entre os moradores das regiões menos favorecidas, de população majoritariamente negra, ao proporcionar o acesso aos livros produzidos por autores negros ou voltados para esta temática, servindo ainda de instrumento no apoio para a implementação da Lei 10.639/03 ( que estabelece o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana nas escolas) e terá como sede o bairro de Escada, no subúrbio ferroviário de Salvador – Ba.<span id="more-101"></span></p>
<p style="text-align:justify;">O projeto homenageia um exemplo vivo na luta pelos direitos da população afro-brasileira: do alto dos seus 94 anos, Abdias do Nascimento representa um ícone na produção literária voltada à comunidade afro-brasileira. Entre peças teatrais, poesia, ensaios e trabalhos de pesquisa, Abdias tem mais de 20 livros publicados de sua autoria. Também organizou revistas, antologias e coletâneas que registram a sua atuação cívica e cultural, bem como as realizações das entidades que criou. Além da Literatura, sua obra abrange ainda a esfera das artes plásticas através de diversas telas e realização de exposições em vários países, do teatro (com a Criação do Teatro Experimental do Negro, na década de 50) e na atuação política voltada para a valorização e defesa dos direitos dos negros.</p>
<p style="text-align:justify;">O evento de inauguração, que acontecerá no dia 30 de maio, será marcado pela realização de intervenções artísticas de grupos locais e convidados, durante todo o dia, realizadas em frente a sede da biblioteca, localizada no bairro de Escada (ao lado do extinto almoxarifado do BANEB) e pela realização de  mesa redonda que discutirá com alunos e professores de escolas locais, a importância do ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, culminando com um show musical com diversos convidados.</p>
<p style="text-align:justify;">Maiores informações pelos telefones (71)8742-1045 / 8764-7967 ou pelo e-mail iya_ccan@yahoo.com.br .</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Data</strong>: 30 de maio de 2008<br />
<strong>Hora</strong>: a partir das 16h<br />
<strong>Local</strong>: av. Suburbana, S/N, Escada, ao lado do antigo almoxarifado do BANEB.<br />
<strong>Contatos</strong>: (71)8742-1045 Isis  /  (71) 8764-7967 Eduardo   /  iya_ccan@yahoo.com.br</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">* Texto e foto enviados pelo leitor Eduardo Pereira</p>
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		<title>Mudando o rumo da história</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Feb 2008 11:45:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[andre reboucas]]></category>
		<category><![CDATA[cosme de farias]]></category>
		<category><![CDATA[juliano moreira]]></category>
		<category><![CDATA[manuel querino]]></category>
		<category><![CDATA[milton santos]]></category>
		<category><![CDATA[teodoro sampaio]]></category>

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por Agnes Mariano
Ainda era cedo. Os portões da Faculdade de Medicina da Bahia nem tinham sido abertos, mas já havia um movimento intenso de estudantes no Terreiro de Jesus. É que eles ardiam em curiosidade para conhecer o resultado do concurso para professor que, finalmente, seria divulgado. Os estudantes tinham acompanhado tudo de perto, lotando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=97&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="justify">
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/meninos.jpg" alt="meninos.jpg" /></div>
<p>por Agnes Mariano</p>
<p align="justify">Ainda era cedo. Os portões da Faculdade de Medicina da Bahia nem tinham sido abertos, mas já havia um movimento intenso de estudantes no Terreiro de Jesus. É que eles ardiam em curiosidade para conhecer o resultado do concurso para professor que, finalmente, seria divulgado. Os estudantes tinham acompanhado tudo de perto, lotando o salão nobre em cada uma das fases: prova prática, de didática e defesa de tese. O objetivo era evitar “marmelada”, afinal, eles sabiam que não seria fácil para o jovem médico negro Juliano Moreira vencer um concurso numa instituição com fama de racista, frente a uma banca examinadora majoritariamente escravocrata. A libertação dos escravos, com a assinatura da Lei Áurea, tinha acontecido há apenas oito anos. Foi por isso que, naquela manhã de maio de 1896, quando finalmente entraram no prédio, os futuros médicos mal puderam acreditar no resultado afixado no mural: ao todo, Juliano tinha recebido 15 notas dez. A vaga era dele.  <span id="more-97"></span></p>
<p align="justify">Aquele foi um dia memorável para todos os estudantes, que comemoraram até altas horas a vitória do mérito sobre o preconceito. Juliano era famoso e querido desde os tempos de estudante, por sua modéstia e genialidade: tinha concluído o curso de medicina com apenas 18 anos de idade, com uma tese que se tornou conhecida internacionalmente. Agora, com apenas 23 anos, tinha conseguido superar concorrentes poderosos e se tornava o mais novo professor da faculdade. Mas, para esse rapaz &#8211; filho de uma doméstica e de um funcionário da prefeitura, que só assumiu o filho quando ficou viúvo -, a Bahia foi só o começo. Não demorou muito para ele ganhar o mundo e tornar-se o mais importante psiquiatra brasileiro. A história de Juliano, resgatada pelo psiquiatra e professor Ronaldo Jacobina, ao contrário do que se pensa, não foi um exemplo isolado. Mesmo antes da abolição da escravatura, muitos negros e mulatos baianos também conseguiram vencer obstáculos que pareciam intransponíveis e entrar para a galeria dos mais importantes engenheiros, advogados, cientistas sociais e médicos do Brasil. Mudar o passado era impossível, mas o futuro, eles sabiam, dependia do que cada um fizesse.</p>
<p align="justify">No Brasil de antigamente, estudar era difícil para qualquer um. Portugal fez tudo o que pôde para retardar o desenvolvimento científico na sua colônia. Era proibido abrir faculdades, imprimir jornais e livros. As poucas escolas não eram reconhecidas por Lisboa e, o que existia, limitava-se ao aprendizado artesanal, das “belas letras” ou estudos teológicos. As coisas começaram a mudar quando a família real precisou refugiar-se no Brasil, em 1808. De um dia para o outro, passou a ser importante tornar o ambiente mais agradável, civilizado, suportável. Ao longo do século XIX, as alterações no sistema educacional foram contínuas, mas ainda insuficientes para mudar o quadro. O censo de 1870 informa: cerca de 85% dos brasileiros eram analfabetos. Claro, a situação era especialmente grave entre os negros e pior ainda entre os escravos. Havia até uma lei proibindo estes últimos de estudar.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/recorte.jpg" alt="recorte.jpg" /></div>
<p align="justify">
<p align="justify">Quem era rico apelava para os colégios internos e depois mandava seus filhos para Coimbra ou Lisboa, atravessando o Atlântico por 60 dias. Quem não dispunha de recursos, tinha que disputar uma das pouquíssimas vagas nas escolas locais e então prestar o vestibular em alguma das faculdades que, lentamente, começavam a surgir: Medicina, Direito, Filosofia, Belas Artes, Politécnica, Odontologia, Farmácia e Ciências Econômicas. “Estudar era um luxo. Mesmo depois de 1827, quando o Império decreta a criação de escolas primárias em todas as cidades, o sistema era precário, muitas funcionavam na varanda ou sala da casa do professor, quando havia”, explica a pedagoga e gerente de pesquisa da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Jaci Menezes. Como era preciso ter dinheiro e tempo livre para estudar, as únicas opções eram conseguir apoio de alguém ou escolarizar-se por conta própria. Para se sustentar, quem tinha muita sorte ingressava no funcionalismo público ou, então, aprendia um ofício manual: sapateiro, pedreiro, pintor, marceneiro.</p>
<p align="justify">Essas eram as opções possíveis e foi por esses caminhos tortuosos que eles conseguiram o sucesso. O pintor, professor, jornalista, artista plástico e funcionário público Manoel Querino &#8211; autor de trabalhos pioneiros na antropologia e história da arte &#8211; e o escrevente, advogado e parlamentar Antonio Pereira Rebouças se enquadraram entre os autodidatas. O engenheiro, geógrafo, cartógrafo, geólogo e historiador Teodoro Sampaio e o engenheiro, abolicionista e escritor André Rebouças &#8211; construtor das primeiras docas do país e autor de propostas reivindicando reforma agrária e escolarização para os ex-escravos &#8211; estão entre os que tiveram a sorte de obter uma formação de qualidade com a ajuda de familiares. Já o psiquiatra Juliano Moreira e o pediatra Martagão Gesteira cresceram, se formaram e se destacaram na Bahia, sendo depois convidados para projetos de âmbito nacional.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/irmaos-reboucas.jpg" alt="irmaos-reboucas.jpg" /></div>
<p align="justify">
<p align="justify">Nada de lamentações, complexos, receios ou hesitações. A história desses homens e algumas mulheres é marcada pela disposição para viver o seu tempo, enfrentando o que fosse necessário. Desejando ser acima de tudo cidadãos brasileiros, não mitificavam a África perdida e também não esqueceram de trabalhar em prol de quem mais precisava, o povo. Também não se fecharam em guetos: tiveram amigos e amores de todas as cores e classes. Frente às injustiças e aos preconceitos que ameaçaram obstruir os seus caminhos, eles agiram com elegância e energia. Em 1685, um grupo de “moços pardos” baianos mandou um ofício diretamente para a corte portuguesa, reivindicando o direito de freqüentar o Colégio dos Jesuítas, única instituição de ensino na época. E conquistaram esse direito, conta Jaci Menezes. Em 1960, o geógrafo Milton Santos também precisou solicitar à justiça que garantisse a realização de um concurso para professor na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. O diretor tinha suspendido o concurso para evitar que Milton ingressasse na universidade, conta a geógrafa e professora Maria Auxiliadora Silva.</p>
<p align="justify">Foi passando, então, pelas escolas disponíveis e completando a sua formação com o acervo de bibliotecas, viagens e experiência de vida, que esses jovens baianos se tornaram profissionais brilhantes e cidadãos úteis. Médicos como os irmãos George e Cleonice Alakija ou Perceval e Esmeralda Vasconcelos, escritores como Édison Carneiro. Foram brilhantes e corajosos, mas também tiveram sorte, porque, na Bahia e no Brasil, o funil do acesso à educação de qualidade continua muito estreito. Até hoje.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/edson-carneiro.jpg" alt="edson-carneiro.jpg" /></div>
<p align="justify"><strong>HOMENS DAS LETRAS</strong><br />
Filho de operário deveria ser operário, filho de pobre deveria ser pobre. Com a vida difícil que se levava naquele tempo, como uma pessoa de origem humilde podia pensar em gastar horas na frente de um livro? Quase todo mundo concordava com esse princípio, mas havia quem tivesse a ousadia de discordar. Em geral, eram membros de famílias que já tinham conquistado a liberdade antes da abolição e estavam, há algumas gerações, em busca de prosperidade e instrução. Na Bahia do século XIX, a grande aspiração era tornar-se bacharel e foi dessa forma, tornando-se hábil na relação com as palavras escritas e faladas, que começou a ascensão de muitos negros e mulatos.</p>
<p align="justify">O calor de Salvador era o mesmo de hoje em dia, mas os bacharéis não se importavam e enfrentavam as ruas com suas bengalas, guarda-chuvas e ternos. Além do figurino, a marca dos bacharéis era o palavreado rebuscado, lapidado em anos de estudos, e o gosto pelas leis. O risco de perder-se em discursos vazios &#8211; cultivando apenas o amor à eloqüência e à verborragia &#8211; era grande e a maioria não foi além disso. Alguns, entretanto, souberam usar o seu domínio das palavras de forma proveitosa. Autodidatas ou não, alguns advogados, jornalistas, escritores e professores dessa época conseguiram ajudar muitas pessoas, envolveram-se em causas importantes e realizaram valiosos estudos aspectos da nossa história e costumes que permaneciam desconhecidos até então.</p>
<p align="justify">Os irmãos Rebouças nasceram ainda no tempo das escolas de primeiras letras e aulas régias, criadas pelo Marquês de Pombal após a expulsão dos jesuítas. A escola primária, até que eles conseguiram cursar &#8211; em Maragogipe, onde viviam -, mas as “aulas régias” eram só para quem sonhasse com estudos mais avançados em Portugal. Filhos do alfaiate Gaspar Rebouças e de Rita Basília, esses rapazes mulatos – José, Antonio, Manuel Maria e Manuel Maurício &#8211; tinham os pés no chão e logo pararam de freqüentar a escola para trabalhar. Mas não pararam de estudar. Antonio e Manoel Maurício conseguiram emprego como escreventes de um cartório e fizeram desse trabalho a sua escola. Por enquanto, vamos nos deter apenas na trajetória de Antonio, que, “compulsando autos, lendo processos, foi-se apaixonando por tudo que dizia respeito a leis, começando a estudar o assunto em obras emprestadas ou adquiridas”, conta o historiador Loureiro de Souza, no livro “Baianos Ilustres”.</p>
<p align="justify">
<p align="justify">
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/pereira-reboucas.jpg" alt="pereira-reboucas.jpg" /></div>
<p align="justify">Aos poucos, ele foi ganhando coragem e começou a advogar na condição de rábula. O seu talento era tamanho que, em alguns anos, Antonio tornou-se secretário de governo, elegeu-se deputado duas vezes, recebeu o direito de advogar em todo o território nacional e foi nomeado conselheiro do imperador D. Pedro II, passando a residir no Rio de Janeiro.  São famosas as suas intervenções em temas polêmicos, que lhe custaram muitas perseguições: contra a pena de morte, os traficantes de escravos da Bahia e os falsificadores de moedas. Como se não bastasse, Antonio foi também o pai de André Rebouças, um dos homens mais atuantes do seu tempo, como engenheiro e abolicionista.</p>
<p align="justify">Outro rábula mulato que fez história foi o major Cosme de Farias. Nascido em 1875, em Paripe, subúrbio de Salvador, ele foi também jornalista, poeta, funcionário público, deputado estadual e vereador. Na sua época, já existia o Liceu Provincial, “que depois passou a se chamar Colégio Central e foi a única escola pública de ensino secundário na Bahia, de 1837 até o começo do século XX”, explica a pedagoga Jaci Menezes. Mas, provavelmente por falta de recursos, Cosme de Farias só estudou mesmo até o primário e completou sua formação na vida.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/cosme.jpg" alt="cosme.jpg" /></div>
<p align="justify">Quem tem mais de 40 anos, certamente ouviu falar de Cosme, que viveu quase 100 anos. “Eu cheguei a conhecê-lo. Ele aparecia em todas as solenidades cívicas com um caminhão escrito ‘Abaixo o analfabetismo’. Tinha o dom da oratória e era de uma bondade incrível. Eu vi uma pessoa chegar até ele, dizendo que precisava de um cinto. Ele tirou o próprio cinto e deu. Depois amarrou a calça com um barbante e seguiu em frente”, conta o engenheiro, escritor e poeta José Carlos Limeira. Na sua cruzada pela educação, Cosme fundou e dirigiu a Liga Baiana contra o Analfabetismo, mandou imprimir e distribuiu milhares de cartilhas, manteve várias escolas primárias, arrecadou e doou material escolar.</p>
<p align="justify">Advogando, Cosme defendeu milhares de réus pobres e nunca acusou nenhum. Segundo Jorge Amado, “seu escritório de advocacia, uma pequena porta na oficina de um remendão de sapatos, era, sem dúvida, o mais movimentado do Brasil. Ali, ele redigia com a letra grossa, desigual e difícil as razões dos seus clientes gratuitos”. E, para completar sua batalha, publicava nos jornais da época a coluna “Linhas Ligeiras”, onde fazia apelos, comentários e críticas, lembra Amado. Das prisões, delegacias e jornais, Cosme chegou aos palanques, mantendo-se sempre fiel à sua luta pelos pobres. Não é à toa, então, que o bairro onde ele morava ganhou o seu nome.</p>
<p align="justify">Entre os autodidatas do século XIX, Manuel Raimundo Querino certamente foi o mais renascentista de todos. Escrevendo, discursando ou desenhando, foi competente em todas as profissões em que atuou: pintor, decorador, designer, projetista, político, jornalista e escritor. Mas foram as suas pesquisas e artigos sobre a cultura negra na Bahia que o imortalizaram. Registrando costumes e recolhendo depoimentos ao longo de toda a vida, Querino foi um dos pioneiros da antropologia nacional. Ouvindo os últimos homens e mulheres que tinham lembranças da África, ele evitou que informações preciosas se perdessem no tempo. E, sendo ele próprio negro, introduziu um elemento importante na forma de tratar esses assuntos: o respeito.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/querino.jpg" alt="querino.jpg" /></div>
<p align="justify">Foi um professor da Escola Normal, o bacharel Manuel Garcia, quem acolheu o pequeno Manuel. Com apenas quatro anos de idade ele tinha ficado órfão. Seu pai, um carpinteiro, e sua mãe foram vítimas da epidemia de cólera que atingiu Santo Amaro em 1855, conta o artista plástico e professor de História da Tecnologia e do Desenho Industrial da Uneb Jaime Sodré, autor do livro “Manuel Querino, um Herói de Raça e Classe”. Aos 17 anos, com sede de aventura, alistou-se como recruta. Depois de passar por Pernambuco e Piauí, acabou envolvido com a Guerra do Paraguai, mas escapou de ir parar na linha de frente por causa da boa caligrafia e corpo franzino: preferiram aproveitá-lo como escriba do batalhão.</p>
<p align="justify">Quando conseguiu voltar à Bahia, empregou-se como pintor e estudava à noite: português, francês e desenho, sua grande paixão. Primeiro no Liceu de Artes e Ofícios e depois na Academia de Belas Artes. Criado em 1872, o objetivo do Liceu era “dar educação profissional e literária” aos filhos dos artífices, explica Sodré, enquanto a academia, fundada cinco anos depois, por um dos professores do Liceu, o espanhol Miguel Cañizares, tinha uma pretensão assumidamente artística. Não restaram registros da obra artística de Querino, mas ele deixou um livro fundamental para os interessados em história da arte – “Artistas Bahianos” -, com biografias de artistas de várias épocas.</p>
<p align="justify">A paixão pelo desenho e pintura foi só um dos seus interesses. Além de dar aulas de desenho e prosseguir com seu trabalho como pintor, Querino envolveu-se na política. Engajou-se no movimento abolicionista, participando de reuniões, escrevendo artigos, e foi membro da Sociedade Protetora dos Desvalidos, que comprava alforrias. Em seguida, naquele delicado momento de “transição do regime escravocrata para um novo”, como define Sodré, Querino trabalhou ativamente pela causa trabalhista. Fundou dois jornais, foi sua a idéia da criação do Partido Operário e participou da Liga Operária Baiana. Daí chegou à Câmara Municipal, onde teve um mandato.</p>
<p align="justify">O reconhecimento à obra de Querino só veio, e ainda timidamente, após a morte. Em vida, sobreviveu como funcionário da Secretaria da Agricultura, “onde foi consecutivamente preterido em todas as ocasiões em que lhe era de justiça a promoção”, conta Arthur Ramos, organizador do seu livro “Costumes Africanos no Brasil”, publicado postumamente. Quem melhor caracterizou a importância e desconhecimento em relação à obra de Querino foi Jorge Amado, que se inspirou nele para criar um dos seus melhores personagens: Pedro Archanjo, o funcionário público que ousava escrever sobre costumes afro-baianos contradizendo o grande sábio da época. Esse foi, de fato, um dos méritos de Querino, trazer um olhar novo sobre essas questões, que vinham sendo tratadas principalmente pelo médico Nina Rodrigues, um homem dedicado, mas que compartilhava, em boa medida, dos preconceitos da sua época. Querino criou seus próprios métodos, arriscou-se, acertou, errou, mas fez tudo com a sensibilidade que só os grandes pesquisadores sabem ter.</p>
<p align="justify"><strong>ENGENHEIROS DO BRASIL</strong><br />
O autodidatismo até que podia funcionar no aprendizado das letras, mas como aprender a erguer pontes, construir portos e redes hidráulicas sem estudar em boas escolas? Na Bahia do século XIX, os mestres-de-obras eram os construtores mais qualificados e alguns deles, como Manuel Friandes, se destacaram bastante: foram obras dele, por exemplo, o Mercado do Ouro, a fábrica do Curtume Cabrito e a Igreja da Lapinha que, segundo a tradição oral, mais parece uma mesquita pelo fato do construtor ser de origem malê, isto é, africano islâmico. Para aprender mais, entretanto, o jeito era ir para a capital do país, o Rio de Janeiro, e estudar engenharia. Esse foi o percurso dos baianos Teodoro Sampaio e André Rebouças que, além de engenheiros brilhantes, também foram cidadãos de um civismo incomum.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/gazeta2.jpg" alt="gazeta2.jpg" /></div>
<p align="justify">Pouca gente sabe, mas o baiano André Rebouças foi um dos mais importantes mentores do movimento abolicionista brasileiro. André não era um grande orador, nem político, mas “encarnou, como nenhum outro de nós, o espírito antiescravagista, sacrificando tudo, sem exceção, que lhe fosse contrário ou suspeito”, definiu Joaquim Nabuco. Sua proposta era muito mais ampla do que apenas a libertação: produziu livros e documentos mostrando a necessidade de mudar a estrutura agrária do país, da doação de terras para os libertos, da educação técnica e industrial para os filhos dos lavradores, enumera a pedagoga Jaci Menezes. Tudo isso, vindo de um homem que poderia ter se perdido nas delícias da corte, pois tinha acesso irrestrito à família imperial desde a infância ou sucumbido ao charme da Europa, para onde viajou várias vezes. André, entretanto, só se devotou ao interesse público, às causas sociais, a trazer progresso para o Brasil.</p>
<p align="justify">Filho primogênito do conselheiro Antonio Rebouças – conhecido como “representante da população mulata” -, André nasceu em Cachoeira, em 1838. Por causa das perseguições que seu pai sofria, a família precisou se mudar e, com apenas oito anos, já estava morando no Rio. O que acabou sendo vantajoso, pois ele pôde ter acesso a boas escolas e professores. Com 22 anos se formou em engenharia e, dispondo de uma bolsa, logo em seguida foi para Europa completar os estudos. Lá, estudou com afinco o que havia de mais novo: fundações com ar comprimido, engenharia de viadutos, construção de diques e vias férreas. Do ano seguinte, quando retornou ao Brasil, até o final da sua vida, André empenhou-se em numerosos trabalhos de engenharia por todo o país que o credenciaram como um dos mais importantes engenheiros que o Brasil já teve.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/reboucas-cores.jpg" alt="reboucas-cores.jpg" /></div>
