O problema do negro ontem e hoje: da Antropologia criminal ao toque do berimbau

Isac Coelho Sousa (1)

O chamado “Projeto UNESCO” – realizado nos anos de 1951 e 1952 – não apenas abriu um caminho novo no sentido de apontar um vasto e diversificado quadro das relações raciais no Brasil, mas possibilitou o surgimento de novas leituras, situadas na problemática, das grandes mudanças que ocorriam no interior da sociedade brasileira, que estava imersa em uma passagem acelerada da sociedade tradicional (ainda com resquícios coloniais, baseada na economia plantation-exportador) para o processo de modernização capitalista. Ler mais »

Biblioteca afro

Inauguração da Primeira Biblioteca Comunitária Especializada em Cultura Afro-brasileira e Africana no subúrbio ferroviário de Salvador

No mês em que se comemora o Dia Nacional de Combate ao Racismo na Educação, 03 de maio, será inaugurada a primeira biblioteca comunitária especializada em cultura afro-brasileira e africana, denominada “Biblioteca Abdias do Nascimento – Espaço BNB de Incentivo à Cultura”. Trata-se de uma iniciativa de jovens militantes e artistas oriundos de diversos seguimentos dos movimentos sociais da cidade de Salvador, contando com o patrocínio do Banco do Nordeste e do Governo Federal através do Programa BNB de Cultura 2008. Este projeto visa incentivar a leitura e a valorização da auto-estima entre os moradores das regiões menos favorecidas, de população majoritariamente negra, ao proporcionar o acesso aos livros produzidos por autores negros ou voltados para esta temática, servindo ainda de instrumento no apoio para a implementação da Lei 10.639/03 ( que estabelece o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana nas escolas) e terá como sede o bairro de Escada, no subúrbio ferroviário de Salvador – Ba. Ler mais »

Mudando o rumo da história

 

meninos.jpg

por Agnes Mariano

Ainda era cedo. Os portões da Faculdade de Medicina da Bahia nem tinham sido abertos, mas já havia um movimento intenso de estudantes no Terreiro de Jesus. É que eles ardiam em curiosidade para conhecer o resultado do concurso para professor que, finalmente, seria divulgado. Os estudantes tinham acompanhado tudo de perto, lotando o salão nobre em cada uma das fases: prova prática, de didática e defesa de tese. O objetivo era evitar “marmelada”, afinal, eles sabiam que não seria fácil para o jovem médico negro Juliano Moreira vencer um concurso numa instituição com fama de racista, frente a uma banca examinadora majoritariamente escravocrata. A libertação dos escravos, com a assinatura da Lei Áurea, tinha acontecido há apenas oito anos. Foi por isso que, naquela manhã de maio de 1896, quando finalmente entraram no prédio, os futuros médicos mal puderam acreditar no resultado afixado no mural: ao todo, Juliano tinha recebido 15 notas dez. A vaga era dele. Ler mais »

Encantos de Alabê

Mães de santo

mae-aninha2.jpg

por Agnes Mariano

Mesmo antes de chegar ao Brasil como escravas, elas já conheciam a violência da guerra entre povos africanos vizinhos, que vendiam aos traficantes portugueses os prisioneiros vencidos. Mas elas nunca conheceram o medo. Na África, as mulheres yorubás participavam do conselho dos ministros, tinham organizações próprias e chegaram a liderar um intenso comércio que incluía rotas internacionais. Foi por isso que, na Bahia do início do século XIX, elas conseguiram o que parecia impossível: deram à luz uma organização religiosa que conciliava tradições de diferentes povos, resistindo à miséria da escravidão e à perseguição policial. No candomblé, com diplomacia, inteligência e fé, elas reuniram todos os elementos necessários para garantir ânimo e auto-estima ao seu povo. O título que receberam expressa bem o misto de liderança religiosa, chefia política e poder terapêutico que exercem: mães-de-santo. Ler mais »

Acará

baianaluz.jpg

por Agnes Mariano

A cena se repete há décadas, sempre no mesmo lugar. No pequeno largo que dá acesso à lagoa do Abaeté, ela surge sem avisar. Toda de branco, veste-se majestosamente, com uma longa saia engomada, linda bata feita de rendas e torço delicado sobre os cabelos. Maquiagem, um discreto esmalte cor-de-rosa, colar, brincos, pulseiras e anéis dourados completam a indumentária dessa filha de Oxum e Iansã, que combina fala mansa e temperamento obstinado. Com andar firme, mas sem pressa, mal olha para os lados ao atravessar a rua, enquanto os carros param para vê-la passar. Quem a vê assim, como uma rainha, nem imagina que a vida de Cira é feita de muito suor e esforço. Ela acorda cedo, compra pessoalmente os ingredientes, participa do preparo da massa e acompanhamentos, orienta suas funcionárias sobre cada detalhe. Depois vem a hora da venda na rua, fritando os bolinhos e atendendo os fregueses até altas horas, todos os dias. Quem começou tudo foi sua mãe, que já ocupava esse lugar antes dela nascer. Naquele tempo, Itapuã era pouco habitada, a clientela era pequena e mesmo no resto da cidade não havia muitas baianas. Hoje, as coisas mudaram. Aonde quer que elas estejam – Cira, Dinha, Loura, Chica, Ivone, Neinha e tantas outras - uma multidão se desloca diariamente para reverenciá-las e deliciar-se com o quitute incandescente que somente elas sabem fazer: o acarajé. Ler mais »