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<p align="justify">Apesar das boas relações, seu pai sempre teve uma situação financeira delicada e foi com muito esforço que André conseguiu ir aprimorando a sua formação de engenheiro, no Brasil e exterior, e crescer profissionalmente, com a implantação pioneira de técnicas e equipamentos na construção civil nacional. Nesse campo, atuou como engenheiro e empresário &#8211; projetando e acompanhando obras em vários estados brasileiros, principalmente no setor portuário e obtendo financiamentos com o capital nacional ou estrangeiro &#8211; e como professor ativo na Escola Politécnica.  A parte mais difícil, entretanto, era lidar com os trâmites políticos, com as barreiras burocráticas e perseguições orquestradas por ministros, parlamentares e empresários concorrentes, que tentaram derrubá-lo, inclusive com campanhas difamatórias que apelavam até para o preconceito racial.</p>
<p align="justify">Depois de alguns anos, André diminuiu a sua atuação como empresário, mas já tinha conquistado então prestígio político, boa situação financeira e trazido grandes contribuições à engenharia brasileira. Ele construiu, por exemplo, as primeiras docas do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Maranhão, junto com seu irmão, também engenheiro, fez o sistema de abastecimento de água do Rio e implantou núcleos coloniais na região sul, enumera o pesquisador Nei Lopes.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/gazeta.jpg" alt="gazeta.jpg" /></div>
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<p align="justify">O interesse por questões sociais e econômicas sempre existiu: desde a década de 1860, por exemplo, ele já tinha propostas sobre a emancipação dos escravos. Mas foi principalmente depois de ver de perto os horrores de que os homens são capazes na Guerra do Paraguai (1864 a 1870), que as causas sociais ganharam maior peso na sua vida. Tornou-se professor, escrevia para jornais, conseguiu que fosse construída uma escola noturna para trabalhadores e intensificou o seu engajamento na campanha abolicionista. Não media esforços como intelectual, articulador político e financiador, atuando com seus artigos em jornais, arregimentando aliados importantes, organizando eventos, seminários, participando de congressos, além de ser o mentor de um grupo cujo nome mais conhecido é o de Joaquim Nabuco.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/gazeta3.jpg" alt="gazeta3.jpg" /></div>
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<p align="justify">“Quem possui a terra, possui o homem”, escreveu André Rebouças em 1890. Nesta frase, ele sintetizava a sua concepção de que a efetiva integração social dos ex-escravos e a prosperidade do Brasil dependiam fundamentalmente da modificação da nossa estrutura fundiária, com a implantação da reforma agrária no país, acompanhada de incentivos e tecnologia. E mais, como sempre fazia, dedicou-se exaustivamente ao tema, produzindo uma proposta detalhada e ampla, conhecida como “Democracia Rural Brasileira”. Por conta do seu hábito de escrever, André Rebouças produziu um vasto material que esclarece detalhes da sua vida, seus pensamentos, da época e das personalidades com quem conviveu. Nas últimas décadas, alguns pesquisadores produziram livros baseados nesse acervo, sendo o mais recente deles “André Rebouças – Reforma &amp; Utopia no Contexto do Segundo Império”, da historiadora Joselice Jucá, já falecida, que teve acesso irrestrito aos diários, correspondências, manuscritos, artigos e livros de Rebouças.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/diario-esc.jpg" alt="diario-esc.jpg" /></div>
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<p align="justify">Segundo Jucá, os pontos centrais da proposta de Rebouças eram a eliminação dos latifúndios, que seriam divididos em propriedades menores, de 20 hectares, e a “centralização agrícola”, um sistema coletivista para organização, beneficiamento da produção e aperfeiçoamento. Isto é, um grupo de pequenas fazendas organizadas em torno de uma “fazenda central”, que seria responsável pelo aperfeiçoamento tecnológico (dispondo inclusive de engenheiros), processamento industrial (para beneficiar a produção antes da venda) e escoamento da produção. Ele tratou ainda, detalhadamente, do papel do governo, capital externo, exportação, juros, impostos, necessidade da educação e até previu os problemas sociais que surgiriam se nada fosse feito e a população se tornasse um batalhão de sem terras: ex-escravos negros e os novos “escravos brancos”, os imigrantes pobres importados pelos fazendeiros de café com falsas promessas. “A escravidão não está no nome, mas sim no fato de usufruir o trabalho de miseráveis pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome. Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”, dizia Rebouças.</p>
<p align="justify">Com a Proclamação da República, o golpe dos militares em 15 de novembro, apoiados pelos proprietários de terras temerosos de que se expandissem as reformas deflagradas com o 13 de maio, terminou a Monarquia no Brasil. Amigo íntimo da família real, principalmente de D. Pedro II, André os seguiu, indo morar na Europa. Preferiu partir, tanto por sua repulsa ao militarismo, quanto para acompanhar seus amigos no exílio. Da Europa, continuou acompanhando os acontecimentos e escrevendo em jornais. Nos seus últimos anos de vida, seu interesse estava voltado para as colônias portuguesas na África, onde descobriu problemas similares aos brasileiros e lutou para implantar a sua Democracia Rural. Viveu lá por seis anos, até que, em 1898, foi encontrado morto, ao pé de um rochedo, num acidente nunca explicado. No Brasil, as duas maiores capitais homenageiam os irmãos Rebouças, com a Avenida Rebouças, em São Paulo, e os túneis André Rebouças e Antonio Rebouças, no Rio de Janeiro, mas para a maior parte dos brasileiros, inclusive os bem informados, André Rebouças ainda é um desconhecido.</p>
<p align="justify"><strong> Teodoro</strong><br />
A história de Teodoro Sampaio não teve um final tão trágico, mas é igualmente surpreendente. O bebê nasceu em 1855, numa encantadora região do recôncavo baiano, na fazenda Canabrava, onde hoje há um município chamado Teodoro Sampaio que, na época, fazia parte de Santo Amaro da Purificação. Entre os pesquisadores, quase todos concordam que a sua mãe era escrava e se chamava Domingas da Paixão. Quanto ao pai, há dúvidas: o senhor de engenho Francisco da Costa Pinto, ou o irmão deste, Manuel Lopes, mais conhecido como Visconde de Aramaré. Há outras versões, atribuindo a paternidade a religiosos: ou o padre Joaquim Pinto, responsável pela capela do engenho, ou o padre Manuel Fernandes Sampaio. Esta última versão é a defendida pelo historiador José Carlos Barreto de Santana, que prepara uma biografia de Teodoro.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/cidade-teodoro-bahia.jpg" alt="cidade-teodoro-bahia.jpg" /></div>
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<p align="justify">O fato importante é que, desde cedo, cuidaram da instrução do garoto.  A iniciação escolar aconteceu da forma mais comum nas fazendas: com o capelão, no caso, o padre Joaquim Pinto. “Os livros não eram muitos; supprimiam-nos as cartas de mão, como ainda hoje se pratica no longínquo interior”, conta o próprio Teodoro, que estudou ainda no colégio do professor José Joaquim dos Passos, em Santo Amaro. Tudo indica que um dos padres, sendo transferido para São Paulo, levou o garoto. Teodoro foi enviado para um colégio interno em São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio São Salvador.</p>
<p align="justify">Vivendo numa terra estranha, mas determinado, ele seguiu nos estudos até matricular-se na Escola Politécnica Fluminense, em 1872. Enquanto estudava, deu aula em várias escolas e, aos 22 anos, já estava formado em engenharia civil. A sua primeira providência, conta Nei Lopes, foi retornar à Bahia e comprar a alforria da mãe. Também conseguiu comprar ou intermediar a compra da alforria dos irmãos. Iniciou a sua carreira em São Paulo, mas em breve estava de volta ao nordeste: integrado à equipe da “Comissão Hidráulica”, coordenada pelo engenheiro Milnor Roberts. O objetivo era estudar e projetar melhoras no porto de Santos e no rio São Francisco. A equipe começou a viagem por Alagoas e, de lá, seguiu até Minas Gerais, refazendo toda a trajetória do rio e redescobrindo o Brasil. Os sertões, veredas e chapadões, os povoados e suas histórias emocionaram o jovem engenheiro, que registrou minuciosamente tudo o que viu em suas famosas cadernetas.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/teodoro.jpg" alt="teodoro.jpg" /></div>
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<p align="justify">As anotações geraram o livro “O Rio de São Francisco e a Chapada Diamantina”, com informações históricas e geológicas, dezenas de mapas inéditos e a nomeação para ser o primeiro engenheiro da Comissão de Melhoramentos do Rio São Francisco. Isto, depois de superar muitas dificuldades. Demonstrando o que enfrentava um negro naquela época, o historiador Santana narra, por exemplo, um episódio da Comissão Hidráulica. Apesar de ter sido convidado para integrar a equipe e participado da apresentação do projeto, feita pelo Ministro, o nome de Teodoro foi omitido na lista dos engenheiros nomeados publicada no Diário Oficial. A omissão foi iniciativa de um oficial de gabinete do ministério, que temia constranger os engenheiros americanos com a presença de um negro. Problema sanado, Teodoro trabalhou durante dois anos no projeto, mas, quando o projeto terminou, “aquele que foi considerado por Rudolf Wiezer, ajudante de Milnor Roberts, ‘the beste brazilian engineer in Mister Robert’s staff’ continuaria tendo um tratamento diferenciado em relação aos demais integrantes da Comissão, que tiveram imediatamente garantidos empregos e promoções. Decorridos seis meses, a única proposta de trabalho seria recusada por ser considerada um rebaixamento”, contou Santana no seu texto “Os engenheiros Euclides da Cunha e Teodoro Sampaio”.</p>
<p align="justify">Como aliados, Teodoro tinha a sua competência e alguns amigos. Segundo Santana, a amizade com o Diretor da Sessão de Mineralogia e Geologia do Museu Imperial (atual Museu Nacional), Orville Derby, foi de fundamental importância para o engenheiro, tanto pelas trocas intelectuais, quanto pelos conselhos e intervenções. Em contrapartida, Teodoro também ajudou muitas pessoas. Euclides da Cunha, por exemplo, recorria a ele semanalmente para ajustes no texto de “Os sertões”, que Teodoro ouvia com prazer, por relembrar de um cenário tão querido e pela denúncia sobre o que tinha acontecido em Canudos. Antes mesmo da partida para Canudos, Teodoro já tinha ajudado Euclides, cedendo-lhe anotações sobre o sertão e mapas inéditos da região: “Trecho de sertão ainda muito desconhecido”, conta o engenheiro.</p>
<p align="justify">Teodoro adorava São Paulo. Foi por isso que permaneceu por tanto tempo: “Os affazeres me obrigavam e os affectos daquelle povo progressista me prendiam”. Lá, participou de várias comissões governamentais, como a que realizou o levantamento da carta geológica do estado e foi o diretor de saneamento de São Paulo. Também trabalhou em outros lugares, como na reforma urbanística do Rio de Janeiro. Como homenagem ao seu trabalho, existe na capital, no bairro de Pinheiros, uma importante avenida chamada Teodoro Sampaio. Na região oeste do estado há também um município com o seu nome.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/cidade-teodoro-sp.jpg" alt="cidade-teodoro-sp.jpg" /></div>
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<p align="justify">Contratado pela prefeitura de Salvador, em 1904, Teodoro retornou à Bahia. Ele nunca tinha cortado os laços com a cidade e seu filho, inclusive, nasceu aqui, fruto da sua união com Capitolia Maia Sampaio, conta Loureiro de Souza. Apesar de todo o carinho que tinha por Salvador, Teodoro também não deixava de criticar o seu “aspecto decadente” e suas “velharias arraigadas”. Trabalhou o quanto pôde para trazer um sopro de renovação à cidade, atuando em várias áreas. Como engenheiro, promoveu reformas urbanísticas, arquitetônicas, como o prédio da antiga Faculdade de Medicina e cuidou do saneamento da cidade.</p>
<p align="justify">Ele encontrava tempo ainda para ser sócio honorário e orador oficial do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, onde realizou discursos como este, em 1919, pronunciando-se contra uma resolução racista: “Não pode haver desmentido mais formal ao ideal de paz e de fraternidade humana, que se quer assentar com a Liga das Nações do que essa doutrina de desegualdade das raças, agora triumphante no seio da Conferência”. Teodoro também teve sua experiência política, elegendo-se deputado federal. Um episódio triste e marcante foi a morte do filho, um engenheiro de apenas 34 anos, que já tinha realizado vários trabalhos e estava atuando na recém criada Escola Politécnica da Bahia.</p>
<p align="justify">A educação sempre foi uma das suas preocupações: “No ensino do povo está a nossa salvação, meus senhores, e esse ensino, por desgraça nossa, anda, de ha muito, descurado”, afirmava ele. Pode ser esse o motivo do seu envolvimento tão intenso e produtivo em tantas áreas, resultando em obras importantes como “O tupi na geografia nacional”, “História da fundação da cidade do Salvador” e “Atlas dos Estados Unidos do Brasil”. E também a razão de ter sido um dos organizadores da Escola Politécnica de São Paulo. Em 1937, no Rio de Janeiro, faleceu Teodoro, com 82 anos. Muitas décadas depois, sues restos mortais, diários e outros textos foram confiados ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, na Praça da Piedade, em Salvador, onde estão até hoje, servindo como preciosa fonte de pesquisa.</p>
<p align="justify"><strong>MÉDICOS ILUSTRES</strong><br />
Na Bahia colonial, palavras como saneamento, higiene e medicina tinham um significado muito diferente do que nós conhecemos hoje. Pequenas cirurgias e extração de dentes ficavam a cargo dos barbeiros. Para os remédios, era preciso confiar na inspiração dos boticários e curandeiros. Mas se a coisa era séria e precisava-se de um médico, quem tinha dinheiro contratava um doutor formado em Coimbra. Quem não tinha, podia ir parar na Santa Casa da Misericórdia: “Um lugar mais temido que a cadeia, nessa época. A assistência pública era a pior possível. A medicina em Portugal era muito mais atrasada do que no resto da Europa e na colônia o desastre era completo”, descreve o antropólogo Renato da Silveira.</p>
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<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/famed.jpg" alt="famed.jpg" /></div>
<p align="justify">Por esse quadro, dá para imaginar a importância do dia em que D. João VI, finalmente, autorizou o funcionamento do Colégio Médico Cirúrgico, em 1808, transformado depois em Faculdade de Medicina da Bahia, em 1832. Começou ali uma batalha imensa para organizar instituições básicas e para que a população mudasse alguns dos seus hábitos, como a predileção por enterrar mortos dentro das igrejas, o que proporcionava um cheirinho inconfundível às catedrais baianas. “A lista de maus hábitos era grande e variada: a disposição de lixo nas vias públicas, a falta de escoamento das águas usadas, alinhamento desordenado das ruas, a arquitetura inadequada dos prédios, os hábitos alimentares extravagantes, a indisposição para exercícios físicos e para a higiene pessoal”, enumera o historiador João Reis, em seu livro “A morte é uma festa”.</p>
<p align="justify">Negros e mulatos na Faculdade de Medicina sempre foram poucos e não é nada difícil encontrar relatos sobre ofensas e perseguições sofridas, protagonizadas por algum professor elitista. O que não impediu a presença desses rapazes na escola, como estudantes e até professores, desde o começo. Os irmãos José e Domingos Melo estão entre esses pioneiros. Ambos, além de médicos foram professores dessa instituição no século XIX. Outro médico e professor negro foi Luis Anselmo da Fonseca. Nascido em Santo Amaro, em 1853, ele foi também um homem das letras, como era comum entre os médicos da época. Além dos livros sobre medicina, escreveu trabalhos historiográficos: “O seu livro ‘A escravidão, o clero e o abolicionismo’ é fantástico”, assegura o historiador Cid Teixeira.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/medicos-irmaos.jpg" alt="medicos-irmaos.jpg" /></div>
<p align="justify">O próprio Cid explica as razões desse fenômeno: “Na verdade, a Faculdade continuadora do Colégio Médico-Cirúrgico foi bem mais uma escola de cultura humanística, uma opção universitária para os que não tinham condições para os estudos europeus de Coimbra ou de Montpelier ou para a freqüência dos cursos jurídicos de Olinda e São Paulo”. Alguns, é claro, amavam tanto as letras quanto a ciência. Um desses foi o médico, deputado, conselheiro e professor Salustiano Souto, que tinha um alto cargo entre os malês da cidade. Vindo do interior – Vila Nova da Rainha –, formou-se logo nas primeiras turmas da faculdade, 1840, e em seu concorrido consultório atendia pobres e abastados. Solteirão, dedicava-se nas horas vagas a estudos religiosos, dirigiu por dez anos o Passeio Público e promovia reuniões sociais em sua casa, reunindo convidados como Castro Alves e Ruy Barbosa, conta Cid.</p>
<p align="justify">Outro médico ilustre dessa época foi Manuel Maurício Rebouças, irmão do conselheiro Antonio Rebouças e tio do engenheiro André Rebouças. Após ter trabalhado como escrevente num cartório, ao lado do irmão, lutado nas batalhas da Independência e procurado “em vão por um emprego público”, ele foi para a França, conta o historiador João Reis. Morou e trabalhou lá por sete anos, conseguindo estudar letras, ciências e medicina. Como cientista, Maurício produziu o mais importante trabalho de um brasileiro sobre os enterros nas igrejas. Nessa época, a medicina ainda tateava, usando mais a intuição do que método científico, mas o trabalho de Maurício atualizou os baianos sobre a questão com um oportuno espírito conciliador que muito ajudou a resolver o impasse. Dois outros destaques na sua família são os seus irmãos José, que se formou em regência na Itália e Manuel Maria, que, além de músico, foi pedagogo, conta Reis.</p>
<p align="justify">Muitos já tinham vindo antes dele, mas Juliano fez tudo de um modo diferente, pessoal, inovador. As suas grandes marcas eram a extrema bondade no trato com os pacientes, como atestou o escritor Lima Barreto, quando passou por uma internação, e a sua capacidade de trabalho. Juliano aliava uma inteligência incomum com uma generosidade rara. “O pai dele era um homem simples, mas gostava de ler e foi lendo os jornais que o pai comprava que Juliano começou a sua trajetória”, conta o psiquiatra e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Ronaldo Jacobina. Ele teve ainda um padrinho importante, o barão de Itapuã, que talvez fosse patrão de sua mãe. “Já no Liceu, ele revelou um talento incomum e lhe foi permitido cursar ao mesmo tempo a Faculdade de Medicina, por isso ele se formou tão cedo”, explica Jacobina.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/juliano.jpg" alt="juliano.jpg" /></div>
<p align="justify">Sendo professor da clínica psiquiátrica e depois atuando no Hospital Santa Isabel e no Asilo São João de Deus, Juliano se tornou famoso como psiquiatra, mas também colaborou em outras áreas. Fez vários trabalhos em dermatologia, inclusive sobre doenças que afetavam principalmente os escravos e foi pioneiro na implantação de exames microscópicos e na criação de laboratórios, que quase não existiam por aqui. Após uma viagem à França e Alemanha, para freqüentar cursos, “ele introduziu aqui a punção lombar como recurso diagnóstico em neurologia e psiquiatria”, cita, como exemplo, Jacobina.</p>
<p align="justify">Lendo, escrevendo e falando cinco línguas, produzindo dezenas de artigos publicados em vários países, Juliano tinha como um dos seus maiores prazeres ficar na torre do Solar Boa Vista, de onde se vê o mar e o Dique do Tororó, discutindo questões médicas com colegas e alunos. Na época funcionava lá o asilo que depois passou a se chamar Hospital Juliano Moreira. Como a sua fama corria mundo, um dia veio o convite para assumir uma responsabilidade maior: dirigir o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro. A grande dúvida para aceitar o convite foi uma razão amorosa: “Ele era apaixonado por uma professora primária de Cachoeira, Honorina, que era mulata. Fez até poemas para ela”, conta Jacobina. Honorina não quis ir para o Rio, mas Juliano foi. Do outro lado do mundo, no Egito, numa de suas viagens em busca de tratamento para a sua tuberculose, Juliano conheceu a mulher com quem se casou, uma alemã.</p>
<p align="justify">Do seu trabalho como psiquiatra, no Rio e na Bahia, Juliano deixou um saldo de valor inestimável, que influenciou várias gerações de psiquiatras. Aboliu o uso das camisas e coletes-de-força, mandou tirar grades das janelas, fundou associações médicas, conhecia Freud já no século XIX, introduziu novos tratamentos &#8211; como a hidroterapia, a laborterapia e a sonoterapia -, criou um atendimento especial para crianças com deficiência mental e uma escola para preparar enfermeiros, conduziu a elaboração de uma classificação brasileira das doenças mentais. Por tudo isso, e ainda pelos seus pronunciamentos contra todas as formas de racismo e xenofobia, foi homenageado e publicado em todo o mundo. Jacobina acrescenta ainda uma última e importante qualidade do mestre Juliano: “Ele era um incrível formador de discípulos. Todos foram pessoas importantíssimas na psiquiatria brasileira. Seus discípulos nunca romperam com ele. Juliano estimulava todos, nunca apagava o brilho de ninguém”.</p>
<p align="justify"><strong>CIENTISTAS DO MUNDO</strong><br />
Com a entrada do século XX, a modernidade invade de vez a cidade de Salvador. Certo? Muito pelo contrário, porque a Bahia tinha perdido o bonde da história. Com a proclamação da República e a política do café-com-leite, são Minas Gerais e São Paulo, estados exportadores, que assuem a liderança econômica e tornam-se a vanguarda na educação. A pedagoga Jaci Menezes exemplifica: “Em 1872, a Bahia tinha 15.540 matrículas na escola primária e São Paulo tinha 11.520. Já em 1929, a Bahia tinha 114.207 e São Paulo tinha pulado para 426.274. Sem falar na estrutura que eles construíram: algumas escolas eram palácios”.</p>
<p align="justify">Os baianos já tinham conquistado avanços, é claro, mas tudo ainda muito lento. O ensino já era seqüencial, passava-se do primário para o ensino médio e daí, quem pudesse, tentava o vestibular, com prova escrita e oral. Para fazer gratuitamente o ensino médio havia duas opções: a Escola Normal, que só formava professores e não dava acesso ao vestibular, ou o Colégio Central, antigo Liceu Provincial. Só na década de 40, Anísio Teixeira cria novas escolas, descentralizando o ensino médio, conta Jaci. As escolas particulares garantiam um controle maior da clientela, evitando “misturas” e eram a grande opção para quem vinha do interior, porque muitas eram colégios internos. Essa foi a opção, por exemplo, dos jovens Milton Santos, de Brotas de Macaúbas, e Martagão Gesteira, de Conceição do Almeida. Eles tinham se separado de suas famílias por um único motivo: estudar. Se empenharam tanto, que não pararam nunca mais.</p>
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<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/martagao.jpg" alt="martagao.jpg" /></div>
<p align="justify">Martagão era mulato, Milton era negro. Rapazes inteligentes como eram, sempre souberam que melanina não tem nada a ver com neurônio, caráter ou competência e, assim, trataram apenas de estudar, sem ligar para preconceitos ainda muito em voga naquela época. Martagão optou pela medicina e Milton pela advocacia e jornalismo. Martagão logo cedo descobriu sua vocação para a pediatria e, em 1911, quatro anos após sua formatura, já era assistente da clínica pediátrica cirúrgica e ortopédica. Milton demorou um pouco mais a decidir-se e a descobrir que sua grande paixão era a geografia. Enquanto isso, mantinha seu escritório num prédio da rua Chile e escrevia artigos para o jornal A Tarde.</p>
<p align="justify">Martagão logo se tornou professor da Faculdade de Medicina e, em 1915, foi aprovado no concurso para catedrático, defendendo a tese “O exame médico da criança”. A saúde das crianças já era sua grande cruzada, por isso, ser apenas professor não bastava. “Em torno dele foi se reunindo um grupo de profissionais que pesquisava e trabalhava na mesma área, pessoas como Álvaro da Franca Rocha, Álvaro Bahia, Durval Gama, Hélio Ribeiro, Carlos Levindo, Hosanah de Oliveira, Braúlio Xavier, José Peroba”, conta o professor e médico chefe da pediatria do Hospital São Rafael, Nelson Barros. Com esse grupo de médicos, Martagão começou a revolucionar o atendimento pediátrico na Bahia.</p>
<p align="justify">Milton também logo começou a se destacar. A essa altura os pais dele, ambos professores, já tinham vindo morar em Salvador e montado uma escola na Estrada da Rainha, conta a geógrafa e professora da Ufba Maria Auxiliadora da Silva, que trabalhou com Milton por várias décadas. Além de escrever para o jornal, ele dava aulas na Universidade Católica de Salvador, até que foi apresentado ao francês Gean Tricart, que o convidou para fazer um doutorado na Universidade de Strasbourg. A sua tese se tornou um livro clássico, “O centro da cidade do Salvador”, mesmo assim, ele teve dificuldade para dar aulas na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, quando retornou para cá. Mas, antes mesmo do impasse ser resolvido, após a morte do diretor que tentava vetá-lo, “o reitor Edgard Santos o convidou para criar um centro de pesquisa”, explica Auxiliadora. Nascia aí o Laboratório de Geomorfologia, que tornou a Bahia um referencial internacional na pesquisa em geografia por muitos anos.</p>
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<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/milton.jpg" alt="milton.jpg" /></div>
<p align="justify">Martagão e seus colegas também trabalharam a todo vapor. Criaram a Liga Baiana contra a Mortalidade Infantil, com um consultório para atendimento, e depois a Sociedade de Pediatria da Bahia. A essa altura, Martagão já tinha ingressado também na administração pública estadual, na área de saúde. O interesse central do seu trabalho, sobre a qual ele publicou livros e fez conferências dentro e fora do Brasil, era a prevenção, o atendimento integral à criança. “Ele criou os postos de puericultura, para orientar e atender também à criança sadia, vacinando, pesando, prevenindo problemas”, explica o pediatra Barros.</p>
<p align="justify">Em torno de Milton Santos, a geografia baiana crescia: trabalhos de campo, estudos, visitas de pesquisadores famosos, congressos, encaminhou vários de seus alunos para estudos no exterior. Ele foi nomeado também presidente da Comissão de Planejamento Econômico do Estado (CPE) até março de 1964, quando veio o golpe militar. “Ele foi preso. Ficou no 19º BC por três meses. Íamos lá todos os dias. Foi terrível”. Quando foi libertado, Milton deixou o Brasil, para onde só retornou em 1978.</p>
<p align="justify">Martagão também saiu da Bahia, mas por um motivo menos trágico. Getúlio Vargas o convidou para dirigir um órgão de âmbito nacional e o nosso pediatra viajou para o Rio. A acolhida não foi das melhores: “Quando ele entrou para dar a aula inaugural na universidade, foi estrepitosamente vaiado, por causa da forma autoritária como Getúlio fazia as coisas. Martagão não se abalou e deu a aula. Quando terminou, foi ovacionado”, conta Barros. Daí até o final da vida, atuou sempre num âmbito nacional, idealizando campanhas, produzindo monografias, falando em congressos e estruturando o atendimento à saúde da criança no país.  Uma marca da sua passagem pela Bahia existe até hoje: o Hospital Martagão Gesteira.</p>
<p align="justify">Quando Milton Santos saiu da Bahia, várias universidades estrangeiras o convidaram e ele trabalhou em dezenas delas. Também escreveu muitos livros e ganhou prêmios, como o Vautrin Lud, o Nobel da geografia. Na Bahia, entretanto, Auxiliadora continuava solicitando aos reitores a reintegração de Santos como professor da Ufba, mas, misteriosamente, nunca foi atendida. A Universidade de São Paulo (USP) o convidou então e, em 1984, Milton voltou para o Brasil. Somente em 1995, o reitor Felippe Serpa fez justiça e o reintegrou aos quadros da Ufba. Mas já era tarde: um ano depois ele completou 70 anos e a aposentadoria era compulsória. Em 2001, durante os festejos juninos, Milton faleceu. Como consolo por todos esses anos em que fomos privados da companhia do nosso maior geógrafo, ficou a sua obra.</p>
<p align="justify">O primeiro texto escrito por um negro no Brasil que se tem notícia foi a carta de Henrique Dias para o rei de Portugal, em 1650, conta o poeta José Carlos Limeira. Na carta, Henrique reclama do pouco respeito com que é tratado por um general, o que considera indevido, pois dedicou anos de sua vida ao país, como soldado, e até perdeu uma mão em batalha. De lá para cá, muitos outros negros e mulatos aprenderam a escrever, galgaram postos e conquistaram o respeito com o qual Henrique sonhava. Uma geração abriu as portas para a outra, mostrando os caminhos possíveis e que valia a pena tentar.</p>
<p align="justify">Essa foi a herança que nos deixaram mulheres como a oftalmologista Cleonice Alakija &#8211; talvez a primeira nessa especialidade na Bahia, que atendeu seus clientes no consultório do Relógio de São Pedro até a idade de 90 anos – e a obstetra Esmeralda Vasconcelos, dona de vastíssima clientela “num tempo em que mulher não ia em ginecologista homem de forma alguma”, conta Cid Teixeira. E que também herdamos de homens como Édison Carneiro, advogado, jornalista, escritor, professor, antropólogo, que representou o Brasil em muitos países pelo seu profundo conhecimento da cultura afro-baiana.</p>
<p align="justify">Uma herança que ainda está viva em pessoas como George Alakija, “psiquiatra, maior expert em hipnose da Bahia, uma das primeiras pessoas a se especializar no exame do líquido cefalorraquidiano. E, além disso, um verdadeiro príncipe, educadíssimo, uma pessoa culta, que sempre tem uma história para contar, fala de uma maneira meio oriental, por parábolas”, define o psiquiatra Gabriel Nery. Herança viva também em pessoas como o engenheiro, assessor técnico da Uneb e poeta José Carlos Limeira.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2008/02/limeira.jpg" alt="limeira.jpg" /></div>
<p align="justify">Traduzido em várias línguas, premiado, integrante de um movimento literário que ficou conhecido pelos “Cadernos Negros”, publicados em São Paulo, na década de 70. Antonio, Cosme, Manoel, Teodoro, André, Salustiano, Juliano, Milton, Martagão e tantos outros cidadãos baianos ilustres são nomes que a maioria de nós desconhece ou apenas ouviu falar. Mas precisam ser nossas fontes de inspiração cotidianas, pela preciosa lição que nos deixaram, sintetizada nesse pensamento de Mahatma Gandhi: para progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.<strong></strong></p>
<p align="justify"><strong>Fotos</strong>: Acervo Instituto Histórico e Geográfico da Bahia / Reprodução do livro &#8220;André Rebouças – Reforma &amp; Utopia no Contexto do Segundo Império&#8221; / Reproduções do livro &#8220;A mão afro-brasilieira&#8221; / Reprodução do livro &#8220;Cartas de Édison Carneiro a Artur Ramos&#8221; / Foto de Edmar Melo / Foto de Claudionor Junior / Foto de Marcio Costa</p>
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		<title>Encantos de Alabê</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Dec 2007 20:55:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
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		<title>Mães de santo</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Nov 2007 22:06:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
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por Agnes Mariano
Mesmo antes de chegar ao Brasil como escravas, elas já conheciam a violência da guerra entre povos africanos vizinhos, que vendiam aos traficantes portugueses os prisioneiros vencidos. Mas elas nunca conheceram o medo. Na África, as mulheres yorubás participavam do conselho dos ministros, tinham organizações próprias e chegaram a liderar um intenso comércio [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=55&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/mae-aninha2.jpg" alt="mae-aninha2.jpg" /></p>
<p>por Agnes Mariano</p>
<p>Mesmo antes de chegar ao Brasil como escravas, elas já conheciam a violência da guerra entre povos africanos vizinhos, que vendiam aos traficantes portugueses os prisioneiros vencidos. Mas elas nunca conheceram o medo. Na África, as mulheres yorubás participavam do conselho dos ministros, tinham organizações próprias e chegaram a liderar um intenso comércio que incluía rotas internacionais. Foi por isso que, na Bahia do início do século XIX, elas conseguiram o que parecia impossível: deram à luz uma organização religiosa que conciliava tradições de diferentes povos, resistindo à miséria da escravidão e à perseguição policial. No candomblé, com diplomacia, inteligência e fé, elas reuniram todos os elementos necessários para garantir ânimo e auto-estima ao seu povo. O título que receberam expressa bem o misto de liderança religiosa, chefia política e poder terapêutico que exercem: mães-de-santo.<span id="more-55"></span></p>
<p>Contam os antropólogos, como o professor e ogã suspenso do terreiro da Casa Branca Ordep Serra, que não há registros da existência efetiva do matriarcado em nenhuma sociedade. Ainda que tudo não passe de uma lenda criada por sonhadores, experiências como a do candomblé baiano deixam entrever como seria o mundo governado por mulheres. A liderança feminina nessa tradição religiosa, explica Maria Stella de Azevedo, a Mãe Stella de Oxóssi do Ilê Axé Opô Afonjá, vem de um simples fato: as pioneiras do candomblé, princesas africanas que vieram para a Bahia em fins do século XVIII, criaram o princípio de que as suas casas religiosas só poderiam ser lideradas por mulheres. Uma tradição mantida até hoje nos terreiros mais antigos, como a Casa Branca, o Alaketu, o Gantois, o Afonjá e o Cobre.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/pulcheria.jpg" alt="pulcheria.jpg" /></p>
<p>Inteligência, energia, generosidade, iniciativa, conhecimento litúrgico. Cada um dá a sua lista de qualidades indispensáveis para que uma mulher se torne uma mãe-de-santo ou yalorixá. O certo é que a tarefa é repleta de responsabilidades e sacrifícios, mas, se desempenhada com competência, traz a possibilidade de mudar a realidade das pessoas que a cercam. Não é à toa, então, que tantas mães e pais-de-santo, como Mãe Senhora, Mãe Aninha e Mãe Menininha do Gantois, gozam de grande prestígio, sendo recebidos e visitados por políticos, artistas e intelectuais de todo o mundo. A escravidão, a pobreza, a perseguição, as surras e as prisões não foram suficientes para diminuir a altivez, o espírito empreendedor e a sabedoria dessas pessoas.</p>
<p>Segundo Mãe Stella, todo terreiro é, em princípio, uma família, porque é uma família espiritual. Como elo maior que une a todos, a busca de contato com os elementos que nutrem a vida de todos os seres vivos: a força dos ventos, do fogo, das matas, da terra, das pedras, das águas. “Os orixás são simbolizados pelas forças naturais, que são coisas que não têm sexo. O vento tem sexo? Qual é o sexo do vento, apesar de simbolizar o orixá chamado Iansã? O espiritual não tem sexo, não tem raça, nada disso”, define Mãe Stella. Mas outros aspectos da vida também são contemplados na comunidade religiosa: apoio financeiro, moradia, criação de escolas, bibliotecas, museus, grupos de estudo, cursos profissionalizantes, assistência à saúde. Assim, aqueles que exercitam os seus direitos e deveres para com a comunidade podem se considerar membros de uma família e, de fato, filhos e irmãos-de-santo.</p>
<p><strong>ACORDO DIPLOMÁTICO</strong></p>
<p>Ketus, angolas, jejes, haussás, tapás, oyós, ijexás, baribas, aon efans, gruncis. Para quem chegava a Salvador no final do século XVIII e início do XIX, a impressão era uma só: uma cidade negra. Porque negros eram os homens e mulheres que se via pelas ruas, subindo e descendo as ladeiras, transportando mercadorias, vendendo alimentos, carregando água, pescando, cozinhando, erguendo paredes, fazendo a cidade funcionar. Mas faltava uma coisa essencial a essa multidão: união. Para entender a história do candomblé e dessas grandes mulheres é fundamental relembrar alguns episódios da história da África. Quem sabe contar bem o que aconteceu nessa época é o antropólogo Renato da Silveira, que estuda o tema da fundação do candomblé da Bahia há mais de 20 anos, desde quando defendeu uma tese de doutorado sobre o assunto.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/etnias2.jpg" alt="etnias2.jpg" /></p>
<p>Os primeiros povos a virem para cá em grande quantidade foram os do grupo cultural banto, principalmente os angolas, que criaram os calundus, uma espécie de candomblé simplificado com duas ou três divindades. Aconteceu aí uma mistura grande com os índios, de quem herdaram o conhecimento sobre ervas, originando os candomblés de caboclo. Também vieram muitos outros povos, sendo que os jejes &#8211; ou ewés, de língua fon, do antigo Daomé &#8211; eram maioria em Salvador em meados do século XVIII. Angolas e jejes se davam bem e criaram uma espécie de cultura de rua afro-baiana com contribuições de ambas as partes. Uma característica importante das expressões religiosas desses precursores, principalmente dos calundus, era a assistência médica que prestavam à população, acrescenta Silveira.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/mae-senhora-jovem.jpg" alt="mae-senhora-jovem.jpg" /></p>
<p>No final do século XVIII, os povos nagôs-yorubás, do grupo lingüístico sudanês, começam a chegar em massa na Bahia. O povo que iria criar aqui a religião que conhecemos hoje como candomblé, incluindo heranças jejes, angolas, mas principalmente o legado dos reinos que compunham o que se chama de Império de Oyó ou país yorubá: os ijexá, que cultuavam o rio Oxum; os ketu, terra de Oxossi; os aon efan &#8211; dos orixás do branco, como Oxalá; os oyós &#8211; de Xangô e Iansã e representantes de outros reinos. Segundo Renato da Silveira, o Império de Oyó, que começou a nascer antes do ano mil e teve como primeira cidade Ifé, deve ter chegado a ter oito milhões de habitantes. Suas maiores cidades, entre sete e dez, tinham cerca de 40 a 50 mil habitantes, &#8220;o mesmo que cidades européias desse período&#8221;, compara.</p>
<p>Mas o grande império, que tinha conquistado e subjugado vários povos, um dia começou a ruir: era a guerra civil. “Até 1820 e 1830 eram os yorubás que vendiam escravos haussás, tapás, baribas: os povos do norte. Depois, a situação se inverte e os comerciantes muçulmanos é que começam a vender os yorubás. Os senhores de Ibadan e Abeokutá, comprometidos com o tráfico, começam a atacar os vizinhos e os daomeanos também se aproveitam. Com a desagregação do Império de Oyó, criam-se bandos armados que atacam indiscriminadamente e começam a vender escravos&#8221;, conta o antropólogo. Começam a chegar à Bahia, então, cidadãos yorubás de todos os tipos, inclusive membros de famílias reais, sacerdotes e sacerdotisas. Entre 1830 e 1835 acontece a queda definitiva da capital: Oyó é invadida e saqueada pelos muçulmanos do norte. No mesmo período, na Bahia, tendo à frente uma Iyá Nassô &#8211; sacerdotisa de Xangô na corte de Oyó &#8211; funda-se o candomblé da Barroquinha. Do outro lado do Atlântico, renasce a tradição.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/barroquinha.jpg" alt="barroquinha.jpg" /></p>
<p>A pantanosa Barroquinha era um bairro de negros, onde a igreja &#8211; atualmente em ruínas &#8211; desempenhou um papel estratégico, de apoio e disfarce para a fundação do candomblé. Desde 1764, tinha se instalado lá uma associação de escravos libertos, a Irmandade de Bom Jesus dos Martírios, que anos mais tarde iria arrendar o terreno nos fundos, onde funcionou o candomblé. Os dados sobre esse período não são exatos, os pesquisadores precisam cruzar tradições orais mantidas nos terreiros com documentos de polícia e relatos da época. Como diz o professor Ordep Serra, as variações sobre a história do candomblé são normais, &#8220;como as várias versões do Evangelho&#8221;. Seguiremos aqui a proposta cronológica de Renato da Silveira, que em breve estará num livro produzido pelo Terreiro da Casa Branca.</p>
<p>Primeiro, por volta de 1790, teria sido fundado por membros da família Arô &#8211; uma das cinco famílias reais do reino de Ketu &#8211; o culto a Odé (um tipo de Oxossi). Datam dessa época os ataques a Ketu e a chegada na Bahia das princesas gêmeas da família Arô, capturadas e vendidas por daomeanos com apenas nove anos de idade. O culto funcionava numa residência na Rua da Lama, atrás da Igreja da Barroquinha, onde hoje fica a Rua Visconde de Itaparica, tendo à frente a africana Iyá Adetá. Depois dela veio a africana Iyá Akalá, introduzindo o culto a Airá &#8211; um tipo de Xangô que se veste todo de branco (alá significa pano branco, lembra Silveira). Possivelmente nessa época se deu a saída dos Arô, que foram para o Luis Anselmo e fundaram o candomblé do Alaketu, conduzido nas últimas décadas pela yalorixá Olga do Alaketu. Os resquícios desses primeiros tempos ainda estão vivos: no Terreiro da Casa Branca, a festa de Xangô é chamada pelos filhos-de-santo de “Festa de Airá” e, também nesse terreiro e herdeiros de sua tradição, a saudação a Oxóssi ainda relembra os pioneiros: &#8220;Okê Odé, okê Arô&#8221;, conta o pesquisador.</p>
<p>A terceira grande sacerdotisa do candomblé da Barroquinha foi uma Iyá Nassô que, acreditam as pessoas dos terreiros, antropólogos e historiadores, não veio para a Bahia como escrava, mas sim intencionalmente, para reestruturar o culto a Xangô e tentar reorganizar o seu povo nesse momento de desagregação total dos yorubás. Ela estava acompanhada de outras pessoas do alto escalão de Oyó, como alguns Essas &#8211; um título no conselho de ministro do reino de Ketu &#8211; Babá Axipá e Rodolpho Martins de Andrade, também conhecido como Bamboxê Obitikô, entre outros. Há quem diga que a mãe de Iyá Nassô já tinha sido escrava na Bahia, conseguiu a alforria e retornou para a África e que, como muitas outras mães-de-santo baianas, Iyá Nassô era comerciante e morava no centro histórico.</p>
<p>Em meados do século XIX, a prosperidade do candomblé e da Irmandade de Bom Jesus dos Martírios foi interrompida por mudanças externas. Quando Francisco Gonçalves Martins assume como presidente da província, “de 1848 a 1852, um governador de extrema direita, antiafricano feroz”, segundo Silveira, inicia-se a urbanização da Barroquinha e o terreiro é expulso de lá. Na época da saída da Barroquinha e da sucessão de Iyá Nassô, houve instabilidade, várias mudanças de endereço, mas o Ilê Axé Iyá Nassô Oká conseguiu encontrar o local adequado para plantar os seus axés e fundar uma nova sede. O lugar escolhido foi o antigo Caminho do Rio Vermelho de Baixo, atual Avenida Vasco da Gama, onde até hoje funciona o Terreiro da Casa Branca. Um documento que já comprova a localização neste novo endereço, infelizmente, é um registro de polícia, dando conta da prisão de várias pessoas num candomblé no Engenho Velho, em 1855. Quem sucedeu Iyá Nassô foi Marcelina Obatossi, que faleceu em 1885, sendo substituída por Maria Júlia Figueiredo. Em que período exatamente começam a ser fundadas outras casas, por dissidências da primeira, e se foi Iyá Nassô ou Obatossi quem realizou a mudança de endereço, é difícil precisar com exatidão, mas certamente foi ainda no século XIX que tudo aconteceu.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/menininha2.jpg" alt="menininha2.jpg" /></p>
<p>A essa altura, entretanto, ninguém mais podia deter essas mulheres. Elas já tinham feito o principal: criado uma religião que era um poderoso acordo diplomático entre povos distintos. No xirê &#8211; a roda dos orixás &#8211; inventado na Barroquinha, dançam juntos a Oxum e o Logunedé dos ijexá, o Xangô e a Iansã dos oyós, o Oxóssi dos ketus, o Oxalá, Oxalufã e Oxaguiã dos aon efan. Nas indumentárias e vocabulários, aparecem heranças jejes e angolas. Mas, ao contrário do que temia o Conde dos Arcos, quando os africanos esqueceram os velhos ódios étnicos que os separaram no passado, não se abateu um grande perigo sobre a Bahia. Na verdade, começou aí uma luta longa e pacífica pela tolerância religiosa, pelo convívio harmônico, que levou uma mãe-de-santo baiana a conversar com o presidente da República, pedindo respeito às crenças do seu povo. A liberdade de culto chegou definitivamente à Bahia muito tempo depois, através de um decreto governamental assinado em 17 de janeiro de 1976. Somente a partir daí, os terreiros não precisaram mais do registro, pagamento de taxa e licença da polícia para exercer suas atividades.</p>