Mãos negras

rafael-pinto.jpg

por Agnes Mariano

Essa história começa no tempo em que um negro só se tornava artista se tivesse, na mesma medida, força nos músculos, habilidade nas mãos, inteligência aguda e um coração sensível. Porque as mesmas mãos que cortavam a madeira, quebravam as pedras e forjavam o metal para erguer paredes, monumentos e cúpulas, também eram as mãos que esculpiam os contornos mais delicados e criavam as mais sutis combinações de cores. Contornos e cores que são a alma das nossas igrejas, terreiros, palacetes e casebres. Eram ferreiros e ourives, pedreiros e escultores, pintores de paredes e de telas. Como boa parte da mão-de-obra que ergueu o Brasil foi importada da África, esses “artesãos-artistas” acabaram se encarregando de trazer para cá também símbolos, formas, técnicas e cores da arte tradicional africana, que, junto com a contribuição estética dos índios, portugueses, holandeses e outros povos, criaram aquilo que costumamos chamar de arte brasileira.

Ler mais »

Oficinas de auto-estima

por Nadja Santos

“Eu, antes das oficinas, vivia isolada, me achava feia. Os meninos da Escola botavam apelido em mim e me chamavam de cabelo duro, nega maluca, carvão, e eu achava que tudo era verdade. Agora, me acho linda e me gabo com minha cor, meu ensino e acabei com o racismo em relação as pessoas que me criticavam, hoje estou feliz”. Esse relato é da estudante Deyse Carla, 12 anos, aluna do Colégio Pirajá da Silva. O depoimento ocorreu no Núcleo de Multiplicadores da História e Cultura Africana e Afro brasileira promovido pelo Coordenadoria Regional de Educação do bairro da Liberdade, o maior bairro negro da América Latina, sob orientação da consultora Hildalia Fernandes. Ler mais »

De Zumbi a Oxóssi

Crianças aprendem história e cultura afro em sala de aula
por Wilde Barreto

- Hoje, quando eu estava vindo pra escola, vi uma macumba.
- Não. Você viu uma oferenda!

Esse diálogo presenciado pela professora fazia parte de uma conversa informal entre dois de seus alunos. Ana Helena dá aulas ao pré II e conta orgulhosa como é comum as crianças reagirem contra desrespeitos a rituais da cultura negra. Elas estudam na Escola Municipal Malê Debalê, que fica no bairro de Itapuã e possui educação infantil, 1ª e 2ª série. A nova postura desses alunos diante da discriminação e do preconceito está sendo possível graças à implementação da lei 10.639, que traz em seu texto diversas alterações a lei 9.394, existente desde 1996. A antiga lei foi criada para incluir a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” no currículo escolar do ensino fundamental e médio, sua principal e mais comemorada mudança foi tornar-se obrigatória. Ler mais »

“No candomblé, é a gente que se supera, não tem que superar o outro” - Entrevista com Mãe Stella de Oxóssi

mae-stella.jpg

 

Numa manhã de quarta-feira, entre uma consulta e outra, Mãe Stella de Oxóssi nos recebeu na casa de Xangô e falou sobre o sacerdócio, a história do candomblé baiano e do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. A conversa não pôde ser longa, porque, como sempre, uma fila de pessoas aguardava por seus conselhos. Ao seu lado, o inseparável pastor alemão. Iniciada na religião dos orixás há mais de 60 anos, Maria Stella Azevedo dos Santos é mesmo uma mulher singular. Assim como fizeram suas predecessoras no Afonjá, Mãe Stella mantém a tradição religiosa herdada da África com uma seriedade que faz desse terreiro um referencial para todo o candomblé. Uma tarefa que, garante ela, a absorve integralmente. A autora de livros, enfermeira e funcionária pública aposentada tem que dividir o seu tempo entre as atividades religiosas, as consultas e as solicitações de entrevistas, palestras e conferências em vários países. Com voz branda e uma fluência verbal invejável, ela revela a clareza e inteligência que a tornaram uma líder religiosa respeitada em todo o mundo. Mas, para as crianças do Afonjá, ela é apenas a “Tia Stella”.

por Agnes Mariano Ler mais »

“Movimento afro a gente faz no dia-a-dia” - Entrevista com Carlos Alberto Alves de Almeida

por Taiana Laiz

“A mídia só destaca o trabalho da cultura afro daqueles que já se destacaram”, afirma Carlos Alberto Alves de Almeida, mais conhecido como Bimbau, expondo sua insatisfação com relação à abordagem que a mídia dá às entidades afros de Salvador. Em 1982, sendo chamado para integrar a diretoria do Afoxé Badauê, a sua vida começou a mudar e hoje ele é adorado nas comunidades afros de Salvador. Baiano legítimo, é coordenador-geral da produção artística afro do Subúrbio, e já foi destaque em algumas das principais folhas culturais da cidade, embora ainda seja um quase desconhecido entre algumas das entidades existentes na Bahia. Nesta entrevista, ele reafirma sua verdadeira profissão, e expõe seu desagrado com relação à ajuda do Estado. Ler mais »