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<p style="text-align:center;"><strong><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/casa-branca.jpg" alt="casa-branca.jpg" /></strong></p>
<p><strong> <strong>MATRIARCADO</strong></strong></p>
<p>Em todas as famílias, quando os filhos crescem e já são fortes o bastante, é natural que saiam de casa e trilhem seu próprio caminho. No candomblé não é diferente. Foi o que aconteceu com Maria Júlia da Conceição Nazaré quando ela sentiu que podia criar a sua própria casa religiosa, fundada num terreno dentro da propriedade de um francês chamado Gantois. Alguns acreditam que essa saída se deu na época da sucessão de Iyá Nassô, mas as tradições orais apontam mais para o afastamento no período da sucessão de Obatossi, quando foi escolhida Maria Júlia Figueiredo para ser a nova mãe-de-santo da Casa Branca. Começa aí a frutífera e numerosa descendência desse terreiro.</p>
<p>“De um modo ou de outro todos os candomblés saíram da Casa Branca”, afirma o antropólogo Ordep Serra. Como “grande mãe” dos candomblés baianos, essa casa religiosa cultiva com muito rigor suas tradições, mantendo, por exemplo, o princípio de não iniciar filhos-de-santo do sexo masculino até hoje. Depois de Marcelina Obatossi e Maria Júlia Figueiredo, estiveram à frente da casa Ursulina Maria de Figueiredo (Mãe Sussu), Maximiana Maria da Conceição (Tia Massi), Deolinda dos Santos (Oké), Marieta e agora a sua filha, Altamira Cecília dos Santos (Mãe Tatá).</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/tia-massi.jpg" alt="tia-massi.jpg" /></p>
<p>Na sua época, Maria Júlia Figueiredo chegou a ser uma mulher de grande influência, principalmente entre a população negra da cidade. Esse poder fica nítido pelos títulos que ela possuía, resgatando organizações africanas onde as mulheres exerciam papéis importantes. Maria Júlia era uma Erulu, cargo máximo das mulheres na Sociedade Ogboni, que segundo Renato da Silveira funcionava como um poder moderador da sociedade civil yorubá. Maria Júlia era também uma iyalodé, o cargo máximo de uma mulher numa importante associação feminina que existiu nos reinos de Ibadan e Abeokutá. Mas isso não é tudo, ela também era a provedora-mor da Devoção da Nossa Senhora da Boa Morte, fundada na Irmandade dos Martírios, e a yalaxé da Gueledé, um culto feminino às grandes mães do qual ainda se encontram resquícios nos terreiros mais antigos.</p>
<p>Conseguir falar com uma yalorixá da Casa Branca é uma tarefa árdua. Discretas ou desconfiadas? Não é possível saber, mas, certamente, como pioneiros que foram, os membros dessa casa conheceram muitos períodos difíceis e enfrentaram perseguições, o que pode explicar a opção pelo silêncio. Quem olha para o terreiro hoje em dia, num lugar acessível, terá dificuldades para entender o que essas mulheres enfrentaram para manter a sua roça. Por volta de 1938, quando esteve no Brasil, a antropóloga Ruth Landes foi levada até lá pelo etnógrafo Edison Carneiro, para uma festa de Oxalá. Em seu livro “A Cidade das Mulheres” ela narra o que viu: “O lugar ainda parecia uma mata e, quando o bonde parou ao pé do alto morro onde ficava o templo, pude apenas ver árvores imensas que se elevavam contra o céu claro”. Uma das histórias mais impressionantes sobre a violência contra os candomblés baianos é a da mãe-de-santo Nicácia, presa pelo Conde da Ponte, apesar de prestígio que possuía, de já ser uma senhora e do defeito físico na perna. No trajeto do Cabula até a prisão, onde hoje é a Câmara Municipal, ela foi acompanhada por uma multidão. Nessa época, ter prestígio entre alguns brancos podia ser motivo suficiente para a perseguição.</p>
<p>“Ela é muito discreta, fala pouquíssimo e é de uma sutileza e inteligência incomuns”, conta Ordep Serra, sobre a atual yalorixá da Casa Branca &#8211; Mãe Tatá &#8211; e exemplifica: “Você pode entrar e sair de uma festa sem perceber que ela é a mãe-de-santo. Ela é simples e tranqüila”. A segunda mulher mais importante num terreiro é a mãe pequena e muitas delas tornaram-se depois mães-de-santo. Em seu livro, Ruth Landes deixou um retrato vívido de uma das mães pequenas da Casa Branca, Mãe Luzia: uma mulher enorme, vigorosa e confiante, que conseguiu estabilidade financeira vendendo carnes no mercado, além de adornos e objetos do culto. Quando Landes a conheceu, Luzia tinha recentemente se tornado viúva, depois de um período longo de vida a dois. Filhos, ela só teve os de santo, o que já significava muito trabalho, como lhe contou Edison Carneiro: “Juntamente com a mãe, ela toma todas as decisões de importância para o templo. Além disso, ouve as lamúrias de inúmeros clientes e resolve os seus casos. Eles lhe pagam pelo serviço, mas ela destina boa parte do dinheiro para a manutenção do templo”, registrou Landes.</p>
<p>Pessoas de todas as casas sempre se referem com muito respeito à Casa Branca, inclusive porque foi ali que muitos se iniciaram. Em 1982, veio o reconhecimento &#8211; tardio, mas importante &#8211; com o tombamento da Casa Branca como patrimônio da humanidade. No dia da inauguração da Praça de Oxum, representantes de outros terreiros fizeram questão de comparecer e prestar as suas homenagens ao Ilê Axé Iyá Nassô Oká, também conhecido como Sociedade Beneficente e Recreativa São Jorge.</p>
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<p><strong>Mãe Menininha<br />
</strong>O terreiro do Gantois dispensa apresentações. Ele está entre as &#8220;grandes casas, as casas importantíssimas&#8221;, como diz o ensaísta Waldeloir Rego, que se define como um estudioso de assuntos antropológicos. Ele acrescenta ainda: &#8220;Essas casas não são grandes e importantes porque são do tamanho de um supermercado, mas porque tiveram uma linhagem importante de descendentes&#8221;. Desde as pioneiras, Maria Júlia da Conceição Nazaré e depois sua filha, Pulchéria da Conceição Nazaré, o Gantois sempre desfrutou de muito prestígio. Duas marcas dessa casa, especialmente desenvolvidas por Maria Escolástica da Conceição Nazaré ou Mãe Menininha &#8211; sobrinha e substituta de Pulchéria &#8211; são a diplomacia e beleza dos seus rituais, além da seriedade e conhecimento litúrgico, o que sempre lhe garantiu uma multidão de filhos-de-santo, parceiros e admiradores.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/maria-julia.jpg" alt="maria-julia.jpg" /></p>
<p>A família de Maria Júlia da Conceição Nazaré, ou Omoniquê, veio de Abeokutá. Seu pai, Okarindé, era uma espécie de secretário do rei. Quando Conceição decidiu fundar a sua própria casa, saindo do Ilê Iyá Nassô Oká, manteve a restrição a que os homens ocupassem cargo de chefia e acrescentou o critério do parentesco na sucessão. Sobre Pulchéria, filha de Oxóssi, conta-se que teve um desempenho tão marcante, que corruptelas de Gantois &#8211; canzuá e ganzuá &#8211; se tornaram sinônimo de candomblé. No tempo de Pulchéria, um dos freqüentadores da casa era o médico Nina Rodrigues, pioneiro nos estudos sobre a cultura negra no Brasil. Mãe Menininha também conquistou muito respeito, tanto entre o povo, quanto entre figuras ilustres. Era procurada e admirada por pessoas como os médicos João Mendonça e Hosannah de Oliveira, artistas famosos, como Caetano Veloso e Maria Bethania, além de políticos e intelectuais.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/menininha.jpg" alt="menininha.jpg" /></p>
<p>Mãe Menininha ainda não tinha um ano de idade quando foi iniciada e também assumiu cedo a chefia da casa, com apenas 28 anos. Quem a conheceu, garante que conhecimento, bondade, feminilidade e rigor reuniam-se nessa mulher com o mesmo equilíbrio. Ela gostava de definir o Gantois como uma casa de caridade e, de fato, a busca de auxílio e orientação sempre foram motivos que levaram muitas pessoas até lá. Mas outros atributos também contribuíram para a fama do Gantois e de Mãe Menininha. “Ela sempre foi amiga de todo mundo. Educadíssima, tratava todo mundo bem. Parecia até que tinha passado por uma escola pra aprender isso, mas ela nasceu assim. Era uma pessoa diplomática. Por exemplo, se ela estava fazendo o jogo pra você e saía alguma coisa que você não ia gostar de ouvir, ela se via doida. Fazia uma volta danada, pra dizer só mais ou menos, só sugerir a coisa que você não ia gostar”, conta Waldeloir Rego, também conhecido como &#8220;pai dos colares&#8221;, pelas jóias e colares de iniciação que já fez.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/gantois.jpg" alt="gantois.jpg" /></p>
<p>Ruth Landes também teve a oportunidade de conviver com Menininha e deixou registrado uma outra nuance da sua personalidade: seu talento artístico. Num trecho do seu livro, registrou o comportamento da famosa mãe-de-santo durante um ritual: “Apesar da sua dor de cabeça, Menininha cantava e dançava sem parar, mexendo no xale que devia esconder-lhe os seios. Movia-se com leveza e rapidez, e por vezes era graciosa e dramática. E cantava encantadoramente, sem embustes e sem ‘espalhar brasas’, como se diz. Sentia-se que adorava cantar e dançar”. Com o esposo advogado, Mãe Menininha teve duas filhas &#8211; Cleusa e Carmem &#8211; que lhe sucederam à frente do Gantois.<strong> </strong><strong> </strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong></p>
<p><strong>SUPERANDO A SI MESMO<br />
</strong>Ninguém entra para a religião dos orixás pensando em ser mãe-de-santo, pelo menos as <img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/mae-aninha.jpg" alt="mae-aninha.jpg" align="left" />pessoas sensatas, explica Mãe Stella. “Porque aí não é algo espiritual, passa a ser uma coisa de superação. No candomblé, a gente não tem que superar o outro, tem que superar a si próprio”, defende ela. E foi o que aconteceu com as líderes de duas das mais importantes e antigas casas da Bahia &#8211; o Afonjá e o Cobre &#8211; num cotidiano de trabalho, esforço e dedicação contínua ao sacerdócio, porque os ritos tradicionais que se praticam nessas casas são exigentes e, por isso mesmo, fortalecem e educam aqueles que os praticam. No caso do Cobre, que chegou a permanecer fechado por alguns anos, a retomada do funcionamento da casa foi uma convocação espiritual. Quem mais lucra com o trabalho do Afonjá e do Cobre é a própria cidade, que encontra nesses lugares fontes de conhecimento e proteção.</p>
<p>Eugênia Anna dos Santos fez uma opção ousada: comprou um terreno para a sua roça num lugar distante e ermo, o Alto do São Gonçalo do Retiro. Para chegar lá, era preciso subir uma ladeira íngreme que o mato praticamente dominava. Mas, em 1910, todos estavam contentes. Depois de passar por vários endereços, o grupo estava finalmente na sua casa definitiva: o Ilê Axé Opô Afonjá. A fundadora do Afonjá, mais conhecida como Mãe Aninha ou Obá Biyi, sabia o que estava fazendo. Filha de um casal de africanos grunci ela foi iniciada pelos nagôs da Casa Branca. Desde quando deixou o antigo terreiro, Aninha sempre buscou congregar boas colaborações e estabelecer parcerias, inclusive, com muitos homens, como o lendário Miguel Sant&#8217;Anna, Martiniano Eliseu do Bonfim &#8211; que morou muitos anos na Nigéria e a auxiliou a resgatar aqui os 12 Obás de Xangô, os ministros do rei -, ou os intelectuais Donald Pierson, Jorge Amado e Edison Carneiro &#8211; que ela escondeu da ditadura de Vargas. O mesmo Getúlio Vargas com quem Aninha conversou quando esteve na antiga capital federal, Rio de Janeiro, em busca de apoio para a sua religião. Como deputado, o seu amigo Jorge Amado conseguiu aprovar uma lei que estabelecia a liberdade de culto no país, que só foi se tornar efetiva na Bahia somente muitos anos depois. No governo de Roberto Santos, em 17 de janeiro de 1976, foi assinado um novo decreto eliminando a necessidade de registro, pagamento de taxa e licença da polícia para o funcionamento dos terreiros.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/martininao.jpg" alt="martininao.jpg" /></p>
<p>Nessa época, em que o risco de ter a sua casa religiosa invadida pela polícia estava sempre presente, conseguir simpatizantes e boas amizades era uma necessidade. Os contatos com a Igreja Católica também eram freqüentes, como explica Mãe Stella: “Mãe Aninha se integrou na Igreja Católica para ter status, porque quem mandava era o branco e essa era a religião do branco”. Foi na sua época também que se criou a Sociedade Civil Cruz Santa Opô Afonjá. Até os meios acadêmicos se curvaram à sabedoria e força dessa mulher, dona de uma quitanda. Em 1936, ela participou do II Congresso Afro-Brasileiro com uma comunicação sobre alimentação litúrgica. Com a morte de Mãe Aninha, assumiu Mãe Bada, de 1939 a 1941 e, então, chegou a vez de Mãe Senhora, a poderosa filha de Oxum e bisneta de Marcelina Obatossi, que seguiu à frente do Afonjá de 1942 a 1967.</p>
<p>Vigorosa e de personalidade forte, ao lado de Menininha do Gantois, Senhora foi uma das mães-de-santo baianas que mais homenagens recebeu em vida e que mais longe levou a sua tradição religiosa. Em 1965, ela foi ao Rio de Janeiro receber o título de Mãe Preta do Ano, no Maracanã. Em Madureira, existe um busto em sua homenagem. Com a ajuda do fotógrafo e antropólogo Pierre Verger, ela restabeleceu importantes contatos com a África, mantidos por seu filho, Mestre Didi. De lá, recebeu o título de Iya Nassô.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/mae-senhora.jpg" alt="mae-senhora.jpg" /></p>
<p>Como todos os antigos, Mãe Senhora brigava feio quando as regras litúrgicas não eram respeitadas, mas logo fazia um carinho no faltoso assustado, como conta Waldeloir Rego, iniciado por ela em 1964. Waldeloir lembra de um episódio com Mãe Senhora que define bem o poder que lhe era atribuído e a seriedade com que ela o exercia: &#8220;Quando ela estava no Rio, chegou uma senhora de família tradicional para vê-la, dizendo: ‘&#8217;Oh, minha mãe, eu quero me ver livre do meu marido, mate ele’. Aí, ela disse pra moça: ‘Minha filha, eu não posso fazer isso, porque eu só vim ao mundo pra aconselhar e pra botar a mão’, que é iniciar os filhos de santo&#8221;.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/ondina.jpg" alt="ondina.jpg" /></p>
<p>Poucos dias antes de morrer, em janeiro de 1938, Mãe Aninha conheceu uma garotinha desconfiada que, nenhuma das duas podia imaginar, se tornaria anos mais tarde yalorixá do Afonjá: Stella Azevedo. Depois de Mãe Senhora, veio Mãe Ondina, que cuidou do axé do São Gonçalo até 1975, quando então assumiu Stella de Oxossi. Se nesses anos todos a roça de Obá Biyi sempre prosperou, sob o comando de Mãe Stella as coisas seguiram com uma rapidez ainda maior. A enfermeira que estudou em boas escolas, aprendeu francês e piano, foi funcionária pública e dona de uma loja de artesanato, transformou o Afonjá, definitivamente, numa universidade da cultura afro-baiana. Os filhos-de-santo e amigos da casa criaram o Museu Ilé Olun Lailai, uma biblioteca, oficinas, grupos de estudo, eventos culturais e a menina dos olhos de Mãe Stella: a escolinha que atende a cerca de 300 crianças. Novas casas para os orixás foram construídas, as antigas foram reformadas e os contatos com o mundo acadêmico se intensificaram: Mãe Stella é convidada para fazer conferências em universidades inglesas e americanas, representou o candomblé no ECO-92, promovido pela ONU e escreveu livros.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/mae-stellajovem2.jpg" alt="mae-stellajovem2.jpg" /></p>
<p>Valnísia de Airá nunca tinha imaginado assumir um cargo como o de mãe-de-santo: &#8220;Eu nem imaginava, não sabia, nunca ninguém tinha me dito nada que me deixasse perceber&#8221;. Na verdade, o Ilê Obá do Cobre, terreiro fundado no Engenho Velho da Federação por sua bisavó, Sinha Flaviana, já nem funcionava plenamente e Mãe Val tinha sido iniciada na Casa Branca, aos 16 anos: &#8220;Esse terreiro veio da Barroquinha há mais de um século, aqui pro Engenho Velho, segundo minha tia Edite, neta de Sinha Flaviana&#8221;, conta ela, revelando que o Cobre, assim como o Afonjá e o Gantois, é também descendente direto do primeiro terreiro baiano. Depois de Sinha Flaviana, quem ficou à frente do Cobre foi Maria Eugênia, avó de Mãe Val, que era iniciada, mas não &#8220;feita de santo&#8221;: &#8220;Ela continuou tomando conta dos orixás e preservou a casa&#8221;, explica ela.</p>
<p>Com a morte de Maria Eugênia, o terreiro ficou cada vez mais abandonado. &#8220;Quando cheguei aqui, encontrei a casa no chão&#8221;, relembra Mãe Val. Ela explica que não se arrepende de ter seguido este caminho, apesar de não ter sido uma escolha, “mas existia uma força maior, a do orixá abandonado, esperando alguém da família pra levantar o axé”. Esta cobrança, Valnísia e sua família estavam sentindo na pele: “Minha mãe foi desenganada pelo médicos, a família toda estava com problemas, muito desemprego. Cada dia que passava, as coisas piorando. Aí eu vinha aqui, sozinha, afastava as teias de aranha, acendia uma vela e pedia a Xangô pra ter paciência. Eu só tinha vinte e poucos anos, não podia assumir. Mas um dia eu fiz uma promessa, que se minha mãe ficasse boa, eu vinha tomar conta dele. Não disse que ia ser mãe-de-santo, disse que ia zelar por ele. Só que em uma semana minha mãe ficou boa e está aí até hoje. Então reunimos a família toda pra dar comida a Xangô. Foi muito difícil, mas todos ajudaram, muitas pessoas da Casa Branca, Dona Tatá. Depois desse amalá, tudo melhorou, as coisas começaram a caminhar. Isso há uns 15 anos atrás”. A necessidade de cercar o local, que estava servindo como passagem para marginais e a necessidade de ocupá-lo, fizeram o resto e o Ilê Obá do Cobre cresce a cada dia.</p>
<p>Além do trabalho religioso, que tem tornado Mãe Val cada vez mais conhecida, outra marca do seu trabalho é a atuação social. No começo, eram sessões educativas, apresentações de filmes, discussões sobre AIDS. De quatro anos para cá, com as parcerias com a Fundação Palmares e a Capacitação Solidária, o trabalho se intensificou. Como o espaço é pequeno, qualquer lugar serve para as aulas dos cursos profissionalizantes para adolescentes, informática, telessala, alfabetização de crianças e de adultos, percussão, teatro: na sala, no barracão, ao ar livre, em frente à casa dos orixás.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/afonja.jpg" alt="afonja.jpg" /></p>
<p>Assim como a Casa Branca, o Gantois, o Afonjá e o Cobre, existem centenas de outras grandes e pequenas casas religiosas em todo o Brasil que mantém a tradição religiosa africana e, ao mesmo tempo, garantem amparo para um enorme contingente de pessoas de todas as classes e raças. Terreiros como o Alaketu, o Bogum, de tradição jeje, no Engenho Velho da Federação, por onde passaram grandes yalorixás como Emiliana e Valentina Maria dos Anjos, a Mãe Ruinhó. A praça no fim de linha do bairro tem hoje o seu nome e um busto em sua homenagem. Mulheres como Mirinha do Portão, Mãe Elza de Oxum e tantas outras. Há também os terreiros criados por homens, mas que em alguns períodos foram liderados por mulheres, como Simpliciana de Ogum, no Ilê Axé Oxumarê, que se recusou a receber dinheiro para preparar um banquete especialmente para o presidente Getúlio Vargas, curioso sobre a comida baiana. Homens e mulheres que, como dizia Edison Carneiro, governam pela influência de sua força moral. Se, infelizmente, não é possível contar a história de todos eles, que pelo menos fique registrado que cada uma dessas casas participa, ao seu modo, de uma das mais significativas e inspiradoras organizações que os negros e mestiços já conseguiram criar no Brasil: o candomblé.</p>
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		<title>Acará</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Oct 2007 19:26:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[acaraje]]></category>
		<category><![CDATA[baiana do acaraje]]></category>

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		<description><![CDATA[
por Agnes Mariano
A cena se repete há décadas, sempre no mesmo lugar. No pequeno largo que dá acesso à lagoa do Abaeté, ela surge sem avisar. Toda de branco, veste-se majestosamente, com uma longa saia engomada, linda bata feita de rendas e torço delicado sobre os cabelos. Maquiagem, um discreto esmalte cor-de-rosa, colar, brincos, pulseiras [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=35&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a title="dende.jpg" href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/dende.jpg"></a><img style="width:506px;height:349px;" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/baianaluz.jpg?w=545&#038;h=399" alt="baianaluz.jpg" width="545" height="399" /></p>
<p>por Agnes Mariano</p>
<p>A cena se repete há décadas, sempre no mesmo lugar. No pequeno largo que dá acesso à lagoa do Abaeté, ela surge sem avisar. Toda de branco, veste-se majestosamente, com uma longa saia engomada, linda bata feita de rendas e torço delicado sobre os cabelos. Maquiagem, um discreto esmalte cor-de-rosa, colar, brincos, pulseiras e anéis dourados completam a indumentária dessa filha de Oxum e Iansã, que combina fala mansa e temperamento obstinado. Com andar firme, mas sem pressa, mal olha para os lados ao atravessar a rua, enquanto os carros param para vê-la passar. Quem a vê assim, como uma rainha, nem imagina que a vida de Cira é feita de muito suor e esforço. Ela acorda cedo, compra pessoalmente os ingredientes, participa do preparo da massa e acompanhamentos, orienta suas funcionárias sobre cada detalhe. Depois vem a hora da venda na rua, fritando os bolinhos e atendendo os fregueses até altas horas, todos os dias. Quem começou tudo foi sua mãe, que já ocupava esse lugar antes dela nascer. Naquele tempo, Itapuã era pouco habitada, a clientela era pequena e mesmo no resto da cidade não havia muitas baianas. Hoje, as coisas mudaram. Aonde quer que elas estejam – Cira, Dinha, Loura, Chica, Ivone, Neinha e tantas outras &#8211; uma multidão se desloca diariamente para reverenciá-las e deliciar-se com o quitute incandescente que somente elas sabem fazer: o acarajé.<span id="more-35"></span></p>
<p>Feito apenas com feijão fradinho, cebola, sal e frito no azeite de dendê fervente, não é à toa que esse misterioso bolinho tem a cor e a temperatura do fogo. O acarajé é um alimento sagrado, oferecido a Oyá, também conhecida como Iansã, a deusa africana que controla os ventos, as tempestades, os relâmpagos e tem poder sobre o fogo. Na religião dos orixás, os homens dialogam com seus deuses através dos sacrifícios e oferendas de alimentos. O akará é um deles e veio parar no Brasil através dos escravos africanos iorubás. Como eram as mulheres negras que dominavam as cozinhas, não demorou para que essa e outras receitas africanas começassem a ser conhecidas e admiradas nas mesas brasileiras, conta Luis da Câmara Cascudo. No Brasil colonial, acarajés, abarás e carurus, entre outros pratos, eram vendidos nas ruas em tabuleiros que as escravas de ganho equilibravam sobre suas cabeças, enquanto iam cantando pregões para atrair a freguesia.</p>
<p>Com o que conseguiam juntar, muitas até conseguiram comprar a própria liberdade. Corajosas, independentes e empreendedoras, as baianas foram aos poucos arriando seus tabuleiros e se fixando em pontos estratégicos da cidade. Montar um tabuleiro para vender quitutes na rua, típico hábito africano, passou a significar, cada vez mais, a garantia do sustento da família. Além do preço acessível, do sabor delicioso e das qualidades nutricionais do bolinho de feijão, a simpatia das baianas sempre foi um tempero a mais, ajudando a conquistar uma freguesia cativa. A partir da segunda metade do século XX, muitas delas foram ficando famosas, como Romélia, Vitorina, Damásia e Quitéria, espalhadas principalmente pelo centro e Comércio de Salvador. Nas últimas décadas, a cidade cresceu na direção norte, levando prosperidade às baianas que trabalhavam perto do mar: Dinha, no Rio Vermelho; dona Chica; na Pituba; Cira em Itapuã. Mas há muitas outras rainhas do dendê, como Regina, na Graça e Rio Vermelho; a Loura; no Horto Florestal; dona Ivone, no Bonfim, ou Neinha, nas Mercês. Apareceram também alguns rapazes que nada deixam a dever a nenhuma baiana, como os irmãos Gregório e Zé Antonio.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/luciana-freire5b.jpg" alt="luciana-freire5b.jpg" /></p>
<p>Algumas delas chegaram a pegar o tempo do feijão ralado na pedra, ao modo africano, e do acarajé servido só com pimenta. A trabalheira era enorme, pois além de triturar o grão, é preciso tirar toda a casca e bater bem a massa. Com o passar do tempo surgiram os moinhos elétricos, para diminuir o trabalho, mas os clientes exigiam novidades, obrigando as baianas a acrescentarem novos recheios no acarajé, como salada, vatapá, camarões e caruru. O antigo tabuleiro de madeira sobre um cavalete em X, hoje visto raramente, foi cedendo lugar aos tabuleiros de alumínio e vidros, maiores e mais confortáveis. O que não mudou foram as figas, folhas de arruda, fitas e contas que todas usam sobre o corpo ou dispõem sobre o tabuleiro para garantir proteção, tão necessária a quem trabalha na rua. No inverno, elas lutam contra o vento e chuva, que afasta os fregueses e respinga sobre o azeite, provocando queimaduras. No verão, se desdobram para atender à clientela exigente que não gosta de esperar e só aceita acarajé bem quentinho.</p>
<p>Micro-empresárias intuitivas, a maioria das baianas trabalha todos os dias da semana, empregando filhos, amigos, vizinhos e sustentando toda a família.  No começo, a atividade estava restrita às filhas de Iansã e Xangô, mas o acarajé se popularizou tanto, que começaram a surgir baianas de todas as religiões e passou a ser vendido também em lojas, bares, delicatessens, restaurantes caros e supermercados. Com o crescimento enorme do número de tabuleiros, surgiram também baianas de primeira viagem, que, despreparadas, oferecem produtos de má qualidade. A atividade foi regulamentada por decreto municipal em 1998, definindo normas para a indumentária, tabuleiro e localização. Em 2002, a divulgação de uma pesquisa comprovando a falta de higiene no preparo de alguns acarajés deflagrou uma nova onda de iniciativas que buscam melhorar a qualidade do produto. A implementação de cursos de capacitação, fiscalização e a concessão de empréstimos para que as baianas possam modernização suas cozinhas passaram a ser assuntos prioritários para prefeituras e associações. Reconhecido como patrimônio cultural de Salvador, pelos vereadores, o ofício das baianas de acarajé foi reconhecido, em 2005, como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/bolinho.jpg" alt="bolinho.jpg" /></p>
<p>Mas, na verdade, o akará de Iansã está acima de todas as polêmicas e interesses mundanos. Ele é um alimento místico, artesanal, que só é saboroso se for feito com rigor. Um prato cheio de segredos que só podem ser desvendados após anos de observação paciente, cheia de riscos, porque envolve o fogo, o azeite fervente, o sucesso e o fracasso. Ser baiana é uma escolha difícil. Significa assumir o compromisso de ser incansável e ter coragem o tempo todo, assim como Iansã, a dona dos acarajés.  É também tornar-se capaz de dar colorido e perfume às nossas comidas, tornando o nosso cotidiano bem mais saboroso.</p>
<p><strong>ALIMENTO DO POVO</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Sobre os balcões, caixotes e carrinhos de mão, que percorrem a feira sem parar, se misturam o vermelho intenso das pimentas, o dourado do dendê viscoso e o verde escuro dos quiabos, pimentões e folhas. Por toda parte se vê também feijões e camarões. Muitos outros ingredientes das comidas dos homens e dos deuses podem ser encontrados nas barracas da feira de São Joaquim, por isso, é lá que quase todas baianas de acarajé de Salvador se abastecem. As pequenas e as grandes, as famosas e as anônimas. Mas saber chegar até esses temperos e frutos do mar e da terra é uma arte para poucos, pois não basta ter dinheiro: é preciso saber onde comprar, como escolher e negociar. Se não aprender esses segredos, o comprador não levará o melhor produto e ainda pode se perder numa das intermináveis vielas da feira misteriosa, sob o olhar divertido dos feirantes que, como bruxos, sabem de tudo que se passa nesse labirinto de cores, sons, sujeira, cheiros e sabores.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/dende.jpg" alt="dende.jpg" /></p>
<p>No preparo da massa do acarajé e acompanhamentos, a busca pelo melhor começa na feira, mas vai muito além dela. Cada detalhe deve ser respeitado e é necessário vigilância constante para perceber os imprevistos – massa que azedou, dendê que não serve para a fritura &#8211; suspender as vendas e substituir o produto. “Ter qualidade é difícil, mas o prejuízo compensa. Se não ganhar hoje, ganha amanhã”, ensina Maria Francisca dos Santos, a dona Chica, que vendeu acarajés por 30 anos na Pituba.</p>
<p><strong>Rei dos camarões</strong><br />
Para quem não conhece a feira, pode dar trabalho chegar até Jailton de Jesus da Pureza, 40 anos. Mas o esforço vale a pena, pois é lá, na “Casa Pureza”, rua cinco, quadra sete ou “rua do Camarão”, que se encontra alguns dos melhores litros de dendê, feijões e camarões da cidade. Jailton começou em Jaguaripe, onde nasceu e aprendeu a pescar o camarão e defumá-lo. Quando veio para Salvador, há mais de 20 anos, começou as vendas no balaio, “depois aluguei um box, empacotava o camarão, botava no ônibus e ia vender de porta em porta, no Bonfim. No sábado vendia no balaio, até que vi que dava pra me manter na feira”, relembra. Hoje, em sua barraca espaçosa, ele vende produtos selecionados que vêm de longe: “Os camarões são do Maranhão, Rio de Janeiro, Alagoas, Maragogipe, Nagé, Acupe, Valença. O dendê vem de Valença e Nazaré”.</p>
<p>Comprar bons produtos envolve dois quesitos: um bom fornecedor e um comprador que saiba escolher. O dendê, explica Jailton, tem os seus mistérios: “O povo pensa que é só ver bonito e comprar, mas não é. Tem dendê que presta pra moqueca, mas pode não servir pro acarajé. Se espumar quando esquentar, não serve”. No caso do camarão, a alma da comida baiana, o assunto é ainda mais delicado: “O produto tem que ser do dia, depois que chega aqui, só dura oito dias. Hoje não estão mais defumando o camarão devidamente, porque quanto menos defuma, mais ele pesa”. Com a sua experiência, Jailton se tornou o queridinho das baianas, por isso, para conseguir produtos da Casa Pureza é preciso ir cedo. No começo da tarde, muitas vezes, já não se encontra muita coisa à venda. Os grandes sacos abarrotados com camarões “filé” empilhados no fundo da barraca, certamente, já estarão reservados para alguma das suas clientes famosas: Cira, Dinha, Regina ou Neinha.</p>
<p><strong>Padrão de qualidade<br />
</strong>Saber comprar é importante, mas é só o início de um longo processo. Antigamente, se começava catando o feijão e quebrando os grãos, para depois colocar de molho, explica dona Chica. Hoje, o feijão fradinho do acarajé já é vendido partidinho, só que antes da trituração é preciso retirar toda a casca, num trabalho meticuloso que envolve deixar o feijão de molho na água e depois lavá-lo várias vezes, passando pela peneira, explica José Antonio Vieira, filho de dona Chica e um dos mais famosos baianos da cidade, ao lado de seu irmão Gregório Bastos, primeiro homem da família a assumir o tabuleiro. “Lavar o feijão é a parte mais pesada”, explica Zé, que começou pequeno, junto com os irmãos, a ajudar a mãe no preparo do bolinho. Gregório também lembra que só saía pra jogar bola se antes fizesse o amigo prometer que, na volta, ajudaria a lavar o feijão.</p>
<p>Lavado e sem casca, chega a hora de triturar os grãos, em moinhos elétricos que se compra na feira ou lojas populares. Então é hora de bater bastante a massa com colher de madeira e depois acrescentar sal e cebola ralada. Aí, é fritar pequenas porções no dendê bem quente. Como a massa está crua, é preciso ter cuidado para que não azede com o calor, recomenda Zé. Exigentes, Dona Chica, Cira e Dinha contam que, para garantir a qualidade, acompanham todas as etapas de perto. “Nunca confiei em ninguém, sempre fiz tudo”, diz Dona Chica, que hoje só faz acarajés em casa, por distração. Cira vai com freqüência na feira escolher os ingredientes, “senão vem mercadoria ruim”, enquanto Dinha até desistiu de manter suas franquias em Brasília e Rio de Janeiro: “Acarajé é comida caseira, não dá pra industrializar, tem que ser feita todo dia”. Com a experiência, cada uma desenvolveu suas técnicas para zelar pela reputação: “Cansei de parar de assar e voltar pra casa, porque o azeite não estava bom. Também joguei panelas inteiras de massa no lixo, porque tinha algum problema”, conta dona Chica, cujo exemplo é seguido pelos filhos. Cira, não satisfeita em usar o mais caro camarão da cidade, também os lava, cozinha e tempera. Já Dinha, no restaurante que construiu no coração do Rio Vermelho, usa fogareiros e panelas de aço para manter tudo aquecido.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/feijao.jpg" alt="feijao.jpg" /></p>
<p><strong><br />
Alimento sagrado</strong><br />
Tanto rigor não é à toa, pois o acarajé é um alimento sagrado, para o corpo e o espírito. No passado, para montar um tabuleiro e ir vender na rua era preciso ser filha de Iansã ou Xangô e ser designada pelos orixás para cumprir essa missão. Na África, explica Pierre Verger em seu livro Orixás, Oiá, também chamada de Iansã, é a divindade dos ventos, tempestades e do rio Níger, que se chama Odò Oya, em iorubá. Conta a lenda que, após se separar de Ogum e se unir a Xangô, Iansã foi enviada pelo segundo marido à terra dos baribas em busca de um preparado que, ingerido, lhe daria o poder de lançar fogo e chamas pela boca. Ousada, Iansã provou do líquido, tornando-se também capaz de cuspir fogo, conta Verger. É por isso que, para homenagear esses deuses, os africanos fazem cerimônias com o fogo, como o ajere, onde um iniciado carrega na cabeça uma jarra cheia de furos com fogo dentro ou o àkàrà, onde os iniciados engolem mechas de algodão embebidas em azeite-de-dendê em combustão, narra Verger.</p>
<p>Filhas de Oxum vendem cocadas; filhas de Nanã, mingaus, filhas de Oxossi vendem frutas e filhas de Iansã e Xangô, acarajés, explica a cachoeirana Ivone do Carmo, que vende acarajés ao lado da igreja do Bonfim há 44 anos.</p>
<p>- Quando tinha 12 anos, fui num terreiro perto da minha casa, no Pau Miúdo, procurar emprego. Tomei a benção, peguei a conversar e perguntei se precisavam de empregada. Veio a mãe de santo, Maria do Socorro, e disse que eu não ia ser empregada não, que ia ser do terreiro, porque ela tinha sonhado com uma senhora dando uma menina a ela. Ela terminou de me criar e me iniciou. Eu tomava conta de tudo. Foi lá que eu aprendi a fazer os acarás dele, compridinhos, e os dela, bem redondinhos. Fazia pra comida, pra vender do lado do barracão e repartir no candomblé. Ainda mocinha vim morar no Bonfim e aqui eu tive um sonho com Iansã me dizendo: ‘Ivone, você vai ser baiana, a baiana mais famosa da Bahia’.</p>
<p>Obediente, essa filha de Xangô não pestanejou e, até hoje, mantém no alto da colina sagrada o seu tabuleiro, que é também o local de encontro com uma legião de amigos e filhos de consideração que ela arranjou em todos esses anos em que enfrentou os perigos da rua, o vento, o sol e a chuva, para alimentar o povo baiano com o acará africano.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/11/voltaire-bonfim.jpg" alt="voltaire-bonfim.jpg" /></p>
<p><strong>RECEITA AFRICANA</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>São apenas 9h de uma manhã de quarta-feira e o largo do Pelourinho já está tomado pela multidão que transborda do templo azul e dourado erguido pelos escravos, a Igreja do Rosário dos Pretos. Nas saias, blusas, calças e adereços, todos os tons de vermelho e branco, para homenagear Santa Bárbara e Iansã. Enquanto desce apressada a ladeira em direção à missa, a mulher comenta:</p>
<p>- Devo tudo que tenho a ela, meu apartamento, meu carro. Ave Maria, graças a Deus sou filha de Iansã.<br />
A amiga, orgulhosa, responde:<br />
- Eu também, sou filha de Xangô.<br />
A missa já está perto do final, quando Iansã resolve mostrar a sua presença: nuvens negras surgem de repente e pingos grossos desabam sobre o povo, abençoando-o.<br />
- Já estava até demorando, porque no dia dela sempre tem trovoada &#8211; explica uma senhora.<br />
Na Bahia, todos os anos é assim: quatro de dezembro é dia de homenagear a santa do manto vermelho e a orixá dos ventos e das tempestades, dia em que tem emoção, chuva, procissão, música e muito acarajé.</p>
<p>Essa mistura de fé e comida é uma história antiga, que começou na África, prosseguiu no Brasil e perdura até hoje, porque as comidas que os africanos faziam para oferecer aos seus deuses caíram no gosto dos brasileiros e nunca mais deixaram de ocupar um lugar de honra em nosso cardápio. A semelhança é tão grande que um africano se sente em casa na Bahia. Como conta a empresária nigeriana Rasidat Lola Akanni, que mora há muitos anos no Brasil, quando quer relembrar o sabor do legítimo akará da sua terra, bem crocante, ela não precisa fazê-lo em casa, apenas vai ao tabuleiro de uma certa baiana.</p>
<p><strong>Comer akará</strong><br />
Na África, o nosso abará se chama moìn-moìn. “É uma massa de feijão fradinho bem lavado e temperado com cebola, pimentão, tomate, gengibre e dendê. Depois a gente coloca camarão e ovo cozido dentro e cozinha na água enrolado na folha da bananeira”, explica Rasidat. Como é considerado um alimento leve, ele é comido “de manhã, junto com o mingau”. O caruru tem quiabos, dendê, pimenta, camarão e carne ou peixe: “A gente come na hora do almoço, junto com amalá, uma bola de massa feita no fogo com farinha de inhame seco e água”. Já o akará, é “a massa de feijão moída com temperos como pimentão, cebola, pimenta e quando vai fritar coloca camarão ou peixe dentro. A gente come qualquer hora, em qualquer lugar, é uma merenda. Lá, vende akará na rua, na feira, no restaurante, as mulheres ficam sentadas fritando e servindo, como aqui”, conta a nigeriana, que também entende de comida e prepara banquetes africanos por encomenda.</p>
<p>Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, a palavra acarajé pode ser uma versão reduzida do pregão cantado pelas antigas vendedoras ambulantes. Na sua música A preta do acarajé, Dorival Caymmi reproduziu livremente um deles: “O acará jé ecó olailai ô”. Pregão que era um convite aos fregueses para virem comer (jé) a sua iguaria (acará). Em cada grupo étnico iorubá o acará era feito de certa forma, explica Costa Lima: acarakere bem pequeno entre os egbá, acarájexá bem maior, entre os ilexá. Na Bahia, aos poucos, se definiu um tamanho médio para a venda ao público. O que não mudou foi o desabafo que Caymmi ouvia da baiana e registrou em sua canção: “Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é”.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/voltaire-fraga.jpg" alt="voltaire-fraga.jpg" /></p>
<p><strong>Enfeitiçando o paladar<br />
</strong>Muitos dos ingredientes e receitas vieram da África, mas foi na cozinha das nossas casas-grandes e senzalas que surgiu a culinária afro-baiana, tendo como elementos centrais o dendê africano, a pimenta sul-americana e o côco da Índia. Como lembra Luis da Câmara Cascudo, em seu texto A cozinha africana no Brasil, escravos iorubanos foram levados para muitos lugares, mas somente aqui a culinária africana se aprimorou e difundiu tanto. A explicação, propõe ele, é que “no Brasil, a presença da preta na cozinha classificava-se como indispensável e regular”, o que não ocorria em outros locais, onde havia até quem condenasse a colaboração das escravas na cozinha. De fato, ao se tornarem responsáveis pela alimentação das famílias, essas mulheres recebiam um fardo e um poder, o de recriar receitas, acrescentar ingredientes, fundir costumes africanos com portugueses e indígenas.</p>
<p>No começo do século XVII, a palmeira africana da qual se extrai o azeite de dendê foi introduzida no Brasil, explica Costa Lima. Com a chegada desse e outros ingredientes, sabe-se que, no mínimo, em fins do século XVIII, além de degustados nas residências, os pratos africanos já eram comumente vendidos nas ruas. É de 1802 uma carta do professor de grego Vilhena queixando-se da venda a pregão, pelas escravas de ganho, de mocotós, carurus, vatapás, mingaus, acaçás, acarajés, entre outras “couzas (sic) insignificantes e vis”. Segundo Costa Lima, desde essa época, os tabuleiros das baianas já alimentavam a preço acessível a população subempregada e pobre da cidade com seus quitutes deliciosos. Com essa venda nas ruas, a serviço dos patrões, muitas chegaram a reunir quantia suficiente para comprar a própria liberdade.</p>
<p>Também no final do século XVIII acontecia na Bahia um fenômeno importante para o desenvolvimento da culinária: “Começa a se organizar em comunidades estruturadas o sistema religioso dos escravos de origem nagô e iorubá”, como explica Costa Lima. Onde havia orixás, havia sacrifícios e oferendas de alimento, pois é assim que os africanos dialogam com seus orixás: fazem seus pratos prediletos, colocam um pouco em frente ao altar e repartem o resto entre os homens após as cerimônias (ajeum). “Nesse tempo foram recriadas muitas das comidas cotidianas dos homens e dos santos. Pois que os santos comem o que os homens comem”, explica o antropólogo. Foi também por isso que receitas tão antigas e que vieram de tão longe nunca foram esquecidas. Como esquecer o ebô de Oxalá, o doboru de Obaluaê, o omolucum de Oxum ou o acará de Iansã?</p>
<p>Nessa época, onde as panelas eram de barro, o fogão, à lenha, e não havia eletrodomésticos, o feijão do acarajé era moído segundo a técnica africana, na pedra de ralar: “Mede cinqüenta centímetros de comprimento por vinte e três de largura, tendo cerca de dez centímetros de altura. A face plana em vez de lisa, é ligeiramente picada por canteiro, de modo a torná-la porosa ou crespa. Um rolo de forma cilíndrica, da mesma pedra, impelido para frente e para trás, sobre a pedra, na atitude de quem mói, tritura facilmente o milho, o feijão, o arroz”, explicou Manuel Querino em seu texto A arte culinária na Bahia, de 1916. Segundo Costa Lima, Querino, que também dá a receita completa do bolinho africano, é autor da primeira descrição etnográfica do acarajé.</p>
<p>Nos terreiros mais tradicionais, até hoje se mantém o hábito de usar a pedra de ralar, pelo menos no preparo do alimento para os santos. A baiana Ivone do Carmo, que alcançou esse tempo, conta que o ato de moer na pedra servia também como uma espécie de treinamento corporal para o momento do transe. “Tinha que passar o feijão na pedra pra dar o ‘gincar’ no ombro, pra quando o santo pegar a gente, tremer bem o ombro. Hoje o santo é cá embaixo, é um remelexo danado. Naquele tempo era no ombro. A não ser quando é Iansã que pega, porque aí tem que remexer tudo mesmo. Misericórdia! Solta tudo, solta as frangas. É bonito de ver”, diz ela, que sabe muito bem que cozinha e magia se misturam. Antes de sair para fazer as vendas, ela se protege: “Na porta da minha casa coloca minhas farofas de mel pra chamar prosperidade, farofa branca, farofa vermelha. Posso levar também uma água de alfazema ou água com mel pra jogar no ponto”.</p>
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<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/tabuleiro.jpg" alt="tabuleiro.jpg" /></p>
<p><strong>VIDA DE BAIANA</strong></p>
<p>Para ela, o dia começa cedo, às 6h da manhã. Não demora muito e já está na cozinha, separando os ingredientes. Os ajudantes vão chegando &#8211; filhos, vizinhos, parentes -, e a labuta começa. Depois de cinco horas de trabalho duro, está tudo pronto: abará, vatapá, pimenta, camarões, salada, passarinha, massa do acarajé, do bolinho de estudante e outras iguarias. Então, é hora de se aprontar impecavelmente, para agradar os fregueses: longa saia rodada, bata de rendas, torço e colares. Mas, para que a venda seja boa, pois toda a família depende disso, é preciso também pedir ajuda ao invisível: água, cachaça e farofa são despachadas na porta de casa, em homenagem à força que domina as ruas e pequenas porções dos alimentos vão para os altares caseiros. Quando chega ao local da venda, ela também lança na rua três pequenos acarajés, que abrem os caminhos e, sobre o tabuleiro, dispõe plantas como espada-de-Ogum e arruda, figas, contas, fitas, imagens e moedas, completando a proteção. A vida da baiana é assim, cheia de disciplina e rituais. E foi assim, com todo esse rigor, que essas mulheres sem instrução, mas cheias de espírito de liderança, competência e iniciativa, conseguiram se tornar as mais bem sucedidas empresárias do povo.</p>
<p>O tabuleiro passou por muitas transformações em todos esses séculos. Antes era ambulante, transportado sobre a cabeça da baiana, que trazia os bolinhos fritos de casa e os vendia frios, acompanhados só com pimenta. No final dos anos 40, elas começaram a se fixar em pontos estratégicos, diminuindo o peso no deslocamento, mas aumentando e muito a quantidade de apetrechos: fogareiro, tacho para o azeite, panelona para bater a massa, balaio com as comidas, além do tabuleiro de madeira. Sentadas por anos a fio no mesmo lugar, atendendo seus fregueses com simpatia e qualidade, elas ganharam fama. Em seu livro Bahia de Todos os Santos, Jorge Amado fala de Vitorina, que fritava seus acarajés na porta do bar Anjo Azul, na rua do Cabeça, de Damásia da Conceição, em frente à Escola de Belas Artes, de Quitéria de Brito, na Baixa dos Sapateiros e de Romélia, mulher de mestre Pastinha, que vendia acarajés no largo do Pelourinho. E para a sobremesa, era só ir até Odília, em frente à Alfândega, onde estavam as melhores cocadas. Boas negociantes, elas souberam se adaptar às mudanças, sempre buscando locais movimentados. Salvador cresceu para o norte, por isso elas também seguiram o rumo de Yemanjá.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/dinha.jpg" alt="dinha.jpg" /></p>
<p><strong><br />
Nome bem falado<br />
</strong>Há 60 anos atrás, havia duas baianas no Rio Vermelho: Ubaldina, no largo de Santana e Bolinha, na Mariquita. Com a perda da mãe, aos cinco anos, a pequena Lindinalva foi morar com a avó Ubaldina e passou a ajudá-la. Aos sete já sabia cozinhar e despachar os fregueses. Aos dez, a avó ficou doente e ela teve que assumir o ponto sozinha, de onde nunca mais saiu. Em 44 anos de acarajé o seu nome se tornou uma marca de sucesso, conhecida nacionalmente: Dinha. Hoje, além do ponto, é dona de um restaurante no mesmo largo. Segundo Dinha &#8211; que não pára de trabalhar, vive com a agenda lotada e já chegou a sustentar 46 pessoas com os seus acarajés -, foram três os fatores que a ajudaram: “Sou muitíssimo exigente”, confessa ela, que lidera uma equipe disciplinada a quem ensina que “o cliente sempre tem razão”. As amizades também foram importantes: “Conheci muita gente aqui: doutor Sócrates, doutor Diocleciano, doutor Wilson Lins, Jorge Amado. Desde quando Nizan começou na publicidade foi me ajudando. Conheci Gil, Caetano, Oliveto”, conta ela, que chega a preparar quatro buffets por dia. E, além de tudo, “foi Deus quem me iluminou e me ajudou a crescer, mesmo sem escolaridade. Hoje quero meus filhos preparados. Todos fizeram faculdade, mas voltaram pro acarajé. Uma assumiu o ponto e o outro é gerente do restaurante”, relata, orgulhosa.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/chica.jpg" alt="chica.jpg" /></p>
<p>Um pouco mais à frente, na Pituba, encontra-se o tabuleiro da família de Dona Chica. De trabalho, Maria Francisca dos Santos, ou dona Chica, entende. Com nove filhos para criar, ela se virava como podia. Vendia bananas e, um dia, arriscou montar uma barraca na festa da Pituba. Teve prejuízo, mas lá conheceu uma barraqueira que se ofereceu para ensiná-la a fazer acarajés. O primeiro ponto foi na praia do Jardim dos Namorados, há 30 anos. De lá, seguiu para a avenida Manoel Dias da Silva, sempre com os seus auxiliares: os nove filhos e filhas que estudavam num turno e no outro a ajudavam. Vendendo o seu acarajé barato e delicioso, Chica foi cativando os moradores do bairro, admirados com seus quitutes e sua integridade. “Doutor Avena atendia os meninos e já dava o remédio. Dona Maria Tavares mandava chamar os meninos pra almoçar. Tinha dia, quando a fila estava grande, que Tica, uma branca, vinha me ajudar a despachar”, relembra ela, citando alguns amigos. Em seu modesto tabuleiro, Chica conheceu também gerentes de banco, advogados e políticos como Paulo Souto, Otto Alencar, João Durval, Antonio Carlos Magalhães, Roberto Santos e Manoel Castro. Amigos influentes que a ajudaram com empréstimos, empregos e a continuar no ponto, de onde tentaram tirá-la duas vezes. Era respeitada também pelos moleques do bairro, que a chamavam de mãe. Seguindo o exemplo da mãe lutadora, todos os filhos prosperaram, alguns frequentaram universidade e quatro deles ingressaram no ramo do acarajé, como empresários bem sucedidos: Gregório, Zé, Agnaldo e Gegê.</p>
<p>E, seguindo ainda o curso do mar, lá onde Salvador termina, encontra-se outro antigo e famoso tabuleiro, o de Jaciara de Jesus Santos, 48 anos, mais conhecida como Cira. Nascida e criada em Itapuã, ela conta que faz tudo até hoje como aprendeu com a mãe, dona Odete, que aprendeu “com uma senhora muito antiga daqui, dona Sorazinha”. Quando tinha 17 anos, sua mãe faleceu, lhe deixando o ponto, uma panela pequena e um fogão de abanar. “Naquele tempo o acarajé era só com pimenta, depois é que fui botando mais coisas”. Ao redor do seu tabuleiro, que fica num quiosque espaçoso, foram surgindo barracas, bares, casas e shopping. Hoje, com uma clientela gigantesca, ela explica que sua fama cresceu aos poucos: “O que me ajudou foi o boca a boca. Só depois que meu nome já era bem falado é que foi parar no jornal”. Meia dúzia de moças com guarda-pó branco atendem os fregueses, mas ao todo são 25 pessoas trabalhando para Cira, que tem cinco filhos e mantém outro ponto no Rio Vermelho, comandado pela filha Jussara. Ao contrário da maioria das baianas, ela não gosta de fazer eventos, “desgasta muito”, preferindo se concentrar no seu produto, que vigia de perto: “Nunca mudei a qualidade, por isso nunca caí”. Com tanto trabalho, Cira quase não tem tempo para outras coisas: “De vez em quando dou uma olhada na tv ou vou na praia, mas é difícil”, conta ela, que, vaidosa, se diverte mesmo é com sua coleção de roupas de baiana e suas jóias. Sua outra paixão, é claro, são os acarajés, que degusta todos os dias.</p>
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<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/cira.jpg" alt="cira.jpg" /></p>
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<p><strong>TABULEIRO FAMILIAR</strong></p>
<p>Eles começam em casa, aprendendo a catar o camarão e lavar o feijão. Depois ajudam a carregar o balaio, o tabuleiro e atender os clientes. Chegar perto da massa é outro estágio e fritar os bolinhos, então, só para quem já entende muito do ramo, pois é preciso muita observação para ser capaz de perceber quando o azeite atinge a temperatura certa ou identificar a qualidade do dendê apenas pelo cheiro. Após anos de treino, chega finalmente a hora do aprendiz tomar a sua decisão: procurar outra ocupação ou assumir um tabuleiro. A decisão é séria, pois envolve trabalho duro de domingo a domingo, comprar o traje especial, se cadastrar, pagar taxas e encarar todos os tipos de clientes. Apesar dos riscos, a opção pelo tabuleiro tem sido cada vez mais freqüente, entre mulheres e homens de várias faixas etárias, níveis de escolaridade e religiões. O motivo é simples: barato, nutritivo e delicioso, o acarajé não sai de moda, é um sucesso.</p>
<p>Tentando aumentar os lucros ou apenas garantir o pão nosso de cada dia, os tabuleiros se proliferaram muito nos últimos anos, trazendo novidades. Surgiram polêmicas, como entre Dinha e Regina, em 1998, disputando o movimentado largo de Santana; apareceram os “baianos” de acarajé, sob protesto dos mais ortodoxos e foi criado o acarajé de soja, feito por Nira, em Camaçari. Até evangélicos ingressaram no ramo, como Deny Costa, a Loura do Horto Florestal, apontada como dona do melhor acarajé numa pesquisa feita pela internet. O acarajé passou a ser encontrado também em lojas, delicatessens, bares e ampliou o seu espaço nas prateleiras dos supermercados, onde é vendido em caixinhas. Para disciplinar tudo isso, associações, prefeituras e governo começaram a dedicar atenção especial ao tema. O decreto municipal 12.175/1998 e portarias subseqüentes regulamentam a profissão, padronizam indumentária, tabuleiro, definem a distância mínima de 50 metros entre as baianas e outros detalhes. Vieram também os cursos, apoio financeiro e fiscalização.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/ze.jpg" alt="ze.jpg" width="261" height="415" /></p>
<p><strong>Baianos de acarajé</strong><br />
Quem o conhece como professor de educação física com mestrado em Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), nem desconfia, mas José Antonio Vieira, é o mesmo Zé que, há mais de 10 anos, assumiu um tabuleiro num shopping de Piatã e hoje já possui mais dois pontos: um no Cidadela e outro de acarajé a quilo. O pioneiro foi o seu irmão, Gregório Bastos, 41 anos. “Estava casado, sem emprego, então comecei no ponto de minha mãe (Dona Chica), que dava a sexta para mim, até que resolvi botar um ponto meu”, conta Gregório, que foi da Marinha. Ele passou um ano a procura do local, inclusive em outras capitais do Nordeste, quando obteve sinal positivo num grande shopping de Salvador: “A única exigência era colocar uma baiana pra vender, porque homem não vendia naquela época. Fui usando o jogo de cintura: de vez em quando assumia o tabuleiro, dizia que a baiana tinha pedido demissão, que ia arranjar outra, até que passou a tv, fez uma matéria comigo e eles viram que eu podia ser o garoto-propaganda do shopping e passaram a cobrar a minha presença”. Na época, houve rejeição das associações e não foi fácil garantir o direito de um homem também vender acarajés, mas a competência de Gregório acabou falando mais alto.</p>
<p>Para Zé, a história foi parecida: já tinha aprendido tudo com a mãe, em cujo tabuleiro começou a se exercitar como “baiano” e também optou pela venda em shopping. Para ele, que é funcionário público e foi sócio de uma empresa, o tabuleiro terminou sendo a opção mais rentável. Com nove funcionários, que se dividem entre a fabricação e venda dos bolinhos, Zé não pára de crescer. Seguindo o exemplo do irmão, criou também um ponto de venda de acarajé a quilo, na Estrada do Coco, e trabalha muito com eventos. Assim como a mãe e o irmão, é cheio de clientes famosos, como artistas e políticos, que fazem questão da sua presença, pois os dois temperos básicos do acarajé são a pimenta e a conversa com o vendedor. Casado e com filhos, ele acorda antes das 6h e trabalha de domingo a domingo para gerenciar tantas atividades ao mesmo tempo. Gentil e tranqüilo, enquanto cumprimenta os clientes ou atende mais uma ligação no celular, conta que a sua principal preocupação é com a qualidade: “Chegamos a um nível em que a gente não pode deixar cair”.</p>
<p><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/gregorio.jpg" alt="gregorio.jpg" width="270" height="395" /></p>
<p><strong>Negócio lucrativo</strong><br />
No ramo do acarajé não existe sorte, o sucesso é fruto de muito trabalho, por isso, só permanecem os fortes. Sérias, objetivas, elas têm gestos precisos e sempre estão alertas a tudo que se passa à sua volta. Qualquer descuido pode significar uma queimadura grave, passar troco errado, azedar um alimento. Apontada por muitos como dona do melhor tabuleiro do centro da cidade, Neinha já ocupa há mais de 25 anos o seu ponto nas Mercês. Ela diz que “queria outra coisa na vida”, mas não teve opção, por isso seguiu a tradição iniciada pela avó, que vendia acarajés na porta de casa, na Liberdade. Suas quatro irmãs também vendem acarajé, mas as duas filhas não se interessam pelo ramo. A candidata a sucessora, por enquanto, parece ser a netinha, “que já pega na colher, ajuda e diz que ser baiana”, conta Neinha.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/neinha.jpg" alt="neinha.jpg" /></p>
<p>Apesar da pouca idade, 28 anos, Lucélia Santos ou “Neguinha”, é uma lutadora experiente: começou há 18 anos, ajudando a mãe, sempre no ponto em frente ao Farol da Barra. “No início tinha uma vergonha danada, hoje não troco minha profissão por nada. É bem melhor do que ficar em cozinha de branco ou tomar conta de criança dos outros”, diz ela. Para vender os acarajés, Lucélia e a mãe criaram um método engenhoso: “Ela mora em São Caetano e faz tudo em casa. Meu pai vem pra cá vender coco e traz a cesta. Eu moro em Plataforma e venho vender. Fico aqui até 10h da noite e mando a cesta por ele”. Rindo, ela diz que o tabuleiro foi sua única opção porque não gosta de estudar, mas atende tantos fregueses estrangeiros que já está decidida a aprender inglês, para se aprimorar na sua profissão que, segundo ela, tem como principal qualidade proporcionar “dinheiro na hora, ao vivo”. Tanto que, com os acarajés, ela ganha mais que o marido.</p>
<p><strong>Cozinha de rua<br />
</strong>Como empresas familiares que são, cada tabuleiro tem as suas regras. Alguns empregam membros da família, que podem ter o direito de assumir o tabuleiro em dias de menor movimento. Outros chegam a garantir o sustento de dezenas de pessoas, geralmente remuneradas como diaristas, com valor fixo, independente da quantidade que vendem, e sem carteira assinada. O caminho natural é buscar a independência, como no caso de Tania Fernandes, que trabalha para Regina, no ponto do Rio Vermelho. Agora que conhece bem todos os segredos do ramo ela quer ter seu próprio ponto: “Vou pra São Paulo, os clientes vivem pedindo. Lá eles fazem acarajé de mandioca”. Fugindo do desemprego ou apostando na venda do acarajé como uma lucrativa fonte de renda, somente em Salvador são cerca de 2.800 baianas e baianos registrados na Associação das Baianas de Acarajé e Mingau Receptivos e Similares da Bahia (ABAM), que divide com a Federação Baiana dos Cultos Afro-brasileiros (Febacab) a responsabilidade pelo cadastramento. Montar uma cozinha no meio da rua, entretanto, é uma tarefa difícil que nem todos desempenham bem. A comprovação veio em fevereiro de 2002, no auge do verão baiano, com a divulgação nacional pela tv de uma pesquisa da Ufba que detectou altos índices de coliformes fecais em amostras de acarajés coletadas em Salvador. Instalou-se uma crise, com redução de até 30% nas vendas.  O susto passou, mas ficou nítida a importância de profissionalizar o setor. A partir daí, intensificaram-se iniciativas que envolvem Abam, Febacab, governo, prefeituras, Sebrae, Sesc/Senac, universidades, Vigilância Sanitária e bancos. Assim como ocorre em Camaçari, em Salvador foi criado um curso de capacitação sobre higiene na manipulação de alimentos para as baianas. A segunda etapa foi vistoriar as cozinhas e, depois, conceder selo de qualidade e linhas de crédito de até R$ 8 mil para reformar cozinhas, tabuleiros e indumentárias.</p>
<p>Apesar de mal sinalizado, o Memorial das Baianas é bem localizado, no Belvedere da Sé, centro histórico de Salvador. Depois de visitar a exposição permanente com objetos, indumentárias e apetrechos culinários do passado e do presente, o visitante atento encontra a discreta sala onde trabalha a diretoria da Abam. Em uma mesa, a presidente, Maria Leda Marques. Em outra, a vice, Rita Santos. Enquanto folheiam a pasta que reúne documentos, recortes, convites e ofícios, vão relembrando das batalhas vencidas, homenagens, parceiros, projetos e falam dos próximos desafios. Ali não há tabuleiro com acarajé fritando, ainda assim amigos e conhecidos também aparecem com freqüência para um dedo de prosa ou pedir uma ajuda. Orgulhosa da força das mulheres que representa, Leda não poupa elogio às baianas, mas não deixa o interlocutor sair iludido. Para ela, as baianas precisam, sim, de apoio: treinamento, informação, equipamentos melhores, por isso o seu trabalho nunca termina. Antes de se despedir do visitante, já do lado de fora, uma parada no mirante de onde se avista a Baía de Todos os Santos, os sobrados em ruínas e velhos edifícios do bairro do Comércio. Leda então se lembra de como tudo começou. Fala das escravas, das ganhadeiras mercado seus produtos pelas ruas, dos primeiros tabuleiros e, com um olhar emocionado, diz que as baianas ainda sonham em conquistar, sim, muito mais respeito.</p>
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<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/largo.jpg" alt="largo.jpg" /></p>
<p><strong>Dicas </strong></p>
<p>“Moer o feijão bem fino para o abará e deixar a massa mais grossa para o acarajé, senão ele não fica crocante” (Cira)</p>
<p>“Se o azeite estiver muito frio, encharca o acarajé. Se estiver muito quente, frita por cima e não cozinha por dentro” (Zé Antonio)</p>
<p>“Quando estiver subindo fumaça coloca o acarajé e abaixa o fogo. Se estiver quente demais, coloca um pouco de azeite frio” (Tania)</p>
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		<title>Mãos negras</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Oct 2007 22:16:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[

por Agnes Mariano
Essa história começa no tempo em que um negro só se tornava artista se tivesse, na mesma medida, força nos músculos, habilidade nas mãos, inteligência aguda e um coração sensível. Porque as mesmas mãos que cortavam a madeira, quebravam as pedras e forjavam o metal para erguer paredes, monumentos e cúpulas, também eram [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=13&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="justify"><a title="balangandas.jpg" href="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/balangandas.jpg"></a></p>
<p style="text-align:center;" align="center"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/rafael-pinto.jpg?w=383&#038;h=300" alt="rafael-pinto.jpg" width="383" height="300" /></p>
<p align="justify">por Agnes Mariano</p>
<p align="justify">Essa história começa no tempo em que um negro só se tornava artista se tivesse, na mesma medida, força nos músculos, habilidade nas mãos, inteligência aguda e um coração sensível. Porque as mesmas mãos que cortavam a madeira, quebravam as pedras e forjavam o metal para erguer paredes, monumentos e cúpulas, também eram as mãos que esculpiam os contornos mais delicados e criavam as mais sutis combinações de cores. Contornos e cores que são a alma das nossas igrejas, terreiros, palacetes e casebres. Eram ferreiros e ourives, pedreiros e escultores, pintores de paredes e de telas. Como boa parte da mão-de-obra que ergueu o Brasil foi importada da África, esses “artesãos-artistas” acabaram se encarregando de trazer para cá também símbolos, formas, técnicas e cores da arte tradicional africana, que, junto com a contribuição estética dos índios, portugueses, holandeses e outros povos, criaram aquilo que costumamos chamar de arte brasileira.</p>
<p><span id="more-13"></span></p>
<p align="justify">Na África antiga, arte era assunto sério. Tão sério que não se separava da vida. Para definir os contornos, bastavam poucos gestos: diretos, econômicos e sem hesitações, como os dos guerreiros. Para colorir, apenas os tons certos: o branco para ter paz, o vermelho para ganhar coragem, o dourado para seduzir e o verde para conquistar a saúde. Lá, eles já eram mestres na escultura, tecelagem e metalurgia, inclusive usando técnicas que os portugueses ainda desconheciam. Quando vieram para o Brasil, representantes dos povos africanos e seus descendentes entraram em contato com outras formas de fazer arte, com novos materiais e técnicas, e também com outros temas &#8211; fauna, flora, mitos e deuses diferentes.</p>
<p align="justify">Primeiro, foram apresentados ao mundo cristão, ao maneirismo e ao barroco, como auxiliares e escravos de alguns mestres portugueses da arquitetura, escultura, pintura e entalhe ou copiando objetos importados de Portugal. A prova de que aprenderam bem a lição está aí para quem quiser ver, em todos os lugares onde houve escravidão no Brasil. Pois, apesar da presença inicial de alguns mestres europeus, foram negros e mulatos, em grande parte, os responsáveis por construir e decorar tudo o que era feito nessas cidades. Alguns dos melhores exemplos estão nos trabalhos dos escultores mineiros Aleijadinho e Mestre Valentim, dos pintores cariocas Antonio Firmino Monteiro, Artur e João Timóteo; do pintor Jesuíno do Monte Carmelo e do arquiteto e mestre de obras Thebas, ambos paulistas, ou do pintor pernambucano José Rabelo de Vasconcelos. Ou ainda nos trabalhos dos baianos Francisco das Chagas – O Cabra &#8211; e Bento Sabino dos Reis, ambos escultores, do entalhador Vitoriano dos Anjos e do pintor José Theóphilo de Jesus.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/theophilo-ordem-terceira-ca.jpg" alt="theophilo-ordem-terceira-ca.jpg" /></p>
<p align="justify">Mas quem conta um conto sempre acrescenta um ponto e, além de aprender a realizar obras de arte ao gosto europeu, os mestiços e negros também trouxeram contribuições próprias. Na verdade, eles nunca deixaram de reproduzir aqui objetos e símbolos do imaginário africano. Os espaços que melhor conseguiram preservar essa herança material e simbólica foram os terreiros de candomblé, chamados pela antropóloga Juana Elbein de “pólos de irradiação de todo um complexo sistema cultural”, dos gostos, valores e modo de vida africano. Foi também para uso litúrgico que, sempre que tinham oportunidade, os escravos e alforriados mandavam vir da África panos-da-costa, esculturas, ferramentas e os mais diversos tipos de objetos.</p>
<p align="justify">A partir do século XIX, o ambiente das artes é sacudido por grandes transformações e a separação entre artesãos e artistas se oficializa. O trabalho livre vai ganhando espaço, as encomendas vão deixando de ser feitas às confrarias e oficinas, os objetos industrializados começam a substituir os artesanais. Os mestres de ofícios vão progressivamente perdendo a importância que tiveram, explica a historiadora Maria das Graças Leal. Eles até que se organizam, fundam instituições como o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, em 1872, que “além de aplicar a beneficência, tinha por finalidade promover o desenvolvimento e perfeição das artes e ofícios entre os sócios e seus filhos”, diz Leal. Em 1816, a Missão Artística Francesa começou a atuar no Rio de Janeiro e, em 1877, o espanhol Cañizares funda em Salvador a Academia de Belas Artes, embrião da Faculdade de Belas Artes.</p>
<p align="justify">Os territórios passaram a ficar mais demarcados: de um lado, pintores de tela, escultores, artistas plásticos; de outro lado, pedreiros, ferreiros, mestres de obras, marceneiros. Só que, na vida real, as coisas continuaram se misturando. Foi assim com Manuel Querino, que passou tanto pelo Liceu quanto pela Academia de Belas Artes e trabalhava como decorador, pintava panos de boca para teatro, quadros, dava aulas de desenho e ainda atuava como jornalista e escritor. Também com Agnaldo dos Santos, um lenhador de Itaparica que, trabalhando como ajudante no atelier de Mário Cravo Júnior, descobriu que era um escultor genial. E também é assim com o escultor Zu Campos, que já foi pedreiro, com o estampador Alberto Pita, que começou com serigrafia ou com o escultor Mestre Didi, o sacerdote-artista que faz peças inspiradas nas ferramentas do axé. Todos eles, autores de trabalhos conhecidos e respeitados em vários países. A lista de artistas baianos que incorporam ao seu trabalho elementos da arte produzida na África é enorme: nomes como Mário Cravo Júnior, Rubem Valentim, Emanoel Araújo, Juarez Paraíso e muitos outros, que, estabelecendo um diálogo entre essa e outras tradições, produziram uma arte sem fronteiras.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/escultura4.jpg" alt="escultura4.jpg" /></p>
<p>Depois que artistas como Picasso, Paul Klee, Leger e Brancusi passaram a se inspirar abertamente nas esculturas africanas e que a Europa começou a conhecer e admirar essas peças, a arte produzida na África começou a desfrutar do merecido respeito. No Brasil, entretanto, muita gente nem precisou consultar livros de arte para conhecer os cânones da arte africana, porque lidavam com eles desde a infância. Entre nós, ela está em cada esquina, na delicadeza dos panos-da-costa das baianas, nas cores vibrantes dos blocos afros, na geometrização e abstracionismo de muitos escultores e, principalmente, nos contornos dos objetos litúrgicos do candomblé, que têm inspirado o trabalho de centenas de artistas.</p>
<p align="justify">Como a religiosidade sempre foi um grande agente motivador das produções artísticas, um grupo de pesquisadores de arte está tentando viabilizar um projeto importante: a criação de um Museu de Arte Sacra Africana produzida na diáspora, com um acervo proveniente de lugares como o Brasil, Haiti, Cuba e Estados Unidos. Por enquanto, tudo ainda está em discussão, mas a sede desse museu já está decidida: Salvador, a maior cidade negra do mundo fora da África.</p>
<p><strong><br />
TEMPO DO ANONIMATO</strong><br />
Dizem que a saudade foi inventada pelos portugueses e talvez tenha sido mesmo. No Brasil, ao invés de se adaptar aos costumes locais, eles fizeram o máximo para recriar aqui os gostos, cenários e jeito de viver do seu país. Ergueram muros, sobrados, fortes, igrejas e abriram ruas ao modo lusitano, para tentar se sentir em casa. Entretanto, os braços e mãos que executaram essa empreitada dificilmente eram portugueses, que preferiam ficar com a parte mais “intelectual” do trabalho. Isso acontecia com o trabalho braçal e também com expressões artísticas como a escultura e a pintura. E aí a mistura começou, porque os africanos e mestiços até que tentavam imitar o padrão da metrópole, mas não conseguiam deixar de imprimir suas próprias contribuições.</p>
<p align="justify">A princípio, houve um esforço para trazer alguns mestres portugueses, que reproduziam aqui o estilo que estava em voga do outro lado do Atlântico. Na arquitetura, alguns exemplos são Luis Dias, responsável pela construção dos edifícios administrativos brasileiros de 1549 a 1553, e Francisco Frias, maior expoente na arquitetura militar no século XVII. Em Salvador, ele projetou, por exemplo, o Forte São Marcelo. Muitos religiosos exercitaram-se também na arquitetura, escultura e outras formas de arte. A maioria das imagens religiosas vinha da metrópole e alguns portugueses, como o beneditino Agostinho da Piedade, também produziram aqui seus trabalhos. Usando apenas barro cozido e um forno de padeiro para assar suas esculturas, ele produziu maravilhas da arte sacra brasileira.</p>
<p align="justify">A presença dos holandeses também causou impacto. Durante a sua estadia no Nordeste brasileiro, Maurício de Nassau contratou e atraiu para cá inúmeros artistas holandeses, flamengos e alemães. Ao contrário da arte portuguesa, totalmente centrada nos motivos religiosos, os pintores de Nassau registraram a fauna, a flora e o cotidiano do povo brasileiro. Segundo Sofia Olszewski, em seu livro “A fotografia e o negro na cidade do Salvador”, um dos maiores representantes desse grupo foi Albert Eckhout, autor de obras-primas da pintura realizada no Brasil colonial. Recife já contava com mais de duas mil construções em estilo nórdico quando os portugueses conseguiram expulsar os holandeses e, como sempre faziam, destruíram boa parte do que havia de mais significativo e belo.</p>
<p align="justify">Portanto, desde essa época já havia a concepção de que tudo o que vinha de fora era melhor do que o similar nacional. Como era impossível trazer para cá todos os artistas europeus necessários para atender à demanda da população, o jeito foi ir treinando os brasileiros mesmo para fazer os altares, pintar quadros e forros, erguer os palácios, esculpir imagens, produzir a prataria. Nas grandes cidades, como Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Ouro Preto, onde havia muito trabalho, a participação dos escravos e alforriados foi especialmente maior.</p>
<p align="justify">Uma parte do aprendizado se deve aos religiosos, que eram, eles próprios, hábeis em muitos ofícios, conta o especialista em história da arte José Luiz Menezes, no livro “A mão Afro-brasileira”: “Foram, assim, os jesuítas os que, talvez em paralelo com os mestres de obras vindo para os engenhos, logo no início da colonização, se preocuparam com o ensino dos ofícios aos negros e conseqüentemente aos mulatos, aos pardos, naquelas oficinas”. A outra fonte de aprimoramento foram as “tendas”, “bancas” ou oficinas dos mestres de ofícios, algo similar às corporações de ofícios medievais, com mestres, oficiais e aprendizes.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/balangandas2.jpg" alt="balangandas2.jpg" width="371" height="283" /></p>
<p align="justify">Na maioria das nossas oficinas, então, negros e mestiços se misturavam com europeus menos abastados. Admitidos como mão-de-obra escrava ou barata, mediante um aluguel pago aos seus donos, eles iam se aprimorando em várias profissões: eram ourives, pedreiros, carpinteiros, escultores, alfaiates, pintores. Sabe-se que, por trabalhos extras que realizavam, muitos desses homens conseguiam comprar a alforria e abrir suas próprias oficinas, mas a maioria dos seus nomes permanece desconhecida para nós. Inclusive porque, nessa época, muitos trabalhos não eram assinados ou registravam apenas o nome da oficina ou responsável. O museólogo Osvaldo Gouveia, consultor da Fundação Vitae para inventários de patrimônios explica o alcance disso: “Nas pesquisas que estamos fazendo no recôncavo, atualmente, a nossa equipe já levanta a possibilidade de estar descobrindo um grande escultor ou atelier baiano, que trabalhou intensamente nos séculos XVIII e XIX. São peças semelhantes: madonas com mais de 90cm”.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/aleijadinho2.jpg" alt="aleijadinho2.jpg" width="377" height="311" /></p>
<p align="justify">Mas nem todos os nomes foram esquecidos. “Filho de uma escrava e ele próprio escravo, o pintor Manuel da Cunha, nascido no Rio de Janeiro em 1737”, tinha um talento tão grande que conseguiu ser alforriado, aperfeiçoar-se em Lisboa e dedicar-se até o final da vida à pintura, escultura e às aulas, que ministrava em sua própria casa, no Rio de Janeiro, conta o pesquisador de arte José Roberto Leite. Dois dos maiores escultores brasileiros de todos os tempos são certamente Mestre Valentim e Aleijadinho. Ambos filhos de africanas com portugueses, tiveram a sorte de não serem rejeitados por seus pais e, assim, encontraram meios de desenvolver seus excepcionais talentos. “Dois verdadeiros artistas e não meros imitadores, ambos introduziram inovações na adaptação dos modelos europeus ao meio colonial”, assegura a especialista em arte Myriam de Oliveira.</p>
<p align="justify">Na Bahia, os nomes mais antigos que a tradição oral preservou foram os dos escultores Francisco Manoel das Chagas, “O Cabra” e Bento Sabino dos Reis. Há várias lendas entorno do Cabra e seu trabalho. Atribui-se a ele, por exemplo, uma misteriosa escultura que “fora embarcada na Bahia, em 1764 com destino ao Rio Grande do Sul, porém o barco que a transportava por três vezes tentou chegar ao destino sem o conseguir”, conta Leite. O jeito então foi deixá-la permanecer em Santa Catarina, onde passou a ser venerada e deu origem à Irmandade do Senhor dos Passos. Trabalhando numa oficina próximo ao Elevador Lacerda, em Salvador, o artista foi contratado em 1758 pela Ordem Terceira do Carmo para esculpir três imagens. E é lá onde estão, até hoje, duas impressionantes esculturas em madeira – “Senhor Morto” e “Cristo na Coluna” – que comprovam a genialidade desse magnífico artista que produzia imagens com um realismo e dramaticidade singulares, mas que morreu na miséria.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/manoel-chagas.jpg" alt="manoel-chagas.jpg" width="367" height="337" /></p>
<p align="justify">Sobre Bento dos Reis sabe-se menos ainda. Nascido em Salvador no século XVIII, faleceu em 1843 na mesma cidade. Segundo o artista e pesquisador Manoel Querino, são de Bento algumas imagens da Ordem Terceira do Carmo, Igreja de São Francisco, Matriz de Santana, Igreja de São Francisco de Paula e Convento da Soledade. Seria dele também a imagem que iniciou, em Salvador, a devoção ao Senhor dos Passos dos Humildes. O detalhe interessante é que essa peça só pôde ter esse destino por um acidente: quem a encomendou, por algum motivo, não voltou para reclamá-la.</p>
<p align="justify">Na pintura, um dos nomes mais importantes é o de Theóphilo de Jesus, que viveu entre o<img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/theophilo-ele.jpg" alt="theophilo-ele.jpg" align="right" /> século XVIII e começo do XIX e foi discípulo do famoso mestre José Joaquim da Rocha. Sendo um homem generoso, José Joaquim investiu no aprimoramento do discípulo e “decidiu enviá-lo às suas custas a Portugal, para o que comprovadamente contraiu um empréstimo”, relata Leite. Quando retornou a Salvador, Theóphilo iniciou uma vasta produção de telas e pinturas em igrejas. No seu trabalho, ele exibe sinais de mudanças, explorando temas não religiosos e optando por uma maior suavidade no desenho e na pintura. São de sua autoria, por exemplo, os painéis dos corredores laterais da Igreja do Bonfim, a pintura no teto da Igreja do Carmo e as famosas telas que simbolizam a Europa, a Ásia e a África, que estão no Museu de Arte da Bahia. Mesmo sendo pardo e casado com uma africana, ele chegou a gozar, em vida, do prestígio que merecia.</p>
<p align="justify">Pelo poder político e econômico da Igreja, as encomendas no período colonial tinham quase sempre um caráter religioso. “Por isso as maiores expressões da arte brasileira desse período – pinturas, esculturas, mobiliário, azulejos – têm motivos religiosos”, explica o presidente da Fundação Gregório de Matos, Francisco Senna. Peças encomendadas por igrejas, irmandades e famílias ricas. Nisto, os portugueses tinham muito em comum com os povos africanos, que também produziram durante séculos objetos de rara beleza com finalidades litúrgicas ou para celebrar a realeza.</p>
<p><strong></strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/escultura-benin.jpg" alt="escultura-benin.jpg" width="300" height="642" /></strong></p>
<p><strong></strong></p>
<p align="justify"><strong>INSPIRAÇÃO AFRICANA</strong><br />
Se a espécie humana, comprovadamente, deu os seus primeiros passos na África, há dois milhões de anos &#8211; em alguma parte da savana equatorial, provavelmente no vale do rio Omo, na Etiópia &#8211; a arte, certamente, também nasceu por lá. E, num continente onde os homens disputam o espaço com leões, rinocerontes e girafas, num cenário onde se alternam desertos, savanas, florestas e montanhas e onde se desenrolou uma história cheia de guerras e disputas, os artistas não poderiam criar de outro jeito: com vigor, objetividade e profunda conexão com o mundo à sua volta. Nos seus momentos de maior colorido e detalhismo, a arte africana parece ser uma celebração à vida num lugar onde são tantos e tão fortes os estímulos aos sentidos. Em outros momentos, ela assume uma solenidade absoluta – sem cores ou sorrisos – ou até parece desejar assustar quem a vê, como se, através de uma beleza agressiva, os artistas quisessem nos alertar sobre quão desafiador é viver. Desde o começo, os suportes foram variados &#8211; paredes de cavernas, pedaços de madeira, metal, pedras, pele de animais. Depois, os recursos, técnicas, cores e temas se expandiram ainda mais e a arte africana passou a ser conhecida em todo o mundo. Hoje em dia, ela está presente tanto em museus de antropologia como em elegantes galerias. O estilista malinês Xuly Bet, por exemplo, é dono de uma concorrida loja no Forum des Halles, em Paris. Entretanto, o que acabou sendo conhecido como “arte africana clássica” são principalmente as esculturas antigas, feitas em madeira e metal, como os famosos bronzes da Nigéria.</p>
<p align="justify">Ao contrário do que os padres, senhores de engenho e artistas portugueses pensavam, os africanos que vieram para o Brasil já conheciam muito sobre arte. Um dos trabalhos mais antigos que se tem notícia são as pinturas de animais e pessoas feitas na Namíbia há 20 mil anos. A metalurgia foi praticada em toda parte. Na cerâmica, algumas das peças mais antigas já encontradas são as da civilização Nok, com mais de 2.500 anos. “O que mais se conhece são os trabalhos em madeira, que chamaram muito a atenção dos primeiros ocidentais. São feitos com madeira muito dura, como ébano. Também se trabalhava muito em marfim. Hoje não se faz mais por causa da proibição de usar esse material”, explica a antropóloga Juana Elbein.</p>
<p align="justify">“A estética é essencial na vida das sociedades tradicionais. As marcas nos corpos, pinturas em tecidos, esculturas, máscaras, cetros, altares, são um suporte da memória, têm um</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/escultura31.jpg" alt="escultura31.jpg" width="381" height="387" /></p>
<p align="justify">forte conteúdo simbólico ligado à história do grupo e dos líderes, são objetos articuladores do cotidiano”,  explica o museólogo Marcelo Cunha, atual diretor do Museu Afro-Brasileiro, do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ou seja, na forma antiga de produzir arte na África, os objetos não eram feitos apenas para ser colocados num lugar especial, separado da vida, como nós fazemos hoje em dia. A preocupação estética estava presente tanto em objetos decorativos &#8211; como braceletes e pingentes &#8211; quanto nos pesos e balanças feitas pelos Ashanti, em Gana, ou num simples tamborete, que podia ter impressionantes figuras esculpidas em sua base, como se fossem elas que estivessem sustentando o peso.</p>
<p align="justify">A organização do trabalho artesanal e artístico não diferia muito do que aconteceu em outros lugares do mundo: profissionais reunidos em oficinas e corporações, que atendiam às solicitações dos clientes. Em muitos locais, os reis, chefes e famílias da corte foram os grandes impulsionadores dessas oficinas. Entre os iorubás da Nigéria, os kuba do Zaire e os bamoum de Camarões, alguns escultores se destacaram e tinham clientela cativa. Quando esteve na África, Elbein conheceu, por exemplo, o escultor Fakeye, continuando uma tradição que já existia em sua família há cinco gerações. Nem sempre, entretanto, havia a figura do especialista, alguém que se profissionalizava na feitura desses objetos. De qualquer forma, na arte antiga, as peças eram sempre produzidas em consonância com tradições da comunidade e com finalidades específicas.</p>
<p align="justify"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/escultura-niger.jpg" alt="escultura-niger.jpg" width="257" height="607" align="left" />As celebrações coletivas – ligadas à época de plantio, colheita, rituais funerários, fecundidade e outras &#8211; também foram grandes agentes motivadores da arte, principalmente através das famosas máscaras, algumas muito grandes e pesadas, que são usadas acompanhadas de cânticos, roupas e danças. Algumas das mais famosas são as máscaras Geledés, objetos fundamentais nos rituais dessa associação feminina criada no reino de Ketu, conta o antropólogo Renato da Silveira. Alguns exemplares dessas máscaras que estão no Museu Afro-Brasileiro e também em algumas das mais antigas casas religiosas de Salvador expressam bem a “linguagem proverbial” que tantas vezes se percebe na arte africana, isto é, a transmissão de idéias com um fundo moral através da representação de uma situação ou história, explica o museólogo Marcelo Cunha. Além das máscaras, uma infinidade de outros objetos simbólicos ligados a festas, rituais e ao culto dos orixás era criada pelos artistas. Muitos desses símbolos foram fielmente transplantados para o Brasil e outros foram recriados, combinando memória e criatividade.</p>
<p align="justify">Durável, brilhante e forte, o metal foi usado com muitas finalidades na África. Daí a importância dos ferreiros, aqueles que sabiam lidar com temperaturas elevadas o suficiente para permitir a manipulação dos metais. Ferramentas, objetos do cotidiano, esculturas, adereços que inspiraram os nossos balangandãs e, é claro, armas. Ferro, cobre, bronze, latão e outros metais serviram também como matéria-prima de algumas das melhores expressões da arte africana: as esculturas de metal fundidas com o processo da cera perdida. Essa técnica foi provavelmente originária de Ifé, entre os séculos XII e XIII, como uma evolução da técnica do barro cozido.</p>
<p align="justify">O ocidente começou a conhecer melhor esses trabalhos quando, acidentalmente, foram desenterrados os bronzes do palácio real de Ifé, em 1937, e as peças de Igbo Ukwu, em 1939. Existiam vários centros de produção dessas peças, sendo um do mais produtivos o da corte do Benin, onde se desenvolveu um estilo especialmente naturalista. Caçadores,</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/escultura-benin31.jpg" alt="escultura-benin31.jpg" /></p>
<p align="justify">chefes, animais, figuras simbólicas são retratadas no metal em máscaras, bastões, placas e os mais diversos objetos. Um viajante holandês que conheceu o palácio real do Benin no século XVII explica que ele era cercado por pilares de madeira revestidos de cobre, onde estavam representadas cenas de vitórias. Apesar de muita coisa ter se perdido com o tempo ou estar ainda para ser descoberta, hoje em dia, muitas dessas peças já foram localizadas, sendo que a melhor parte delas foi parar em coleções de particulares ou museus europeus.</p>
<p align="justify">Na madeira, se esculpia quase tudo: máscaras, esculturas, recostos de cabeça, cadeiras, bancos, bastões, recipientes e centenas de outros objetos. Do imponente trono ao simples objeto do cotidiano, todos podiam ser cuidadosamente elaborados, como comprova a antropóloga Juana Elbein, mostrando um curioso espelho de madeira que ganhou na África: além de ter uma tartaruga e um pássaro esculpidos em cada extremidade, o objeto fica em pé sozinho. A madeira foi, provavelmente, o suporte onde a arte africana mais recorreu à geometrização das formas. “São figuras baseadas no triângulo, losango, retângulo ou que usam essas formas na definição dos traços e adorno das imagens”, explica Cunha.</p>
<p align="justify">Aliás, esse aspecto da arte africana até gerou polêmicas. Hoje em dia se conhecem muitos exemplos de trabalhos que demonstram um cuidado minucioso com a representação de rostos e corpos humanos, como a escultura do povo baulé, na Costa do Marfim, ou as peças do Benin. Mas, como são abundantes as peças que recorrem à geometrização ou representam partes do corpo de forma exagerada ou alterada, “esse recurso de figuração &#8211; usado para se destacar um aspecto da história, um mito que está sendo contado &#8211; foi traduzido muitas vezes como incompetência desses grupos em trabalhar com os cânones geométricos naturais. Hoje sabemos que não é nada disso, há todo tipo de forma de expressão na África. Na verdade, se trata de uma arte extremamente conceitual”, explica Cunha.</p>
<p align="justify">Portanto, foi todo esse universo de símbolos, cores e técnicas que os africanos trouxeram consigo quando vieram para o Brasil. Como viajavam às pressas, seminus e a contragosto, a bagagem teve que ser transportada apenas na memória. Um terreno fértil para a criatividade, as recriações, mas, ainda assim, capaz de guardar os elementos essenciais.</p>
<p align="justify"><strong>PARA USO LITÚRGICO<br />
</strong>Um estranho objeto foi encontrada na Praia da Calçada, no século XIX: uma escultura de madeira envolvida num pano alvo de linho, “o que quer dizer que tendo falecido o pai ou mãe de terreiro a quem pertencia, foi ele lançado ao mar com outros objetos do seu peji, por não haver quem o quisesse substituir na direção do culto”, explicou o antropólogo Nina Rodrigues. O mais intrigante sobre essa peça, entretanto, é o seu hibridismo: um típico objeto litúrgico afro &#8211; um cofre semelhante a um aperê de Ifá, recipiente com tampa usado para guardar sementes usadas na adivinhação – sobre uma base onde estão esculpidos dois homens e duas mulheres envolvidos na caça a um jacaré. Sendo que, quem tem a honra de aparecer montado sobre o animal e empunhar a faca é um homem “de raça branca, de olhos azuis e dentes enormes”, descreve Nina. Portanto, mais do que uma simples repetição da arte africana, esta peça demonstra a adaptação da expressão artística ao contexto local. Um fruto da arte mestiça que foi sendo, aos poucos, criada no Brasil.</p>
<p align="justify">Claro que não foi fácil para os subalternos preservar elementos simbólicos da sua cultura. As restrições sempre existiram, seja ao exercício de alguns ofícios, à representação pública de certos símbolos ou à manutenção de instituições que preservavam aspectos da cultura africana. Ainda assim, era tão grande a quantidade de negros e mestiços e tão intenso o comércio com a África que, a partir principalmente do século XIX, tornou-se possível importar objetos, tecidos, cores e formas daquele continente. Os nomes dos artistas brasileiros mais antigos que preservaram esses referenciais estéticos são difíceis de saber, mas não há dúvida que a religião funcionou como grande agente catalisador. Minas Gerais, Alagoas ou Bahia: por toda parte, às escondidas ou apelando para o sincretismo, foi nascendo a arte sacra afro-brasileira.</p>
<p align="justify">As esculturas, recipientes e ferramentas específicas eram fundamentais para o culto aos orixás, por isso, muitos objetos foram importados da África ou fabricados no Brasil. Quem analisou alguns exemplares dessas peças, ainda no século XIX, foi o médico e antropólogo Nina Rodrigues, em seu texto “As belas artes nos colonos pretos no Brasil – a escultura”. Além do cofre encontrado na praia, ele se refere a várias peças com os atributos dos orixás e representações de homens e mulheres africanos, identificados pelos traços, roupas e escarificações. Ele cita e mostra também objetos que exibem marcas nítidas de misturas culturais, como uma pequena Oxum, com o torço nu e saiote, ao modo africano, e com traços fisionômicos mestiços. Imagens que, naquela época, eram confiscadas pela polícia, quando os terreiros eram invadidos. Muitas delas foram parar no acervo do Museu Estácio de Lima e hoje estão expostas no Museu da Cidade.</p>
<p align="justify">Sendo ourives ou ferreiros, muitos se esforçaram também para não deixar desaparecer a arte de manipular os metais, alindo técnicas que tinham aprendido bem longe daqui com o aprendizado local. No Brasil colonial, trabalhar com metais preciosos como ouro e prata era legalmente proibido para negros, índios, muçulmanos e judeus. O artista plástico e pesquisador de história da arte Emanoel Araújo cita dois decretos portugueses, um de 1621 e outro de 1766, ordenando que “nenhum negro ou mulato ou índio, posto que forro, exercesse a arte da ourivesaria”, mas também registra que, na prática, isso não era respeitado. Num documento do século XVIII, por exemplo, ele encontrou referência a uma “Corporação dos Ourives Negros de Santo Amaro”. Afinal, que português ou brasileiro rico iria se ocupar de um serviço que escravos podiam fazer?</p>
<p align="justify"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/ferramenta-santo.jpg" alt="ferramenta-santo.jpg" align="left" />Só que além dos anéis, braceletes, brincos, pulseiras e balangandãs – pingentes em forma de figas, chaves, medalhas, peixes, etc. – ainda era preciso providenciar as ferramentas e adereços dos orixás. Entre os que atuaram nesse ramo no século XIX, ficou, por exemplo, o nome do africano Rodolfo Martins de Andrade, o Tio Bamboxê Obitikô, responsável pela criação do primeiro candomblé baiano junto com Iyá Nassô. Foi ele o autor da coroa de cobre dedicada a Xangô que existia na Casa Branca até a década de 60. Em geral, é difícil saber o nome do autor das peças mais antigas, restando apenas o nome de quem a possuiu, como um capacete de orixá que foi da mãe de santo Mirinha do Portão, que o artista plástico Gilmar Tavares está restaurando. Entre as obras-primas de anônimos, ele lembra ainda de um adjá que pertenceu a ialorixá Samba de Amongo.</p>
<p align="justify">Entre os especialistas em ferramentas de axé do século XX, a tradição guardou os nomes de Mário Proença e Mimito. Agora, um dos que prossegue com esse trabalho é Gilmar Tavares, que se considera um discípulo dos dois. Sempre gentil e tranqüilo, Gilmar nem parece o herdeiro de uma tradição que teve tanta dificuldade para sobreviver. Aliás, até o seu difícil trabalho &#8211; transformar latão, bronze, cobre e alpaca em ferramentas, coroas, braceletes, capacetes, cetros, couraças, espelhos e leques &#8211; parece ser feito sem esforço, com suavidade. “Não é difícil manipular o metal, o que demora é a criação, é o desenho que eu faço antes. Às vezes a idéia me vem num sonho, numa igreja, vendo um livro”, explica.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/gilmar.jpg" alt="gilmar.jpg" /></p>
<p align="justify">O seu ingresso nesse ofício aconteceu há 18 anos. “Peguei uma peça e senti que podia e queria fazer aquilo. Na época, eu era bancário, trabalhava com computador. Todo mundo ficou chocado”, conta ele, rindo. O aprendizado, explica Gilmar, veio da sua iniciação religiosa: “Sou ogã do terreiro Tingongo Muende, sou filho de Oxalá”. De Mimito, ganhou uma ferramenta “que tinha sido do pai dele” e valiosas orientações sobre os segredos dos metais. Aos poucos, seu trabalho foi sendo conhecido e hoje é difícil encontrar um terreiro em Salvador que não tenha alguma ferramenta sua. Depois, também meio por acaso, suas peças foram chegando às exposições, museus e galerias, sendo reconhecidas como arte: “Tenho trabalhos expostos na Alemanha, Chicago, França, Portugal, Argentina e em vários estados do Brasil”. Apesar de tudo, o ofício continua sendo difícil e pouco valorizado, tanto que Gilmar está decidido a se mudar para o Paraná, onde o interesse por seu trabalho tem sido grande. Ele não esconde, entretanto, que ainda tem muitos projetos na gaveta que incluem Salvador, para difundir os conhecimentos que adquiriu e tornar esse tipo de arte acessível a um público maior. A sua idéia é aliar as peças metálicas aos tecidos finos bordados pela irmã, Teresa Conceição. Aliás, os tecidos também são um capítulo à parte na arte africana.</p>
<p align="justify">Outro herdeiro de Bamboxê Obitikô e dos outros antigos artistas das ferramentas de axé é Mestre Didi, mas com uma diferença: como matéria-prima, ele só usa nervuras e palma de palmeira, couro, contas, búzios e palha da costa. Isto porque a sua arte nunca se separa das suas obrigações como sacerdote do panteão da terra, cujos preceitos devem ser respeitados. Pois foi como “Assogbá”, título confirmado em 1936 por Mãe Aninha, que Didi aprendeu a conhecer e manipular esses materiais e a produzir objetos rituais que hoje são sua fonte de inspiração.</p>
<p align="justify">No seu trabalho, ele produz “recriações” do que aprendeu desde pequeno com mestres do Ilê Axé Opô Afonjá sobre o universo de Nanã, Obaluaiyê e Oxumaré, explica o artista plástico e professor de História da Tecnologia e do Desenho Industrial da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Jaime Sodré, que escreveu uma dissertação de mestrado sobre a obra de Didi. No seu trabalho, Didi não usa máquinas, só agulhas, tesouras, vazadores, facas, alicates e um facão amolado. Hoje em dia, por causa da idade, uma das suas maiores dificuldades é conseguir as nervuras das palmeiras, que precisam ser retiradas de uma parte muito acima do solo, conta Sodré.</p>
<p align="justify"><img style="width:202px;height:616px;" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/didi.jpg" alt="didi.jpg" width="300" height="1046" align="left" />Filho da famosa Mãe Senhora e, desde 1975, um Alapini no culto dos Eguns, Mestre Didi é possivelmente o artista brasileiro que mais profundamente buscou conhecer e estudar a África. Como resultado, esculturas intrigantes, baseadas em emblemas dos orixás da terra e também em mitos e atributos dessas divindades, que são primordialmente referências à natureza. Portanto, não há como separar o seu trabalho do universo simbólico e religioso dos iorubás. Para exemplificar, a antropóloga Juana Elbein, esposa de Mestre Didi, mostra o que pode estar contido no símbolo de um orixá: “Ossain é o orixá da vegetação e de tudo o que emerge dela, como a medicina. Por isso, ele é representado por uma imagem quase abstrata, que sintetiza o poder e funções dessa entidade: uma árvore simbólica com sete galhos &#8211; um número simbólico – que tem um pássaro pousado na sua copa”.</p>
<p align="justify">Peças de Mestre Didi certamente farão parte do acervo do Museu com objetos sacros do candomblé que Jaime Sodré e outros especialistas estão planejando criar em Salvador. Ele conta que a idéia nasceu num seminário: “Representantes de todas as instituições organizadoras – Uneb, Ufba, Unifacs e Wayne State University, de Detroit, fazem parte de um comitê que está gerindo as idéias”. Sodré prefere não adiantar muitos detalhes, só conta que já se pensa em algum lugar na área da Barroquinha, bairro onde surgiu o primeiro candomblé brasileiro e que parcerias já devem estar firmadas até o próximo encontro da equipe organizadora, previsto para 2004, em Detroit.</p>
<p align="justify"><strong>ARTE BRASILEIRA<br />
</strong>Os amigos o chamavam de “Príncipe dos Hauçás”, numa referência à sua gentileza no trato, constante elegância, altura elevada e porte atlético. Um corpo lapidado em anos de trabalho duro, cortando lenha para as caieiras de Itaparica. Um dia, Agnaldo dos Santos resolveu tentar a sorte e foi parar ali no Porto da Barra, ponto de passagem obrigatório para os saveiristas do Recôncavo. Andou poucos metros e deu de cara com o atelier do escultor Mário Cravo Júnior e mais um bando de jovens artistas baianos promissores dos anos 50. Pediu emprego e foi aceito, para ser um faz-tudo. Simpático, trabalhador e discreto, o “príncipe” cativou todo o grupo e foi ficando, conta Cravo Junior. Aprendeu a manipular o ferro, o gesso, o oxiacetileno, até quando lhe pediram para fazer alguma coisa com a sua antiga e íntima companheira de trabalho, a madeira. Aí, finalmente, ele tornou-se um rei. A escultura de Agnaldo dos Santos, que infelizmente morreu muito jovem, desconcertou críticos e amantes da arte em todos os cantos: tanto pela sua qualidade como pela inexplicável semelhança com a arte clássica africana.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/agnaldo.jpg" alt="agnaldo.jpg" width="300" height="691" /></p>
<p align="justify">Como ocorreu com Agnaldo, o arrebatamento pela arte pode acontecer casualmente, sem planejar. Numa sala de aula, percorrendo um museu, olhando um livro de arte ou trabalhando com qualquer tipo de material, de repente, um novo mundo pode se descortinar. Na Bahia, o Liceu de Artes e Ofícios e a Escola de Belas Artes foram instituições fundamentais para várias gerações de artistas, tanto pelo ensino de informações técnicas, quanto por mostrar a jovens talentosos novos referenciais estéticos. Foi assim que muitos deles foram apresentados à arte africana e que acabaram percebendo a riqueza do universo simbólico que tinham à sua volta. Em outros casos, nem foi preciso tanto didatismo: o aprendizado como tecelão, serígrafo ou pedreiro foi suficiente para dar vida à expressão artística.</p>
<p align="justify">Era preciso conseguir o dinheiro, encomendar a algum comerciante que fosse para a África e aguardar meses para saber se a encomenda viria e, principalmente, na cor certa. Essa era a sina das baianas para conseguir os seus panos-da-costa, mas a demora valia à pena. Leves, delicados, coloridos e com a sutileza típica dos trabalhos manuais, esses tecidos que são usados como xale garantiam metade do charme e elegância das suas usuárias. Feitos de algodão ou palha da costa e parte indispensável do figurino das ialorixás, eles são considerados por alguns como talismãs. O que se sabe com certeza é que, nesses tecidos, também conhecidos como panos de Alaká, exibe-se muitas vezes as mais requintadas manipulações de cor da arte africana.</p>
<p align="justify">Como a espera era grande e os preços eram altos, felizmente, alguém resolveu iniciar a produção local do tecido. Um dos mais famosos tecelões do ramo foi Mestre Abdias do Sacramento. Natural de Salvador, ele aprendeu a técnica com o padrinho Alexandre Gerardes, um dos pioneiros na fabricação nacional desse tecido, e dele herdou um antigo tear africano, que hoje está no Instituto Feminino. Mestre Abdias já se foi, mas outros tecelões baianos estão prosseguindo com a tradição.</p>
<p align="justify">Um deles é Zelito José Pinto, que explica um pouco do mistério em torno do tecido. “Dá muito mais trabalho, leva muito tempo pra fazer, porque, pra ficar leve, ele tem que ser feito com linha bem fina. Você trabalha, trabalha e não vê o resultado”, explica ele. Mesmo com a experiência de quem já está no ramo da tecelagem desde os 13 anos, quando aprendeu a tecer em casa, com o padrasto, Zelito conta que leva dois dias e meio fazer um pano-da-costa com 70 centímetros por dois metros. Com seu sócio Rodrigo Veloso, na “Casa do Tecelão” ou no Instituto Mauá, onde dá aulas, Zelito vai pacientemente fabricando alguns panos. Uma missão partilhada também pela tecelã Maria Marta Muniz do “Arte Tear”. Enquanto aguardam outros candidatos ao posto, Rodrigo e Zelito explicam porque são tão raros os especialistas em pano-da-costa: “Falta paciência. Os mais jovens começam, aprendem e depois desistem”. Para eles, entretanto, além de um espaço de expressão e criatividade, tecer tem outra grande vantagem: “É como descansar um pouquinho do mundo”.</p>
<p align="justify">Os panos-da-costa também são uma fonte de inspiração para o artista plástico Alberto Pita, que preferiu entretanto investir no tingimento, chegando assim à arte da estamparia. Na África antiga, fabricava-se os adirês, tecidos tinturados por um processo similar ao dos indianos, espalhando goma antes de mergulhar o tecido no pigmento, para produzir efeitos cromáticos. Pita não precisou voltar tanto no tempo, preferindo usar o que tinha aprendido na serigrafia para fazer as suas primeiras estampas para indumentárias de blocos afros baianos: “Isso começou lá nos anos 70. Estavam surgindo alguns blocos, me pediram pra fazer as estampas e eu resolvi usar uma temática afro, com formas, ferramentas e símbolos de orixás”. A influência básica era a convivência com os terreiros e com sua mãe, a Ialorixá Santinha, do Ilê Axé Oyá: “Ainda me inspiro muito nos bordados, richeliês e fuchicos que ela faz”, conta Pita.</p>
<p align="justify">Além dos símbolos, Pita mergulhou também nas cores da África, de uma nova África, aquela dos movimentos de libertação do colonialismo, do pan-africanismo: “Por isso cheguei no amarelo, vermelho e verde do Olodum, onde trabalhei por 15 anos. Também fui colocando outras cores: em 1990, usei o preto e branco, em 1992, optei pelo lilás”, conta ele, que trabalhou ainda para afoxés e blocos como Badauê, Apaches, Guaranis, Muzenza, Obá Layê e hoje preside o Cortejo Afro.</p>
<p align="justify">Alberto estava também retomando aqui as mesmas cores vibrantes e formas simbólicas que estão nas antigas tapeçarias do Daomé ou nas bandeiras do povo Fante. O que havia em comum era o hábito de se inspirar no colorido do mundo à sua volta. Um colorido que hoje ele tem levado a exposições internacionais, capas de cds, cenários de shows, estamparias para residências, roupas para associados e cordeiros de blocos, “pra não ficar parecendo uma favela protegendo a classe média” e a instituições como o Projeto Axé, onde é consultor.</p>
<p align="justify">Nascido em Vitória da Conquista, em 1939, Zu Campos iniciou-se com o próprio pai, um mestre de obras, que lhe introduziu nos segredos das pedras, do cimento, da madeira. Depois, em Salvador, trabalhando como cicerone do Museu de Arte Sacra, descobriu os encantos dos objetos sacros cristãos: “Ia lendo tudo, conhecendo as peças, procedência e autor”, conta ele. Quando criou coragem, começou a exercitar-se, “primeiro, copiando os azulejos, com telas e tinta que eu mesmo fazia”. Até que conheceu um grupo de entalhadores de Olinda que precisavam de um lugar para preparar a próxima exposição. Zu cedeu o espaço que tinha e, observando com atenção, acabou aprendendo um novo ofício: “Amolei uma chave de fenda, improvisando um formão e fiz meu primeiro trabalho”. Em apenas um ano de produção foi convidado para expor na reinauguração do Teatro Castro Alves, em 1967.</p>
<p align="justify">Daí, o “anjo barroco” de carne e osso, como Jorge Amado o definiu, não parou mais. Morou um tempo no Rio, usando o atelier que tinha sido de ninguém menos do que Portinari, trabalhou muito &#8211; “esculturas, portas, brasões” -, deu muitas aulas e cursos “ensinar passou a ser a minha religião” e expôs no Brasil todo. “Aí senti necessidade de ter mais teoria e fui fazer universidade. E foi na Escola de Belas Artes que comecei a me interessar pelo temas afros, a freqüentar candomblés e a me introduzir no culto. Hoje sou um zelador de terreiro, sei o que posso explorar ou não no meu trabalho”. Passou a fazer então murais, esculturas, altares, máscaras, estandartes, ferramentas e decorações carnavalescas com inspiração afro.</p>
<p align="justify">Hoje em dia, o trabalho de Zu é completamente ecumênico: com o mesmo carinho, ele produz orixás como os que estão no Museu de Antropologia de Frankfurt; imagens de santos, como o Cristo que consumiu uma tonelada de barro e aventura-se até por Budas. “Estou finalizando um para a Casa do Japão, feito em massaranduba, que vai ficar ao ar livre”. Ele prossegue também com suas aulas de iniciação à escultura no Museu de Arte Moderna da Bahia, como faz há 17 anos e ainda compartilha o seu atelier na Rua Areal de Baixo, no Dois de Julho, com aprendizes curiosos.</p>
<p align="justify">No seu trabalho, portanto, Zu Campos sintetiza bem o que de mais importante aconteceu na arte brasileira e baiana. Muito mais do que apenas a preservação de tradições importadas, criou-se uma arte nova, que incorpora, na mesma milagrosa medida, a herança de quem veio para cá como chefe e de quem veio como escravo, dos patrões e dos empregados. Um fenômeno, apesar de todas as suas imperfeições e limitações, muito raro, belo e inspirador.</p>
<p style="text-align:center;" align="justify"><img style="width:286px;height:708px;" src="http://soteropolitanosculturaafro.files.wordpress.com/2007/10/escultura.jpg" alt="escultura.jpg" width="248" height="665" /></p>
<p>As imagens foram reproduzidas dos livros  &#8220;A mão afro-brasileira&#8221;, &#8220;África, o despertar de um continente&#8221;, &#8220;África&#8221;, do catálogo &#8220;Mestre Didi&#8221; e do fascículo 8 da coleção &#8220;Memórias da Bahia&#8221;</p>
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		<title>Oficinas de auto-estima</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Oct 2007 23:53:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[por Nadja Santos
“Eu, antes das oficinas, vivia isolada, me achava feia. Os meninos da Escola botavam apelido em mim e me chamavam de cabelo duro, nega maluca, carvão, e eu achava que tudo era verdade. Agora, me acho linda e me gabo com minha cor, meu ensino e acabei com o racismo em relação as [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosculturaafro.wordpress.com&blog=1617593&post=12&subd=soteropolitanosculturaafro&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="justify">por Nadja Santos</p>
<p align="justify"><a href="http://bp2.blogger.com/_973wIKk3WZc/Rlj4pola5EI/AAAAAAAAAVE/bKrkybRRoAU/s1600-h/nadja-imagem.jpg"><img style="float:left;cursor:hand;margin:0 10px 10px 0;" src="http://bp2.blogger.com/_973wIKk3WZc/Rlj4pola5EI/AAAAAAAAAVE/bKrkybRRoAU/s400/nadja-imagem.jpg" border="0" alt="" /></a>“Eu, antes das oficinas, vivia isolada, me achava feia. Os meninos da Escola botavam apelido em mim e me chamavam de cabelo duro, nega maluca, carvão, e eu achava que tudo era verdade. Agora, me acho linda e me gabo com minha cor, meu ensino e acabei com o racismo em relação as pessoas que me criticavam, hoje estou feliz”. Esse relato é da estudante Deyse Carla, 12 anos, aluna do Colégio Pirajá da Silva. O depoimento ocorreu no Núcleo de Multiplicadores da História e Cultura Africana e Afro brasileira promovido pelo Coordenadoria Regional de Educação do bairro da Liberdade, o maior bairro negro da América Latina, sob orientação da consultora Hildalia Fernandes.<span class="fullpost"> <span id="more-12"></span></span></p>
<p align="justify">O CRE (Coordenadoria Regional de Educação) da Liberdade auxilia 27 escolas da rede municipal de ensino, o órgão é mantido pela prefeitura para acompanhar de perto a situação do ensino de cada bairro. Existem 11 coordenadorias funcionando na cidade, a do bairro da Liberdade é a de número 4. Os cursos fornecidos pela Coordenadoria são ferramentas para serem usadas na sala de aula, pelos educadores e coordenadores. As orientações da grade de ensino não são apenas as de fins pedagógicos, do currículo escolar infanto-juvenil e sim trabalham com o diferencial que é orientar os professores e diretores a lidar com a diversidade racial e social nas salas de aula e remeter a valorização da História Africana, cercada muitas vezes de mitos e preconceituosas referências.</p>
<p align="justify">O governo federal, em 9 de janeiro de 2003, tornou obrigatório nos Ensinos Fundamental e Médio (públicos ou particulares), o estudo sobre a História e Cultura Afro-Brasileira para propor um novo olhar sobre a África e o negro brasileiro. Segundo Jô Bahia, coordenadora do CRE da liberdade, a lei não funciona sozinha: “É preciso envolver não apenas os alunos matriculados, mas também toda a sociedade, para que ela veja a História da África sob um ângulo real e aprenda a ver a contribuição social, econômica e cultural do negro na sociedade brasileira, sem mistificações ou visões européias”. <a href="http://bp1.blogger.com/_973wIKk3WZc/Rlj4fYla5DI/AAAAAAAAAU8/29HbBvj_a1w/s1600-h/nadja-imagem2.jpg"><img style="float:right;cursor:hand;margin:0 0 10px 10px;" src="http://bp1.blogger.com/_973wIKk3WZc/Rlj4fYla5DI/AAAAAAAAAU8/29HbBvj_a1w/s400/nadja-imagem2.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<p align="justify">O CRE promove desde 2005, com o apoio da Secretária Municipal de Educação, oficinas que englobam os alunos, educadores e a família deles no intuito de combater o racismo e preconceito na quais as crianças são vítimas diariamente, inclusive dentro da própria família. A oficina que reúne alunos de escolas públicas do bairro tem por objetivo mostrar a História Africana, sob a ótica de fora da sala de aula, com foco principal a situação do negro na mídia em geral, trançando um paralelo entre ser negro e ajudando os alunos à não desenvolver preconceito pela própria raça, pois é notada que a maioria delas se sente feias, comparadas a outras crianças não-negras.</p>
<p align="justify">“Precisamos tocar nesse assunto na sala de aula diariamente. Há crianças aqui sem nenhuma base familiar que entram na sala com piadas racistas ou fazendo comparações de negros a animais, o papel do professor é interromper de imediato esse tipo de agressão, que faz com que o aluno discriminado não se sinta inferior, pois assim é bem mais fácil dele abandonar a escola, por se sentir incapaz”, afirma a professora Claúdia Leite, da Escola Intendente Francisco de Souza, também participante da Oficina.</p>
<p align="justify">As oficinas têm a participação de todas as matérias. Há lições de Geografia da África, e nas aulas, os assuntos vão do Egito ao Apartheid na África do Sul, política e economia antes e depois do processo de colonização e entre outros assuntos ligados a atualidade. As aulas mostram também, personagens reais como o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e grandes personalidades negras do Brasil, como o geógrafo Milton Santos que desenvolveu grandes pesquisas sobre a Geografia no Terceiro Mundo, popular entre o meio acadêmico, porém pouco conhecido do grande público.</p>
<p align="justify"><strong>Projeto sem patrocínio<br />
</strong>Devido à crise da prefeitura é possível que no ano de 2007, o projeto não seja tão grandioso quanto nos anos anteriores devido à falta de verba. A Secretaria de Reparação Social (SEMUR), que atua juntamente com a Secretaria Municipal de Educação na implantação da lei 10.639 informa que não há como disponibilizar pelo menos nesse primeiro semestre o capital necessário para o andamento do projeto, já que é uma ação paralela as já desenvolvidas pelo órgão. CRE da Liberdade continuará com as oficinas pelo menos com os alunos, as atividades serão mantidas para não haver uma interrupção do projeto que deu resultados positivos, como o aumento no interesse das aulas e a diminuição de situações de preconceito entre os alunos.<br />
(maio de 2007)</p>
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